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Uma semana em Harvard

Cursar a Harvard Business School deveria fazer parte do plano de carreira de qualquer executivo

Por Marcelo Carrera, 40 anos, executivo da Vignette

Existe uma enorme diferença entre fazer um MBA de um ano e fazer um curso intensivo, de uma semana, em Harvard. Bem concentrado, e aplicado, o que você aprende em uma semana é praticamente o que você vai tentar adquirir em um ano. Tudo é muito bem planejado e organizado. Um mês antes de embarcar você recebe um farto material a respeito de cada case que será discutido e aplicado por lá, a fim de que todos cheguem já conhecendo bem o cenário com que lidarão. Sem essa base, você chega perdendo. Talvez fosse útil até mais alguns meses para possibilitar a um executivo super atarefado mais tempo para esta imersão.
 
São vários os cursos abordados. Escolhi me aprofundar no desenvolvimento da capacidade de inovação das empresas, empreendedorismo em empresas já estabelecidas. Hoje o que ocorre é que muitas empresas se encontram em uma posição de liderança e não percebem o que pode derrubá-las, fazê-las perder essa posição duramente conquistada. Vimos que muitas grandes empresas do passado acabaram não desenvolvendo uma cultura própria de inovação que as permitiria enxergar o mercado de maneira muito mais ampla, auxiliando-as a prever tecnologias, processos ou empresas que puderam destruir a sua cadeia de valor, tornando-as obsoletas. Alguns exemplos que estudamos: Kodak, Fuji-film, Xerox, entre outras. Na maior parte delas, o que acabou tirando-as do mercado não foi um concorrente, mas sim uma tecnologia nova para a qual não se deu importância ou até mesmo se lutou contra para que não alterasse o Status Quo. 

A troca de conhecimento e experiência também é fantástica. Não só durante as aulas, mas antes, em reuniões de uma hora. Você passa a fazer parte de um grupo, com experiências internacionais, que têm por objetivo discutir e solucionar os casos mundiais apresentados durante as aulas. Essa troca de experiência entre todos é um dos componentes mais importantes de todo o processo de aprendizado, uma vez que grande parte dos participantes pertence ao C-level de suas grandes organizações. A capacidade intelectual e gerencial dessas pessoas é enorme, já que são CEOs, presidentes e diretores de grandes corporações mundiais, mas que também estavam como eu, enxergando que podiam saber mais e dispostos a doar e receber experiência e conhecimentos de todos. 

Outro ponto muito rico são as experiências dos professores. Muitos foram consultores do board de empresas durante suas crises. Isto faz com que os casos discutidos ganhem detalhes riquíssimos, com conhecimento de causa. Sem contar, claro, que alguns desses professores são aqueles mesmos dos livros de negócios que normalmente lemos para nos atualizar ou auxiliar na resolução de um determinado problema. Nomes como: Clayton Christensen, Michel Tushman ou Linda Applegate, coordenadora da área de empreendedorismo de HBS. Isso dá a chance de poder esclarecer dúvidas ou problemas de sua empresa com eles durante o coffee break. É uma experiência que vale 200% do que foi investido. 

No meio do curso apenas uma coisa me entristeceu e me preocupou: a falta de brasileiros. Estavam presentes executivos de 61 países diferentes, a grande maioria da Europa, seguida por executivos americanos, além, é claro, de executivos de outros países como África (representada pela Nigéria e Uganda), Índia, Japão e Singapura. Todos os participantes foram patrocinados por suas empresas, preocupadas com a importância do tema para o futuro de seus negócios. Porém, apenas quatro pessoas da América Latina estavam presentes, sendo apenas eu do Brasil, e por iniciativa minha. Descobri que a participação de latinos americanos nesses cursos é bastante pequena, variando de 3% a 5%, de acordo com dados fornecidos pela própria Harvard. O Brasil está passando por um momento econômico ímpar e as nossas empresas têm que se posicionar como líderes dentro desse novo cenário mundial. Notícias como a que vimos da compra da Anheuser-Busch pela InBev deveriam ser recorrentes daqui para a frente e, para tanto, nossos executivos e nossas empresas deveriam ser preparados para essa nova realidade. O Brasil nunca teve uma posição muito digna em nenhum ranking de formação educacional de sua população e eu, também, como um empregador, sei o quanto é difícil encontrar mão-de-obra bem formada e disposta a aprender cada vez mais. Não podemos deixar exemplos como o da HP, como a Você S/A mostrou, que trocou o Brasil pela Costa Rica para montar seu Centro de Suporte, continuem acontecendo. É preciso investir em formação e o exemplo também tem que vir de cima. Espero que os nossos empresários acordem para essa realidade antes que sejamos apenas um fornecedor de matéria-prima.

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