6 passos para ampliar o horizonte e pensar como um futurista

Como será o amanhã na vida real? Para quem estuda o assunto, mais frenético do que dramático. Veja como se adaptar a mudanças rápidas e intensas

Na ficção, os anos que estão por vir são, a um só tempo, atraentes e tenebrosos. De um lado, as tecnologias facilitam a vida. De outro, a transformam em verdadeiro inferno. O temor é perceptível em obras recentes aclamadas pela crítica, como a série da HBO Years and Years, que aborda a influência sombria da tecnologia no sistema político, e o livro Máquinas como Eu, do escritor inglês Ian McEwan, que discute a supremacia da inteligência artificial.

Mas como será o amanhã na vida real? Para quem estuda o assunto, mais frenético do que dramático. A única certeza, dizem os especialistas, é de mudanças rápidas e intensas.

Rosa Alegria, futurista e mestre em estudos do futuro pela Universidade de Houston, nos Estados Unidos, usa quatro palavras para definir os próximos anos: voláteis, incertos, complexos e ambíguos (expressões que, no inglês, deram origem ao famoso termo Vuca). De acordo com ela, isso nos obrigará a ter múltiplos planejamentos.

Quem se basear no que já conhece e tiver apenas um caminho desenhado para si, o que vale essencialmente para a carreira, correrá o risco de ser engolido pelas transformações. “Será preciso olhar com atenção para mercados emergentes e imaginar novas profissões.”

Em vez de ser pessimista, segundo a futurista americana Elatia Abate, o melhor é ser pragmático. “Tendo em vista que a única certeza é de mudança, explore quais serão as possibilidades daqui para a frente e como será impactado por elas. Se não fizer esse exercício, você reagirá mal a uma eventual crise”, diz. Assim atua um futurista. Busca entender os movimentos provocados pelas novas tecnologias e esquadrinhar seus possíveis efeitos.

“Em nossa empresa, por exemplo, temos um lema: quem não pensa no futuro resolve os problemas do presente com as ferramentas do passado”, resume Santiago Andreuzza, cofundador da Aerolito, laboratório de desenho de cenários futuros e imersão em novas tecnologias.

Para evitar que você caia nessa armadilha e perca o bonde da inovação, VOCÊ S/A reuniu as principais dicas dos futuristas para ler os sinais do mundo moderno e não ser passado para trás pelo que virá pela frente.

 

1. SEJA CURIOSO

“O futurista é um observador. Sabe que as ideias não nascem prontas e que, para imaginar cenários, é preciso ler muito, variar o referencial e cruzar informações”, diz Ligia Zotini, pesquisadora de futuro e fundadora do Voicers, plataforma de educação que busca democratizar o acesso às novas tecnologias. Nesse sentido, os estudiosos de futuro usam e abusam da internet, vasculhando pesquisas, reportagens, vídeos, cursos e opinião de usuários.

Eles também devoram livros, filmes e séries que abordam uma temática vanguardista. Mas, atenção, fazem isso com ressalvas. “Obras de ficção científica, em geral, são distópicas. E retratam o futuro como uma desgraça. No Voicers fazemos uma brincadeira: assistimos e, depois, tentamos repensar a mesma história com viés positivo”, conta Ligia, sugerindo aos leitores praticar o exercício com episódios de Black Mirror, série da Netflix.

Outra dica é deixar de lado o que você já sabe. “Não importa quantos diplomas você tenha, coloque na cabeça que sempre é possível descobrir novas perspectivas. E você não precisa gastar milhares de dólares para conseguir isso. Em vez de virar à direita, como sempre faz ao voltar do trabalho, vire à esquerda. Um ato tão simples quanto esse já desperta nosso cérebro”, ensina a futurista Elatia.

2. FILTRE AS INFORMAÇÕES

Redes sociais, aplicativos de mensagens instantâneas, plataformas de streaming. Estamos na era da informação. A cada 60 segundos, trocamos 188 milhões de e-mails; produzimos 18 milhões de mensagens de textos; e publicamos 4,5 milhões de vídeos no YouTube. O que um futurista faz para lidar com tantos dados? Ele filtra o conteúdo.

Em tempos de fake news e números forjados, quem não faz isso corre o risco de chegar a conclusões equivocadas. Pergunte-se sempre: qual é a fonte dessa notícia? Quem é o autor desse texto? Quem patrocinou essa pesquisa? Há algum interesse por trás? “Seja crítico. Não adianta nada ter 500 fontes se não atentar para a precisão e a idoneidade delas. Numa pesquisa recente para uma palestra, por exemplo, adotei o conteúdo divulgado pelo Banco Mundial e pela IBM, duas instituições nas quais confio”, diz Elatia.

Depois de checar a relevância e a credibilidade, estruture a informação. Rosa destaca alguns passos nesse processo: “Primeiro, analise o contexto macro. Depois, faça cruzamentos e aprofunde a análise, imaginando os possíveis impactos em sua vida, sua profissão e seus negócios”. A futurista diz ainda que toda pesquisa de futuro é multitemática. Ou seja, não prioriza um assunto em detrimento do outro e considera diferentes aspectos para desenhar um cenário, como economia, cultura, política, tecnologia e meio ambiente.

3. ANTECIPE-SE ÀS MUDANÇAS

“O futurista pode até ter medo da mudança, mas, como entrou em contato com as ondas de transformação de três a cinco anos antes do que as outras pessoas, ele não se paralisa”, diz Ligia. Estar à frente dos acontecimentos é, de fato, uma vantagem competitiva, pois permite vislumbrar problemas com antecedência e se prevenir.

Lembrando que o diferencial dos futuristas não é o conhecimento técnico em TI, mas a capacidade de captar movimentações relevantes no processo de digitalização. “Uma premissa importante, que aprendemos com Stuart J. Firestein [biólogo, neurocientista e professor na Universidade Colúmbia, nos Estados Unidos], é sofisticar a ignorância. Ou seja, focar menos as respostas e mais a capacidade de gerar perguntas.

Nosso objetivo é fazer perguntas que os outros não estão fazendo. Até porque o pensamento linear nos impede de enxergar mudanças”, diz Santiago, da Aerolito. Elatia concorda. Para ela, como vivemos tempos de exponencialidade, qualquer pensamento muito linear corre o risco de perder a validade. “Estamos sofrendo impactos de várias tecnologias ao mesmo tempo. Essa é a grande diferença entre os séculos 20 e 21”, afirma.

Nesse contexto, segundo a especialista, há dois grupos de pessoas: as que são vítimas das circunstâncias e as que são donas do próprio destino. Quer pertencer ao segundo? Derrube velhas premissas. “Não adianta culpar o mercado, a economia, o chefe. Se não pode mudar a mudança, busque maneiras de se adaptar a ela”, diz Elatia.

4. OBSERVE OS SINAIS

Estar vigilante às tendências e, mais que isso, aos impactos que elas trazem é um pré-requisito na prática da futurologia. “Se eu pudesse dar uma dica de atuação, seria: avalie se a tecnologia que está chegando à sua área apoia o ser humano na execução de determinada tarefa ou o substitui”, diz Elatia. Fazer essa distinção possibilita compreender para onde caminha um setor, se um trabalho será seguro ou não no curto e no médio prazo e quais habilidades podem ser desenvolvidas no decorrer desse processo.

5. ELABORE HIPÓTESES

Se você consegue fazer uma boa leitura de sinais, conforme apontado no passo anterior, então está pronto para enfrentar o maior desafio de um futurista: a análise de conjunturas. Segundo Ligia, imaginar como será o amanhã demanda a construção de três cenários: o possível, que abarca os próximos cinco anos; o provável, que simula os próximos dez; e o desejável, que ensaia algo bem lá na frente.

“Lembrando que nós não pensamos nenhum desses cenários olhando para o futuro, e sim para o presente”, afirma ela. Para quem está no mercado, isso significa avaliar o contexto atual. Quais são as vagas mais demandadas e para quais falta mão de obra hoje? “Esse é um sinal forte de oportunidade de emprego nos próximos anos”, exemplifica a pesquisadora do Voicers, reforçando que 20% dos empregos vão acabar, mas os outros 80% continuarão existindo e serão ressignificados, exigindo flexibilidade e perspicácia. “Quando apenas esperamos o futuro acontecer, não tomamos iniciativa”, alerta Rosa.

6. TENHA UMA MENTALIDADE DE TESTE

Se você deseja se conectar com o futuro, procure ser um laboratório de novidades. Experimente o máximo de coisas que conseguir: modelos de negócios diferentes, novas formas de trabalhar, novidades tecnológicas. A ideia não é ser alguém deslumbrado por gadgets, mas uma pessoa que vivenciou uma inovação — e, portanto, sabe do que está falando.

Use uma impressora 3D, faça uma imersão em realidade virtual, converse com a Alexa (home speaker, da Amazon), busque um curso de agile. “Vá atrás dessas experiências. Futurismo tem a ver com progresso tecnológico. E, com tecnologia, quando ficamos apenas no campo teórico, há dificuldade de aterrissar. Você pode ler sobre realidade imersiva, mas, quando entra em uma, em meia hora entende do que se trata. ”, alerta Ligia.

 


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