
A MORTE DO PAPA JOÃO PAULO II SINALIZA O FIM DA ERA DOS GRANDES LIDERES MUNDIAIS?
Ainda temos grandes nomes que nos alertam contra a acomodação, como Nelson Mandela e o Dalai Lama, símbolos mundiais da paz. No Brasil, podemos citar Dom Paulo Evaristo Arns [cardeal aposentado que foi uma das vozes da chamada ala progressista da Igreja] e, no campo da expressão estética, o escritor Ariano Suassuna. Mas vejo, sim, um processo de segmentação da idéia de liderança, em que passamos a ter cada vez menos exemplos de líderes universais e mais referências de lideranças locais, em diferentes áreas. O que precisamos fazer é tirar do anonimato esses líderes do nosso cotidiano, para que possam inspirar coletivamente. A imprensa fez isso com Zilda Arns [fundadora da Pastoral da Criança], por exemplo, que é uma referência absoluta no trabalho com crianças, mas não era conhecida. Esse é o nosso desafio: descobrir o líder que há em cada um de nós e o que está ao nosso lado. Isso me lembra uma frase que ouvi de um senhor de 80 anos de idade, em Palmas, no Tocantins, após uma palestra: "Hoje eu entendi uma coisa que meu pai sempre dizia e eu nunca tinha compreendido: a vida é muito curta para ser pequena". O líder é exatamente alguém que nos inspira a não "apequenar" a vida, o trabalho, a empresa, a comunidade, a nação, o mundo.
COMO UM DOS ULTIMOS GRANDES LÍDERES MUNDIAIS, QUAIS AS LIÇÕES DE JOÃO PAULO II?
Algo em que vale a pena se inspirar é sua grande capacidade de comunicação. Além disso, ele saia da sua redoma e ia até as pessoas, o que é muito positivo. Por outro lado, era um líder que centralizava algumas decisões, o que eu vejo como um deslize. Por conta disso, não gerou condições tão imediatas para sua substituição. E é sempre uma encrenca quando um líder não deixa ninguém pronto a assumir o seu lugar. No mundo corporativo, algumas pessoas têm receio de formar profissionais que possam vir a traí-los, de olho na sua posição. Mas, se isso acontece, o erro foi seu: você não soube formar esse líder.
COMO SE FORMA UM VERDADEIRO LIDER?
Cada um tem, na empresa, uma tarefa de líder, em que aprende e ensina, em que lidera pessoas ou processos. Três pontos são fundamentais para, de fato, exercer essa liderança: aprender com o outro, distinguir o novo da novidade e inspirar o grupo, em vez de expirar. Em primeiro lugar, o líder tem de ser humilde e perceber que há outros modos de fazer e pensar. Outra virtude da liderança é diferenciar os modelos de gestão e produção que não passam de modismos (a novidade) daqueles que revolucionam e são perenes (o novo). O líder só pode estabelecer esses critérios quando sabe para onde vai e está sempre estudando, ouvindo, conversando... Por fim, ele tem de inspirar e elevar a condição do grupo.
POR QUE É TÃO IMPORTANTE APRENDER COM OS OUTROS?
Nesse cenário competitivo em que vivemos, o líder tem de ampliar seu repertório e ultrapassar o óbvio. E ele não pode fazer isso se estiver preso a modelos mentais, tornando-se um refém de determinados modos de raciocínio e ação. Nas palestras, minha tarefa é exatamente provocar a reflexão e produzir incômodos que levem a uma mudança de atitude. Nos últimos cinco anos, empresas com inteligência estratégica vêm recorrendo a ciências como filosofia, antropologia e sociologia para ampliar as possibilidades de intervenção e compreensão da realidade.
COMO DISTINGUIR O NOVO DA NOVIDADE EM MEIO A TANTAS TEORIAS SOBRE GESTÃO?
Um líder tem de ter objetivos claros e estabelecer critérios sólidos para identificar o que não passa de modismo. É um perigo supor que, porque leu um livro sobre certo tema, você pode simplesmente transportar aquilo que estudou para a empresa sem conversar com os outros, sem ver o nível de aplicabilidade e avaliar se trata-se apenas de algo passageiro.
COMO UM LIDER INSPIRA E ELEVA A CONDIÇÃO DO GRUPO?
Um líder inspirador é aquele que faz com que as pessoas respirem juntas uma determinada percepção, projeto, idéia. É aquele que fortalece e dá unidade, ou seja, que promove a sinergia do grupo. Para tanto, a equipe precisa estar em sintonia, o que só é possível quando existe simpatia. Isso não quer dizer camaradagem, tapinha nas costas... É sinônimo de respeito. Representa a capacidade de enxergar o outro e elevar seu conhecimento e seu trabalho. Muitas vezes um chefe diz: "Não sei qual o problema do nosso grupo. A gente se mata de trabalhar e as coisas não acontecem". Isso geralmente ocorre porque falta simpatia. Falta olhar o outro como outro, e não como um estranho.
QUANDO A TENTATIVA DE INSPIRAR É AUTENTICA E QUANDO É APENAS MAIS UM ARTIFÍCIO PARA ALIENAR O FUNCIONÁRIO?
Se sou um líder, preciso ter uma relação leal com os liderados. E isso significa que preciso ter a sinceridade como uma de minhas virtudes. Não posso enganar as pessoas, fingir que nosso trabalho e a empresa estão indo bem, quando isso não acontece. O líder dissimulado é desmascarado mais cedo ou mais tarde. Se existe algo negativo, quando você está numa condição ruim, é alguém tentar enganar você com relação ao seu estado. O líder diz o que precisa ser dito. Quem dissimula uma situação está tentando animar a equipe de uma forma equivocada. E isso é um perigo.
O QUE FAZER SE A EMPRESA NÃO OFERECE CONDIÇÕES PARA O LÍDER ELEVAR SUA EQUIPE?
Uma das principais qualidades de um líder é sua capacidade de oferecer horizontes. Antes de mais nada, ele é alguém inconformado. Pode até não ter condições, naquele momento, de atender às necessidades de seu time. Mas pode dizer "vamos ter, precisamos ter, teremos". E não de uma forma vazia, mas concreta. Ele precisa partilhar o sonho e juntar as pessoas à sua volta para buscar esse objetivo.
O LIDER IDEAL É HUMILDE, INSPIRA E ELEVA. NA PRATICA, O QUE VEMOS NAS EMPRESAS?
O mundo ideal, que eu colocava, é o mundo da percepção daquilo que você pode fazer. Na prática, muitas organizações enfrentam uma crise de liderança provocada, principalmente, pela confusão entre chefe e líder. Um dos critérios para escolher um chefe deveria ser sua capacidade de liderar. Mas muitas empresas têm chefes que não inspiram nem elevam a condição coletiva. Outro problema é o fato de a liderança não estar em constante formação: é colocada uma expectativa imensa sobre o líder, sem que ele receba as ferramentas necessárias para fazer seu trabalho. Além disso, muitas vezes os liderados também não têm formação contínua. E isso é um erro grave, porque a liderança não funciona sozinha. Seu papel é fazer com que o sucesso seja construído coletivamente. Ao juntar esses três aspectos você tem uma receita de fracasso muito comum.
QUAL A CONSEQÜENCIA DA CRISE DE LIDERANÇA NAS EMPRESAS?
Principalmente a dificuldade de estabelecer comunidades de trabalho, e não meros agrupamentos de pessoas. Um líder promove a reunião de pessoas com objetivos comuns e, também, com mecanismos de autoproteção e preservação recíproca. Aquele que é um simples chefe não consegue fazer isso e instala apenas um agrupamento, em que o conflito dá lugar ao confronto, ou seja, à tentativa de anular e vencer o outro, em vez de convencê-lo. Esse chefe, muitas vezes, faz com que as pessoas trabalhem no limite. Diz que os profissionais só rendem sob pressão. Ele também estimula a competitividade extrema e recorre à linguagem militar, instalando uma espécie de guerra civil dentro da empresa. Isso pode até assegurar resultados no curto prazo, mas não garante perenidade.
QUAL O IMPACTO DESSA GUERRA CIVIL NAS ORGANIZAÇÕES?
Cria-se um cenário em que os profissionais olham o colega de trabalho como inimigo e vivem num estado de tensão permanente. Esse modelo leva ao desgaste, ao estresse e, portanto, à ruptura interna -- nome, aliás, que se dá ao enfarto, resultado de um estresse na capacidade de ação do músculo cardíaco. Alguns chefes enfartam seus grupos. E depois reclamam que eles não são capazes, não têm força. Um conselho para os chefes que ainda agem assim: já está ficando tarde para mudar de comportamento. Não é esgotando seu maior ativo, que são as pessoas, que você vai atingir os resultados que espera. Isso é sinal de estupidez. Há 20 anos, as empresas trabalhavam a noção de competência individual. Hoje, a lógica é outra. É preciso estruturar a força das equipes. Se você ganha, eu ganho; se você perde, eu perco. E essa relação interdependente não pode admitir a instalação do confronto interno.
| A LIDERANÇA NA EMPRESA | ||
| Pesquisa da Fundação Dom Cabral mostra como as organizações vêm trabalhando a formação de líderes e qual o impacto disso em seus resultados. O estudo foi feito pelo Núcleo de Desenvolvimento de Liderança, sob a coordenação do professor Leo Bruno, e apresentado no Fórum Internacional da Liderança, realizado em São Paulo no início de maio. Foram ouvidos 242 gestores de 161 empresas. Confira: | ||
| QUAL O IMPACTO DOS PROGRAMAS DE DESENVOLVIMENTO DA LIDERANÇA NA EMPRESA? | ||
| Melhoria de produtividade | 87% | |
| Melhoria do clima | 79% | |
| Redução de custos | 74% | |
| Melhoria da imagem externa | 56% | |
| Melhoria na rentabilidade | 57% | |
| Maior geração de inovações | 56% | |
| Aumento de receita | 50% | |
| Outros | 8% | |
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A LIDERANÇA PODE SER DESENVOLVIDA?
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|
QUEM É LIDER NA EMPRESA?
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HÁ QUANTO TEMPO A EMPRESA INVESTE NA FORMAÇÃO DE LIDERANÇAS? | ||
Veja todas as reportagens do Especial Liderança
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