Você S/A / Organize suas finanças / Edição 9124 / Crédito - Compre mais, gaste menos
10/06/2010

Do básico ao supérfluo. Dá para comprar praticamente tudo o que você quiser financiando em várias prestações. Os bancos ampliaram as linhas de crédito e os juros estão num patamar mais baixo em relação ao passado. O resultado apareceu rápido. Os empréstimos no país cresceram mais de 200% nos últimos nove anos. Por trás dessa expansão está a estabilidade econômica. O desemprego diminuiu, os salários aumentaram e o consumidor ficou mais confiante em planejar suas compras parceladas, sem sustos.
O controle da inflação e das contas públicas permitiu a redução gradual da taxa básica de juros da economia, a Selic. No final de 2003, a taxa Selic era de 24% ao ano. Atualmente, está em 8,75%. “O crescimento do crédito, desta vez, tem pilares sustentáveis”, afirma Francisco Pessoa Faria, economista da LCA Consultores, de São Paulo.
As vendas financiadas têm contribuído para fazer a economia crescer. De acordo com a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), em janeiro de 2009, quando os efeitos da crise econômica mundial ainda se faziam sentir, apenas 189 769 unidades foram emplacadas.
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Ninguém poderia imaginar que 11 meses depois ocorreria um recorde histórico na venda de automóveis, influenciada pelo desconto do IPI. Em dezembro do ano passado foram comercializadas 292 651 unidades, desempenho 50% melhor do que o de dezembro de 2008. Desse total, 70% foram financiados. Para ter uma ideia da mudança no cenário econômico, em 1998 o crédito era raro e cerca de 80% das vendas de automóveis eram feitas à vista. “Não há dúvidas de que havia uma demanda reprimida por crédito”, afirma Ademir Cossiello, diretor executivo do Bradesco.
Compra da casa própria
O fenômeno de consumo também chegou ao mercado imobiliário. Em 2009, a Caixa Econômica Federal fechou com 47,05 bilhões de reais em financiamentos imobiliários — a maior contratação habitacional de sua história. O volume de crédito é 102% maior do que o registrado em 2008 e 9,4 vezes acima do de 2003. “Essa é uma ótima notícia, porque não existe crescimento do país sem oferta de crédito, e o financiamento de imóveis é o principal alicerce da economia”, fiz Érico Ferreira, vice-presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi). Antecipar uma compra que você gostaria de fazer à vista usando o crédito pode ser um bom atalho.
Segundo dados do Indicador Serasa Experian de Inadimplência do Consumidor, na comparação anual de 2009 foi registrada uma queda de 2,2% no número de inadimplentes. Para os economistas, o consumidor que ficou desempregado durante a crise e recuperou seu emprego no segundo semestre de 2009 aprendeu a controlar seus gastos com cautela, uma prova do amadurecimento do brasileiro ao usar suas fi nanças.
Saiba usar o crédito
É possível usar o crédito sem correr o risco de ingressar na lista de inadimplentes. “A primeira lição é não comprometer mais do que 30% do seu orçamento”, afirma Mauro Halfeld, consultor de finanças pessoais e professor da Universidade Federal do Paraná. Atenção: inclua nesse percentual o total dos gastos com compras parceladas.
É comum as pessoas analisarem apenas o impacto de uma prestação, que pode ser de 10% no seu orçamento, mas se esquecerem que já têm outras para pagar e uma a mais poderá ultrapassar o limite dos 30%. “Acima desse valor, qualquer gasto a mais, ou a redução da renda, irá comprometer a sua capacidade de pagamento e de investimentos”, explica Mauro.
Depois, você precisa analisar qual será o destino do crédito. Nessa lista pode-se incluir o imóvel próprio e os gastos com educação. No caso da compra da casa própria, você se livra da despesa do aluguel. O financiamento para fazer um MBA ou uma faculdade pode ser considerado como uma aplicação em renda variável. “Com uma formação melhor, você pode aumentar suas chances de ter um bom emprego e ganhar mais. Mas é um investimento arriscado, já que você pode não conseguir um salário melhor”, alerta Mauro.
Vale também comprar o carro parcelado, mas só se você for utilizar o veículo para trabalhar. Caso contrário, faça a opção pelos financiamentos com prazos mais curtos e poupe para garantir uma entrada acima de 50% do valor total do veículo. Crédito fácil não compensa Financiar os desejos de consumo supérfluos é uma estratégia que só deve ser utilizada por quem já está com a vida financeira estabilizada. Se não é o seu caso, é melhor não se encantar pelo crédito fácil.
Antes, responda às seguintes perguntas: “Quanto economizaria se comprasse à vista?”, “Preciso disso agora?”. Se estiver convencido de que a compra é necessária, pesquise com calma as opções de crédito. Para quem comprou mais do que poderia e está endividado, a oferta de crédito pode ser uma aliada. “Troque uma dívida cara por uma barata. Pesquise juros menores para quitar um empréstimo que tem taxas elevadas”, diz o consultor financeiro Marcos Crivelaro, especialista em matemática financeira, de São Paulo. E evite obter um valor maior de dinheiro do que realmente precisa.
Crédito fácil não compensa
Financiar os desejos de consumo supérfluos é uma estratégia que só deve ser utilizada por quem já está com a vida fi nanceira estabilizada. Se não é o seu caso, é melhor não se encantar pelo crédito fácil. Antes, responda às seguintes perguntas: “Quanto economizaria se comprasse à vista?”, “Preciso disso agora?”.
Se estiver convencido de que a compra é necessária, pesquise com calma as opções de crédito. Para quem comprou mais do que poderia e está endividado, a oferta de crédito pode ser uma aliada. “Troque uma dívida cara por uma barata. Pesquise juros menores para quitar um empréstimo que tem taxas elevadas”, diz o consultor financeiro Marcos Crivelaro, especialista em matemática financeira, de São Paulo. E evite obter um valor maior de dinheiro do que realmente precisa.
RESPEITE O LIMITE DE 30%
Veja por que um endividamento além desse percentual pode comprometer sua capacidade de poupança
Não existe uma regra única para medir a capacidade de endividamento. A maioria dos especialistas em finanças sugere não ultrapassar 30% da sua renda. Essa também é a regra utilizada para algumas concessões de crédito, como o imobiliário. Para chegar a esse índice, os bancos usam como referência dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Sabe-se que os brasileiros gastam, em média, cerca de 50% da renda com moradia e alimentação, mais 18% com transporte.
A maior parte do orçamento está comprometida com gastos essenciais. Esse percentual varia e depende do padrão de vida de cada um. Se você está muito distante do que é indicado pelo IBGE, vale, por segurança, calcular sua capacidade de endividamento. Liste seus ganhos e subtraia as despesas fixas e variáveis. Considere uma projeção com o mesmo prazo do contrato de crédito que pretende assinar. A diferença representa a sua capacidade de endividamento. Inclua na lista cerca de 10% da sua renda destinada para investimentos.
O Crédito Direto ao Consumidor (CDC)
O CDC mudou a cara do consumo no Brasil. A primeira mudança foi em relação ao prazo, antigamente fi xado em 36 meses. O empréstimo oferecido no comércio para compras de bens de consumo e serviços, disponível nas lojas, financeiras e operadoras de cartão de crédito, pode ser pago em até 48 meses. Para automóveis, ele chega a 80 parcelas, segundo dados da Associação Nacional das Empresas Financeiras de Montadoras (Anef).
Mas o aumento do prazo nem sempre é uma vantagem para quem pretende fazer boas compras. “A parcela cai, mas aumenta o custo final do produto”, alerta o economista Miguel José de Oliveira, conselheiro administrativo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). “O financiamento de longo prazo é muito popular em países que têm juros baixos. Aqui, ainda é restritivo”, diz Miguel. Há alternativas.
O administrador de empresas Milton Pinto, de 42 anos, gerente comercial da concessionária Reauto Volkswagen, e sua mulher, a administradora Millene Karla, de 42 anos, de Belo Horizonte, encontraram uma delas. Em 2008, embarcaram para Paris para comemorar os 40 anos dos dois, financiando 50% da viagem. “Aumentamos a entrada para conseguir parcelar da maneira mais barata”, conta Milton.
Antes de fechar o financiamento, eles compararam os valores para pagamento à vista e parcelado e descobriram que não valia a pena pagar a viagem à vista. Optaram por deixar o dinheiro aplicado na renda fixa e mantiveram o plano de previdência privada para custear a faculdade da filha, que agora tem 8 anos. Eles financiaram a viagem em duas partes, uma no cartão de crédito e a outra diretamente com a agência de viagens.
Carro de luxo mais barato
O CDC também ganhou espaço no varejo da construção civil. O Banco do Brasil, o Bradesco e a Caixa Econômica Federal oferecem linhas de crédito específicas para a compra de materiais básicos e de acabamento. O limite de crédito do Bradesco varia de 500 reais a 7 000 reais, com juros de 5,37% ao mês. Para produtos de maior valor agregado, como os veículos de luxo, o CDC pode ter taxas inferiores a 1,55%. “Aumentando as garantias, os juros são reduzidos”, explica Roberto Lamy, diretor de financiamentos do Itaucred Financiamentos. Nesse caso, é possível até fazer bons negócios.
Foi o que fez Hélio Azevedo, de 44 anos, sócio da Sales Talent, empresa focada em treinamento, consultoria e outsourcing de vendas, em São Paulo. Há dois anos ele decidiu comprar uma moto BMW no valor de 70 000 reais, financiada em 36 meses. Os juros de 0,69% ao mês foram inferiores ao rendimento de uma aplicação em renda fixa. “Mantive o dinheiro aplicado.
Hélio Azevedo, 44 anos: ele financiou moto de luxo em 36 meses
Considero que comprei parcelado, mas sem acréscimo”, diz. Com essa estratégia, ele diluiu também o efeito da desvalorização da moto, estimada em 20% no primeiro ano. Se ele pagasse à vista, poderia tentar um desconto, mas não passaria de 5%.
Hélio fez todas as contas porque sua maior preocupação era evitar qualquer prejuízo para seus investimentos. O executivo ainda paga um consórcio do carro para o filho de 20 anos e mantém um plano de previdência privada. O consultor financeiro Marcos Crivelaro, de São Paulo, dá um alerta para o consumidor ficar de olho nas taxas.
A alíquota de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para pessoas físicas é de 0,0041% ao dia, além da cobrança adicional de 0,38% do total da operação. Valores que são um custo a mais.
CRÉDITO DIRETO AO CONSUMIDOR
Para quê: comprar bens duráveis e serviços. Pode ser feito nas lojas que têm convênios com bancos ou financeiras. Ou obtido por meio da operação chamada interveniência, na qual a própria loja garante o financiamento e depois negocia esses créditos com um banco. Prazo: de 3 a 96 meses.
Custo: taxa de abertura de cadastro, que pode variar de 5 reais a um percentual do valor financiado. Há ainda taxa de renovação do financiamento conforme o prazo e IOF.
Fique de olho: quando o cliente antecipa o pagamento da parcela tem direito ao desconto dos juros do contrato.
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