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Você S/A / Organize suas finanças / Edição 9124 / Entrevista - Guardar dinheiro é contra a natureza

Guardar dinheiro é contra a natureza

Gastamos mais do que podemos para não frustrar nossos desejos de realização imediata

 10/06/2010

Crédito: Claudio Rossi
Vera Rita de Mello Ferreira, especialista em psicologia da economia - Crédito: Claudio Rossi
Vera Rita de Mello Ferreira, especialista em psicologia da economia

 

 

Quem é que não sonha em guardar dinheiro e ter muita grana no futuro? Todo mundo. O problema é como sair apenas da ideia e chegar à ação. 

A psicanalista Vera Rita de Mello Ferreira, especialista em psicologia da economia, afirma nesta entrevista que é difícil guardar dinheiro porque não conseguimos lidar com a frustração de ter um desejo imediato negado em prol da realização de um projeto num futuro ainda indefinido. Contudo, ela mostra que esse impulso pode ser controlado. 

Por que é difícil guardar dinheiro? 
Para muita gente, o fato de ter de cortar uma despesa hoje para conseguir um bem maior lá na frente é insuportável. Essa atitude acontece com quem ganha muito e com quem ganha pouco. Várias pesquisas já provaram que as ações frente ao dinheiro independem da remuneração: há famílias com renda inferior a 1 000 reais que conseguem guardar um dinheirinho todos os meses e há executivos bem pagos sem patrimônio algum e sem o menor controle sobre as próprias contas.

"Quase todos são como Homer Simpson: não têm disciplina para poupar”

Como mudar essa situação? 
O jeito é amadurecer a relação com o dinheiro, pensar sobre as ferramentas disponíveis no cotidiano para poupar e desenvolver estratégias que sejam viáveis individualmente e para a família. É como fazer dieta — é preciso planejamento, determinação e ação.

O desejo de guardar dinheiro, malhar e fazer dieta são iguais?
Costumo brincar que quase todos são como o personagem Homer Simpson — que se imagina poupando, emagrecendo e malhando, mas não tem coragem de levar esses planos adiante. Poucos têm disciplina para concretizar esses objetivos com sucesso e desistem logo após a primeira frustração, ou têm recaídas de gastos depois de alguns meses. 

O que explica essa falta de persistência?
A grande armadilha é que o simples desejo de fazer uma dessas coisas sugere uma ideia de realização implícita. O cidadão que faz matrícula em uma academia e não assiste a nenhuma aula nunca irá se considerar um sedentário, pois sua intenção de malhar, materializada por meio da matrícula e da compra do tênis de corrida, já foi tomada. No inconsciente, essa pessoa tomou a atitude de sair do sofá, ainda que não o tenha feito.

Com o dinheiro é a mesma coisa?
Sim. Um belo dia você acorda e decide que vai poupar, porém, não neste mês, porque afinal você já se comprometeu com mil e uma despesas, mas no próximo, sem falta, irá guardar uma graninha. Só que o “próximo mês” nunca chega, porque sempre haverá o impulso de satisfação imediata a ser saciado.

Como resolver essa questão?
Para poupar sem sofrer há um subterfúgio muito útil: o desconto automático de um plano de previdência privada ou de uma poupança pré-contratada no banco. 

O que causa a resistência à poupança?
No Brasil, as pessoas não têm por hábito poupar. Esse fenômeno tem uma explicação histórica. Um longo período de inflação, com crédito difícil, fez com que o brasileiro não aprendesse a poupar. E teve ainda outro agravante: quem entrou pelo cano com o Plano Collor, em 1990, ficou ainda mais reticente em guardar dinheiro. Somente em 1994, com o Plano Real, houve estabilidade econômica e começou a surgir um embrião do que seria um planejamento financeiro para finanças pessoais. Nos últimos dez anos a consciência do investidor individual amadureceu muito.

"Não se exponha a tentações. Então, vá menos ao shopping”

E como está a situação agora?
Há muita informação sobre fi nanças, cursos, consultorias e mais gente interessada em aprender a multiplicar seus rendimentos. Também mudamos nossa visão em relação às ações. Um refl exo disso foi a crise de 2008, quando muitos investidores individuais mantiveram suas posições durante a turbulência, o que não ocorreu em outros momentos similares em anos anteriores.

Como evitar a frustração de guardar dinheiro agora para comprar algo no futuro?
O truque é manter uma reserva pequenapara gastos avulsos. Nem toda poupança deve ser pensada para uma aposentadoria daqui a 30 anos. Muito pelo contrário, cada indivíduo deve se permitir mimos ocasionalmente — um jantar a dois, um eletrodoméstico, enfim, algo que deseje, mas que não signifique um rombo no orçamento. Caso contrário, a vigilância rígida da conta corrente torna-se uma atividade opressora. O que não pode é perder o controle na frequência com que esses mimos são acionados. Para isso a dica é: não fique à mercê das tentações. 

Assim como uma pessoa de dieta não deve entrar diariamente em uma doceria, quem se propõe a guardar dinheiro não deve ficar exposto a itens que cobiça. Então, vá menos ao shopping.

Quem cede mais às tentações do consumo, os homens ou as mulheres?
Ambos são tentados igualmente, porém as mulheres são mais controladas, pois têm uma preocupação maior com o dinheiro da família. As mulheres são mais adeptas a comprinhas, coisas avulsas que, ao final do mês, podem desfalcar uma quantia considerável, mas que passam imperceptíveis no cotidiano por consumirem 50 reais hoje, 40 amanhã, 80 no fi m de semana. 

Os homens, por sua vez, costumam gastar pesado de uma só tacada, efetuando compras de quatro dígitos quando investem num equipamento de som para o carro, e por aí vai. Por outro lado, depois desse rombo, os homens tendem a controlar melhor o cartão de crédito.

Como envolver toda a família num plano de ação para poupar?
A melhor maneira é desenvolver três tipos de poupanças diferentes: uma para gastos de curto prazo, outra para médio prazo e a maior, para grandes investimentos de longo prazo, como a aquisição de um imóvel, por exemplo. Essas três formas de poupar aliviam a tensão e dão um retorno aos anseios mais básicos de consumo. 

Por exemplo, a poupança de curto prazo é ideal para ensinar as crianças a poupar, mostrando a elas que é possível adiar o impulso de comprar um brinquedinho hoje para ir ao cinema no fim de semana.

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uKoj5P , [url=http://eufspdbakfiq.com/]eufspdbakfiq[/url], [link=http://zmlvphutczod.com/]zmlvphutczod[/link], http://evjjtmvegrys.com/ - 03/06/2011 14:45:09

rKKA9I qhrqyfrsyoeh - 03/06/2011 08:20:25

What a joy to find such clear thinking. Tnkhas for posting! - 02/06/2011 04:25:18

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