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Pé na estrada

Passar uma temporada de estudos longe de casa traz experiências profissionais e pessoais que impulsionam a carreira

Por Roseli Loturco e Adriana Carvalho

Juntos na Suíça: Roberta de Noronha, de 36 anos, gerente de RI da TAM, e o marido, Roberto Shimizu,

Roberto Shimizu e sua esposa, Roberta de Noronha, os dois de 36 anos, estavam casados há dois quando decidiram deixar seus empregos para se dedicar aos estudos. Ele, engenheiro químico, e ela, engenheira metalúrgica, foram aceitos na escola suíça IMD, primeira do ranking de 2008 de MBAs da revista inglesa The Economist. Conseguiram financiar o pagamento do curso junto à própria universidade e alugaram um local para morar. Mas tentaram não ficar juntinhos o tempo todo que passaram na universidade.

“Estávamos na mesma classe, mas os professores nos colocavam em grupos diferentes para os trabalhos, para que pudéssemos ter vivências individuais”, conta Roberto, que hoje é diretor financeiro da GE. A carreira na empresa começou quando ele saiu do MBA como gerente de projetos da GE. Permaneceu na Suíça por mais três anos e passou uma temporada no México antes de ser enviado de volta ao Brasil. Sua esposa não conseguiu emprego imediatamente, mas os contatos que fez na escola lhe valeram indicações para a consultoria suíça The Energy Consulting Group, onde trabalhou por três anos. Era a única brasileira entre os demais suíços. Hoje ela é gerente de relação com investidores (RI) da companhia aérea TAM. Como Roberta e Roberto, alguns milhares de profissionais deixam o país — e uma carreira — todos os anos para levar novamente uma vida de estudante. A diferença da época do colégio, porém, é que o tempo livre de quem se aventura por um MBA no exterior é bem mais escasso. As aulas tomam boa parte do dia e os estudos, o resto dele.

Quem está estressado porque passa horas à frente do computador, analisando planilhas, vai ter de enfrentar horas na biblioteca das universidades ou escrevendo trabalhos de conclusão e, em vez da competitividade dos concorrentes, talvez enfrente a competitividade dos colegas da classe, dependendo da escola escolhida. Fazer um MBA fora do país é, sem dúvida, dar um passo bem largo adiante na carreira (leia a reportagem Vale o Investimento?, sobre o retorno financeiro e profissional do curso), mas esse ganho não é o único do período que se passa estudando longe de casa, por isso é importante considerar outros fatores ao escolher sua escola.

Uma das principais bagagens consideradas pelos empregadores quando se volta é a experiência de ter vivido e convivido com gente de diversas culturas. É importante imaginar como vai ser sua vida lá, que tipo de profissionais você gostaria de conhecer, em que tipo de cidade sonha morar. Há o detalhe ainda de que é um período de estudos intensos, que começam de manhã, na sala de aula, e terminam tarde da noite, muitas vezes. “Um candidato que fez MBA no exterior, mas obteve notas medíocres, não nos interessa”, afirma Carlos Felix Ximenes, diretor de comunicação e assuntos públicos do Google no Brasil. Sendo assim, quanto mais agradável a estadia, melhor.

Uma escola para cada perfil
Uma das dicas de quem passou pela experiência de fazer MBA fora é avaliar qual é a especialização das universidades pretendidas e se elas estão alinhadas com o que você quer para a sua carreira. “O forte do IMD, na Suíça, onde estudei, é a formação de lideranças. Não é uma escola para quem quer se formar em finanças ou marketing”, diz Roberto. “Quem procura um MBA mais direcionado à área de finanças pode optar por escolas como Wharton, New York University, Columbia, Yale ou Chicago, nos Estados Unidos, ou a London Business School, na Inglaterra”, diz o professor Daniel Corry, da MBA House, de São Paulo, que presta consultoria a quem busca uma escola.

Veja a tabela da escola certa para...

Se o objetivo é desenvolver o empreendedorismo, Stanford, Berkeley, nos Estados Unidos, ou Iese, na Espanha, são as mais indicadas. A francesa Insead ou a italiana Bocconi são consideradas boas formadoras para quem quer uma vaga na área de varejo, por exemplo. Além da qualidade de ensino e da especialidade de cada escola, conta também o nome da instituição. Alexandre Machado Moreira, de 38 anos, diretor de marketing e novos negócios da consultoria financeira Genesis Corporation, em Miami (EUA), cursou MBA na Hult International Business School, de Boston (EUA), em 2000. “Foi uma experiência que me levou a progredir na carreira, mas, se pudesse escolher novamente, teria optado por uma escola mais renomada”, diz Alexandre, que escolheu a Hult por causa do preço mais acessível. “Percebi que não era uma escola tão procurada pelos empregadores e não saí imediatamente empregado do MBA”, diz Alexandre, que levou cinco meses para receber uma oferta de emprego.

Escolher uma universidade com taxas mais baixas (como é o caso das públicas) torna a viagem mais acessível, mas pode reduzir as possibilidades de carreira, já que o assédio aumenta ou diminui de acordo com a fama da universidade entre as empresas. Em Smith, escola de negócios da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, o mineiro Fernando Leão, de 33 anos, hoje gerente sênior de planejamento da farmacêutica Schering Plough, em São Paulo, sentiu falta do assédio intenso que os alunos têm por parte das empresas em algumas faculdades. “As companhias não rejeitam a universidade, mas também não vão ao campus recrutar tanto quanto nas escolas mais famosas”, diz.

O programa de MBA da escola, que está em 26o lugar segundo o ranking da revista americana BusinessWeek, tem uma taxa total de 82 000 dólares para não-residentes nos Estados Unidos. Já o curso da Universidade de Chicago, que lidera o mesmo ranking, custa 97 000 dólares. “Ainda assim, pense que você está em uma das melhores do mundo. Não é pouca coisa”, diz Patrícia Volpi, coordenadora do grupo MBA Alumni Brasil, em São Paulo, que reúne ex-alunos de universidades estrangeiras. em família. Em 2006, Adriano Akutsu, de 29 anos, foi com a esposa, grávida, para a cidade de Evanston, no estado de Illinois, para cursar seu MBA na Kellogg School of Management. Hoje ele é gerente sênior de marketing da Telefônica, em São Paulo. “Nossa filha nasceu lá, enquanto eu estava estudando”, conta. A adaptação à cidade, ainda mais em um momento delicado da vida do casal como esse, não foi fácil. “Três meses depois da nossa chegada enfrentamos um inverno com temperaturas de até 15 graus negativos. Estávamos sozinhos após o nascimento do bebê e eu tinha uma carga horária de estudos muito pesada.” O networking no campus fez toda a diferença nessa hora. “Não são só os alunos que se beneficiam de uma boa rede de contatos. Minha mulher conheceu as esposas. Uma delas também estava grávida e teve seu bebê na mesma época. São amigas até hoje.” A carioca Cristiane Benvenuto Andrade, de 33 anos, recém-chegada da universidade de Wharton, na Pensilvânia, também teve um filho fora do país, enquanto concluía seu MBA.

“O consulado costuma ser simpático com quem vai fazer o curso. Tanto que consegui até levar minha babá brasileira para lá”, diz. Gerente de negócios do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, além do marido, que estudou na mesma faculdade e também foi contratado pelo hospital, Cristiane lembra que acabou vivendo com outra “família”. Aprender a lidar com o grupo de trabalho, determinado pelos professores no início do curso, é outro ponto de sobrevivência durante um MBA fora. “Tivemos alguns problemas no início e percebemos que, se não houvesse cooperação, não conseguiríamos fazer o que era proposto. No final, nós nos ajudávamos para conseguir bons resultados.”

Abaixo de zero
Adriano Akutsu, de 29 anos, gerente sênior de marketing da Telefônica, de São Paulo:
sua filha nasceu durante a estadia em Illinois, nos Estados Unidos. “Fazia 15 graus abaixo de zero, nosso bebê tinha 3 meses e eu passava o dia todo estudando. Nessa hora, uma boa rede de contatos ajuda muito”

 

Passaporte para o mundo.
A rede de contatos é um dos maiores ganhos do MBA fora do país. “Eu já havia feito um bom MBA em tempo parcial no Brasil, mas a vivência que tive no exterior e os contatos que fiz lá foram os grandes diferenciais”, diz Adriano. Essa experiência estrangeira é o que conta mais na opinião de seu empregador, a Telefônica. “Apostamos em profissionais globalizados”, diz Françoise Trapernard, gestora de recursos humanos da empresa de telefonia com sede em São Paulo. A companhia motiva seus executivos de média chefia para cima a saírem ao menos uma vez por ano do Brasil para estudar em outros países. “Os cursos aqui são ótimos, mas a experiência fora adiciona as diferentes visões culturais, que também nos interessam”, diz Adriano. Esses contatos também ajudam na recolocação.

Durante as férias de verão, muitos conseguem estágios nas empresas e depois são efetivados. “No ano passado, 92% de alunos saíram da graduação empregados e a maior parte dos outros recebeu propostas depois de três meses de conclusão do curso”, diz Janet Shaner, diretora de marketing do MBA no IMD, da Suíça. A carreira internacional também foi o caminho seguido por Eduardo Obraczka, de 36 anos. Formado em engenharia industrial pela UFRJ, foi aceito na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, onde seu MBA foi focado em estratégia e saúde pública. Saiu de lá empregado pelo laboratório Sanofi Pasteur em 2004: trabalhou na França e em três cidades dos Estados Unidos. Hoje vive em Nova York e é diretor de projetos estratégicos para as Américas da empresa. Como ele, consegue uma vaga — dentro ou fora de seu país de origem — quem leva a sério a tarefa de recolocação desde o primeiro dia de aula. Cristiane, ex-aluna de uma das melhores escolas de negócio do mundo, engrossa o coro. “Em Wharton, procurar emprego é uma tarefa de tempo integral. Somos preparados o tempo todo para conseguir uma boa vaga.”

Emprego para quem vai junto
Entre os benefícios oferecidos pelas melhores escolas de negócios internacionais está a possibilidade dos companheiros dos estudantes terem uma ocupação durante o período do curso. “Os maridos e esposas podem assistir às aulas e ocupar cargos na universidade”, diz Cristiane Andrade, recém-chegada de Wharton (foto), onde os laboratórios da faculdade, como o de marketing ou de negócios, empregam os cônjuges dos alunos. Com isso, quem vai junto pode aproveitar o tempo que ficaria ocioso para acrescentar conhecimento à sua bagagem profissional. Os ganhos, muitas vezes, ajudam a pagar boa parte dos gastos de quem mora fora, já que esses empregos são remunerados.

Veja o ranking completo do Guia de MBA´s 2008