Você S/A / Organize suas finanças / Edição 9124 / Planejamento 2 - Armadilhas do salário
09/06/2010

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Uma pesquisa realizada em março de 2010 pelo Instituto de Economia Gastão Vidigal, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), com 830 pessoas na capital paulista, mostrou que o salário mensal não tem sido suficiente para saldar as dívidas de 73% dos entrevistados. Segundo o estudo, as pessoas têm dois ou mais títulos em atraso e os motivos do endividamento são imprevisíveis. De acordo com o professor e educador financeiro Mauro Calil, um acidente, uma gravidez não planejada ou até mesmo o reparo imediato de algum problema em casa podem acabar com a saúde financeira de uma pessoa. Tornar-se inadimplente, mesmo sendo um bom pagador, não é impossível. Mas também não é o fim do mundo. Há saídas possíveis do turbilhão de números e contas a pagar.
Há quatro anos, quando se envolveu em um acidente na Marginal Tietê, em São Paulo, Luciene Santos, de 34 anos, enfermeira do Centro de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Sírio Libanês, não fazia ideia do tamanho do rombo que isso iria lhe causar no orçamento. Ela foi a última da fila de um engavetamento que envolveu mais dois veículos, portanto, a responsável pelo acidente e pelo ressarcimento dos demais. “Na hora fiquei tranquila, pois ninguém ficou ferido e o seguro pagaria os danos materiais. Até que liguei na seguradora e fui informada que minha apólice estava vencida. Havia me esquecido de renovar o contrato um mês antes”, conta.
Prejuízo de 15 000 reais
Sem cobertura ou reserva financeira, a enfermeira não conseguiu pagar o conserto do seu carro, nem comprar outro. Por ser um veículo financiado, acabou sendo vendido para uma oficina mecânica por um valor muito abaixo do mercado. E, para piorar, os outros envolvidos a acionaram judicialmente, cobrando na Justiça as perdas por dias não trabalhados e pelo conserto de seus respectivos automóveis. “Eu negociei e acabei pagando a dívida parcelada, mas mesmo assim o custo de minha distração foi alto. Somando tudo, entre o que perdi ao vender meu carro (um Marea 2002) e o pagamento dos demais, desembolsei cerca de 15 000 reais. Quitei a última parcela dessa dívida no mês passado”, diz Luciene.
Para o educador financeiro Mauro Calil, esse problema seria evitado se a enfermeira tivesse um bom corretor de seguros. “Gerentes de banco sabem vender muito bem vários tipos de seguros, mas não se preocupam com a renovação das apólices”, diz. Além disso, segundo Mauro Calil, o correto seria estar prevenido para esse tipo de situação, contando com o que ele chama de “colchão financeiro”, ou seja, uma reserva econômica. “Guardar pelo menos 15% da remuneração mensal em forma de poupança ou aplicações em renda fixa é uma boa forma de sair dessas armadilhas”, ensina.
O saldo da cegonha
Outra conta que também não sai barata é a da cegonha. A vantagem é que o casal tem nove meses de prazo para se organizar e colocar as finanças em dia. “É essencial evitar as compras caras por impulso, como carrinho de bebê, trocador e cadeirão. Outro item a ser considerado é se o imóvel onde a família vive precisará ser trocado ou ampliado — reformas ou mudança terão grande impacto no bolso”, diz Mauro Calil. Para o consultor, tudo tende a ser mais tranquilo se a grávida possuir um plano de saúde.
Para ter uma ideia, um parto cesariana em uma maternidade particular de primeira linha em São Paulo não sai por menos de 7 000 reais. Contudo, despesas com um bebê significam que outros custos deveriam deixar de existir. “Começa a lógica do entra fralda e sai happy hour”, afirma o consultor financeiro. Grávidos de cinco meses de seu segundo filho e com plano de saúde garantido, Mônica Genaro, de 31 anos, secretária executiva da Tayco Eletronics, multinacional de produtos eletrônicos, e seu marido, Alex, consultor da SAP, empresa de software de gestão empresarial, estão fazendo as contas e os ajustes necessários para a chegada não planejada do bebê. “É tudo muito caro, mesmo sendo o segundo, a gente esquece os custos”, comenta a futura mamãe, que irá aproveitar alguns móveis e acessórios que guardou do filho mais velho, Gabriel, de 5 anos.
Com uma dívida de 76 000 reais, que inclui a quitação do apartamento onde moram e mais 9 000 reais do financiamento do carro, a família pretende abrir mão de um segundo apartamento que tem em São Bernardo do Campo, em São Paulo, com valor estimado de 170 000 reais. Segundo Alex, parte do dinheiro será usada para quitar a dívida do apartamento da família e do carro financiado. “Ainda não fechamos um valor do que irá efetivamente sobrar para quando o bebê nascer, mas não quero que ele chegue em meio a dívidas. Por isso, estamos planejando cada operação financeira com prudência, para ficarmos com fôlego monetário”, diz Mônica. Seguindo a dica do consultor Mauro Calil, o casal Genaro deve destinar um pouco do montante da negociação para fazer o colchão financeiro.
A regra de ouro é o que ele chama de 70/30, ou seja, você tem de destinar 70% do seu salário a gastos essenciais (moradia, alimentação, transporte); 10%, no mínimo, para o futuro (aplicações financeiras variáveis, de acordo com o perfil de cada família) e os outros 20% para gastos financiáveis, coisas que se deseja comprar.
De acordo com o consultor, o orçamento financeiro deve ser dinâmico antes mesmo do nascimento do bebê. Mauro explica que, além dos custos usuais da família, é preciso fazer uma planilha com gastos projetados abarcando todo o primeiro ano da nova criança e suas despesas com vacinas, leite em pó, berçário, babá, roupinhas, medicamentos e brinquedos. “Isso dará aos pais uma noção das despesas no primeiro ano de vida do bebê e, a partir do total, será possível verificar quais aplicações financeiras serão mais interessantes para fazer o salário render mais”, recomenda Mauro Calil.
CARTÃO DE CRÉDITO: QUANDO OS JUROS ACABAM COM NOSSO SONO
Há muitas armadilhas que podem causar o endividamento no fim do mês e, quase sempre, um acúmulo de dívidas nos demais. Quando isso acontece, o cartão de crédito costuma entrar em ação ferozmente — com ou sem saldo. “O cartão era para ser uma ferramenta de prevenção do consumidor, e não para fazer dívidas”, diz Mauro Calil. Para aqueles que já usaram demais o dinheiro de plástico, a recomendação do professor é simples:
“Se não tiver dinheiro para quitar o saldo devedor, não pague o mínimo, não pague nada! Fale com a operadora e negocie uma nova maneira de quitar as dívidas pendentes”.
Mauro explica que, se a fatura era de 10 000 reais e você conseguiu pagar apenas 1 000 reais, no mês seguinte terá uma dívida de 9 000 reais mais juros de 14% ao mês, em média, além do crédito para continuar gastando.
“Se você cancelar o cartão negociando o débito já existente, não terá mais como gastar.” Outra possibilidade é trocar uma dívida cara por uma barata. Um empréstimo bancário, com taxas de até 5% ao mês, pode ser mais interessante do que pagar os juros altos do cartão. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) lançou no início de abril um site para ajudar quem não está conseguindo se livrar das dívidas: www.meubolsoemdia.com.br Quem sabe esse não é um bom começo para você sair dessa armadilha?
OUTROS PERIGOS DO IMPREVISTO
SER FIADOR DE QUEM NÃO HONROU AS DÍVIDAS
Apesar de o seguro-fiança ser uma opção, o tradicional favor ao cunhado, irmão ou amigo ainda é bastante usual como forma de garantir o cumprimento de contratos, em especial os de locação de imóveis. Mas pode sair mais caro do que se imagina. Segundo especialistas, além de arcar com as despesas de aluguel e impostos de quem não honrou com as dívidas, muitos contratos de locação preveem que o fiador responderá com seu patrimônio por uma obrigação não cumprida pelo devedor. De acordo com a Superintendência de Seguros Privados, ligada ao Ministério da Fazenda, responsável pelo controle e fiscalização dos mercados de seguro, foram pagos cerca de 90 milhões de reais em sinistros de seguro-fiança em 2009. Contudo, esse tipo de seguro ainda é caro: num contrato de locação, por exemplo, o valor da apólice, com pequenas variações nas tabelas praticadas pelas seguradoras, pode chegar a 130% do valor do aluguel mensal, parcelado em até 12 vezes e com validade de um ano. Isso acaba desestimulando o consumidor.
DÍVIDAS ESQUECIDAS NO CARTÃO DE CRÉDITO
É muito bom ter a possibilidade de comprar uma nova tevê, fazer a festinha de aniversário do filho num bufê infantil, ou ir com toda a família para os parques da Disney, nos Estados Unidos. Melhor ainda é parcelar tudo isso em mais de 10 vezes com juros baixinhos ou sem sobretaxa. Porém, se o consumidor não tomar cuidado, o sonho pode virar pesadelo. Para o consultor financeiro Gustavo Cerbasi, a melhor dica é quitar o maior número de parcelas antes da realização de um sonho. “Não tem nada mais frustrante do que voltar das férias e descobrir que ainda temos mais dez parcelas da viagem já realizada para pagar”, diz. Para o consultor, com o tempo, tendemos a nos esquecer dessas contas com muitas parcelas. “Daí, contraímos novas dívidas e entrando em apuros financeiros.”
COMPRAS MOVIDAS PELA EMOÇÃO
Neste quesito podemos classificar basicamente relacionamentos amorosos: o novo, quando você quer impressionar alguém, e o antigo, quando você quer compensar sua cara metade depois de alguma mancada. Na ponta do lápis, jantares caros, fins de semana românticos e shows podem lhe desfalcar em quase 1 800 reais em uma só tacada. Um jantar no famoso restaurante Fasano, em São Paulo, pode custar mais de 600 reais (sem vinho). Pousadas cheias de mimos saem por cerca de 890 reais a diária — só com café da manhã. E bons lugares num show não custarão menos de 300 reais.
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What a joy to find such clear thinking. Taknhs for posting! - 02/06/2011 12:53:56
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