Você S/A / Organize suas finanças / Edição 128 / Dinheiro
Participar das assembleias de acionistas feitas pelas empresas de capital aberto não é uma tradição entre os investidores brasileiros. Enquanto nos Estados Unidos uma assembleia do Wal-Mart, a maior rede varejista do mundo, reúne 17 000 acionistas, no Brasil a realidade é outra. “O minoritário acha que qualquer manifestação sua é irrelevante e considera sua participação desnecessária”, diz José Carlos Hruby, diretor de relações com investidores da Lojas Renner. Ao deixar de ir às assembleias, o investidor perde a oportunidade de colher informações relevantes sobre a empresa, que podem ter impacto direto sobre o valor de suas ações.
Além da falta de hábito do brasileiro, outro fator dificulta a vida do investidor: a distância. As empresas de capital aberto são obrigadas por lei a organizar suas assembleias na sede da companhia e a distância se torna uma grande barreira para o investidor. Um acionista que não reside no mesmo estado em que acontece a assembleia, por exemplo, vai precisar de grana para pagar as passagens e o hotel, e ainda garantir um tempo na agenda para viajar. Para facilitar a vida desses investidores, o colegiado da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o xerife do mercado financeiro, aprovou em junho de 2008 o uso da internet para as assembleias. Em dezembro, a MZ Consulting, empresa que presta serviço para companhias de capital aberto, lançou um software que permite aos acionistas acompanhar e até votar pela internet.
As assembleias servem para que os investidores se informem dos rumos financeiros das empresas e decidam se vão ficar com seus papéis ou vendê-los. “É um bom momento para questionar o futuro da companhia”, diz Marcos Pinto, diretor da CVM. Todas as empresas de capital aberto são obrigadas a realizar uma vez por ano a Assembleia Geral Ordinária (AGO). A AGO deve acontecer nos primeiros quatro meses do ano, quando são analisadas as demonstrações financeiras do período anterior, a destinação dos lucros, a distribuição dos dividendos e a eleição dos administradores e do conselho fiscal. Só quem possui ações ordinárias da empresa pode votar. Porém, é permitido a qualquer acionista comparecer à AGO. “É a oportunidade de conhecer quem estará à frente da companhia, mesmo que o investidor não tenha direito ao voto”, diz Gisélia da Silva, gerente de assessoria do conselho de administração da CPFL Energia. Já a Assembleia Geral Extraordinária (AGE) pode ser organizada quando a companhia quer discutir os assuntos que não são mencionados na AGO, como, por exemplo, uma fusão ou a incorporação de uma outra companhia.
UM TIPO RARO
O aposentado carioca Gilberto de Souza Esmeraldo, de 66 anos, frequenta assembleias das empresas das quais tem ações há 27 anos. Vale, Petrobras e Bradesco são algumas das dez companhias que compõem sua carteira de ações. Ele é um tipo raro de investidor: o questionador. Há mais de dez anos, quando participava de uma assembleia da Vale, sugeriu o desdobramento das ações da companhia. Uma ação que custava 100 reais se desdobraria em duas e cada uma valeria 50 reais. “Eu sempre retomava o assunto. Até que a empresa analisou a minha sugestão e finalmente desdobrou os papéis”, diz. Isso tornou possível que mais pessoas investissem na Vale.
Com o aumento no número de empresas com capital pulverizado na bolsa, ou seja, que não possuem mais acionistas controladores, apenas acionistas minoritários, a CVM espera que o perfil dos participantes das assembleias mude logo. “A participação deles ainda é pequena, mas deve aumentar com o crescimento das companhias sem um acionista controlador”, diz Marcos Pinto, diretor da CVM.
Aprenda com quem sabe
O carioca Gilberto de Souza Esmeraldo, de 66 anos, que participa há 27 anos de assembleias, dá dicas para você se sair bem nas reuniões:
• Emita um extrato que comprove sua condição de acionista. Você pode solicitar o documento para sua corretora.
• Informe-se dos assuntos que serão tratados na assembleia. Eles estão publicados nos editais de convocação e nos jornais.
• Acompanhe os relatórios trimestrais e anuais da empresa, para saber o que perguntar.
• Quando não concordar com algo, exponha sua opinião. O acionista deve ter autonomia e não deve deixar de sugerir o que achar relevante.
• No final da reunião, quando o presidente da assembleia abrir a palavra aos acionistas presentes, você poderá questionar assuntos que independem da pauta divulgada no edital de convocação.
Assembleia pela internet
Veja como funciona a ferramenta tecnológica que permite que você participe e até vote na assembleia de uma empresa. A estimativa é que, até o final do ano, de 25 a 30 companhias adquiram o serviço:
• Cada acionista terá uma assinatura digital que comprovará sua identidade.
• Você pode se cadastrar no portal www.assembleiasonline.com.br, que oferece a assinatura digital. Depois de cadastrar a assinatura, acesse a área de votação e em seguida um no qual estão os nomes das linkcompanhias e o formulário de votação.
• A escolha do voto será encaminhada diretamente para a empresa e você receberá a confirmação do seu voto pelo seu email pessoal.
• O investidor deve acessar o sistema de votação 24 horas antes do início da assembleia, para não se prejudicar em caso de falha na conexão com a Internet.
• A Bematech, empresa que oferece soluções de automação comercial, de Curitiba (PR), e o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, de São Paulo, já estão usando o modelo de votação online.
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