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O debate dos Ceos do Futuro

Por Fabiana Corrêa

Leia trechos da mesa-redonda com os 15 CEOs do Futuro realizada na editora Abril em dezembro, coordenada pela editora da Você S/A, Fabiana Corrêa, e o head hunter da Korn Ferry, Carlos Mello. O tema foi "Qual o preço de ser CEO?". Eles falaram sobre família, qualidade de vida, saúde.

 

Fabiana Corrêa (editora da Você S/A): Vamos começar com o Cristian Koga, da Panalpina, que tem uma equipe de 60 pessoas e um orçamento de 160 milhões de dólares como gerente nacional de vendas. Você é um super executivo com 27 anos, idade em que muita gente está saindo do programa de trainee. Do que abriu mão até agora para chegar onde chegou?

 

Cristiano Koga (gerente nacional de vendas da Panalpina): O preço é ficar muito tempo fora de casa, viajando, fazendo reuniões. Minha sorte é que minha namorada trabalha na mesma área de comércio exterior e entende o que acontece na minha rotina. Você acaba passando muito tempo só falando com a família por telefone e e-mails. Passa muito tempo em aviões e hotéis. Trabalho dez ou doze horas por dia. Final de semana às vezes acesso o e-mail.

 

Carlos Melo (Consultor da KornFerry): Isso é normal ou vocês se incomodam com essa rotina?

 

Álvaro Oliveira (gerente da Kraft em Jaboatão dos Guararapes): Verificar e-mails nas férias é normal, mas existe um limite. Essa atitude não pode afetar sua vida social e familiar. Com o passar dos anos, você cria mecanismos para ganhar qualidade de vida e lidar com a pressão. Eu e minha esposa, por exemplo, vendemos um carro e fazemos aula de tênis juntos. São maneiras de ficarmos mais pertos. Para mim tem que haver esse equilíbrio: não dá para ser CEO de sucesso sem ter uma vida pessoal ajustada.

 

Alessandra Miranda (gerente sênior de inovação da Natura): Não tento ser uma mãe 120%, nem uma executiva 120%, nem uma pessoa 120%. Trabalho 14 horas por dia, mas eu levo meu filho de dois anos e meio para a creche todos os dias. À noite peço para que meu marido segure ele um pouco acordado para que eu brinque com ele, tento parar uns 15 minutos no meio do dia para sentar com ele na creche, essas coisas. Além disso, leio cerca de 40 livros por ano, de Harry Potter a O Monge e o Executivo, converso com meu marido todas as noites, no final de semana saímos juntos. Ao mesmo tempo eu entro no meu e-mail de madrugada ou no final de semana se precisar. Se você gosta do que você faz, com uma dose de equilíbrio consegue fazer tudo sem que uma área interfira na outra.

 

Rubens Antonio Jr. (gerente geral de consumer care da Bayer, Venezuela): O ser humano está habituado a enfatizar o que é ruim. Se eu tenho que ir para Caracas, não vou só pensar em política, guerrilha. Tem o lado bom. É uma cidade de montanha, com clima agradável, onde eu posso passear com a minha família. Eu planejei tudo com a minha família: se eu não estivesse com eles, se não estivesse firme com minha esposa, ficar no exterior seria muito duro. Tive o apoio deles.

 

Carlos Melo: No ano passado, um dos CEOs do Futuro disse que é mais fácil achar outra mulher do que conseguir um outro emprego de presidente de empresa. O que vocês acham?

 

Aloisio Xerfan (gerente global de suprimentos e contratos da BASF): Eu concordo (risos).

 

Melissa Weneck (gerente de negócios da unidade Mercosul da ALL): Talvez você não tenha casado com a mulher certa...

 

Aloisio: A vida pessoal ocorre em qualquer momento da sua vida. Na carreira, tudo tem um tempo. Hoje eu encontro minha realização pessoal dentro do trabalho. Quando eu atinjo um objetivo dentro da empresa, é uma realização pessoal.

 

Melissa: Acho que as coisas andam juntas. O fato de eu ter tido um filho nunca atrapalhou minha carreira. Minha carreira estava em escensão e eu continuei subindo. A gente não é uma pessoa e um profissional: a gente é uma pessoa profissional. Ou você está bem dos dois lados ou você não está bem. Não é a quantidade de tempo que eu passo com meu filho que vai dizer como é nosso relacionamento. Se eu estou bem com o que eu faço, chego em casa bem. Sento no chão e brinco sabendo que eu tive um dia legal, produzi. Por outro lado, se eu ficasse o dia inteiro com meu filho, talvez passaria minha frustração para ele.

 

Carlos: E onde fica o equilíbrio?

 

Rubens: Eu jogo videogame durante os vôos para poder jogar com meu filho. Assim eu posso conversar com ele de igual para igual. Tem que saber sobre o futebol, sobre a Barbie. Não dá tempo em 24h, mas tem que aproveitar ao máximo.

 

Álvaro: Nunca me dediquei à minha saúde o quanto eu me dedico à minha carreira. Aí eu passei a jogar tênis com minha mulher. Eu passei a me preocupar quando, em um check up anual, me vi obrigado a fazer alguma coisa. Mas academia não me dava prazer. Isso não quer dizer que não exista pressão. É possível ter esse equilíbrio, m as não é fácil. Talvez o nosso preço seja esse: buscar continuamente nos equilibrarmos. Para isso é necessário fazer escolhas.

 

Fabiana: E esse estresse todo que a gente ouve os executivos falando? Essa é a grande reclamação dos executivos hoje. Vocês estão pintando um mundo cor de rosa que não é o que a gente vê por aí... Será que vocês são viciados em estresse?

 

Aloisio: Acho que não. Tem uma coisa que você vê em todo mundo aqui que é brilho no olho. Ninguém tem isso se estiver infeliz. Tem que ter. De alguma maneira você encontra o equilíbrio.

 

Fabiana: Seu brilho nos olhos vem do trabalho? Aloísio: Vem também do trabalho.

 

Vanessa Torres (gerente geral de desenvolvimento de projetos da Companhia Vale do Rio Doce): Você falou em pressão e estresse. Se você vai deixar essa pressão te fazer mal ou não. Você tem que lidar bem com a pressão.

 

Melissa: Estressado todo mundo é.

 

Luís Oliveira: Nós nos realizamos com trabalho. Ninguém me obriga a isso. Eu estou morando no nordeste e procuro olhar para o lado bom da vida lá. Pode não ter Fantasma da Ópera, mas a meia hora de carro eu estou debaixo de um coqueiro na praia.

 

Fabiana: E no seu trabalho, como você lida com as coisas que te fazem mal?

 

Rubens - Eu acho assim, quando você tem que fazer coisas que são desagradáveis, por exemplo, demitir alguém. Eu tento fazer isso de uma forma profissional. Você não pode pensar na família da pessoa, você não pode pensar 'ai, ele vai ficar desempregado'. Existe o papel jurídico e o papel pessoal. Se você faz isso bem, quando você sai e encontra esse funcionários que você demitiu no corredor e ele sente que você é uma pessoa honesta, que você tem valores, vai chegar pra você e vai dizer 'obrigado'.

 

Fabiana: A pressão em cima de vocês - do mercado - alguma fez com que vocês não fossem o chefe que vocês gostariam de ser?

 

Odércio Claro (gerente sênior da EDS do Brasil) - Eu acho que assim, eu tenho por volta de 260 pessoas trabalhando comigo e gostaria de ser um bom líder. Eu tenho ouvir as pessoas, entendê-las. É claro que eu não posso fazer com 260, por isso eu tenho meu gerente, alguns líderes, gente que pode me ajudar a fazer. Agora, o processo de comunicação é hoje um dos principais pontos que a gente tem pra resolver, porque a gente não consegue fazer fluir essa comunicação tão bem. Eu queria estar mais próximo, eu queria participar, eu queria ajudar. Agora, o tempo não permite, a situação não permite que você faça isso, então qual a melhor forma? A melhor forma é você ter sempre ao seu lado os teus, o teu líder que possa replicar isso e possa ser o facilitador dessa informação.

 

Aloísio - Um dos pontos que eu concordo com ele é que mesmo dentro do papel de líder, dentro da empresa, tempo é um problema. Já fazem dois anos que eu não participo da festa de final da empresa, ou porque eu tava enfurnado num escritório de advocacia, porque a gente tava fechando uma fábrica, e a gente só sente isso quando os funcionários vêm falar com a gente, 'poxa, você não tava lá'. Eu fui cobrado pelos meus gestores, 'você tem que ser mais presente, você tem que bater papo com as pessoas, jogar conversa fora com o time'. Só que, por outro lado, eles cobram números, essa coisa toda. Então, acho que cabe a nós encontrar esse equilíbrio dentro da própria empresa...

 

Vanessa - Quando alguém vem conversar com você, pense em parar realmente e deixar tudo que você tá fazendo para dar cinco minutinhos de atenção a ela. Acho que você tem que mostrar pras pessoas que você se importa, tem que dar atenção. Às vezes as pessoas te procuram por email, você tá fora, mas responde. Dá um incentivo aqui, uma coisinha ali, por menos tempo que você tenha com o seu grupo você vai criar um grupo coeso dessa maneira.

 

Fabiana: E a cobrança da família - de um lado - e do trabalho, de outro, como equilibrar? E a culpa que paira sobre as mães que passam o dia fora, trabalhando?

 

Melissa - Eu acho que o primeiro ponto é você ser bem-resolvido, ou seja, se você sabe o que você quer, o sentimento de culpa é uma coisa que não existe. Acho que a pior coisa que tem é você falar 'ai, eu tô culpada porque eu não vi meu filho cair'. Ou seja, o seu filho sente que você tá culpada que você não viu ele cair. Se você é uma mãe bem-resolvida, ou seja, 'eu não vi ele cair, mas quando ele caiu tinha alguém pra atender, alguém pra levar no médico se precisasse'. A gente tem que preparar o filho pro mundo, não adianta você criar o filho pra uma redoma.