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Olho no Brasil e nos gringos

Seis setores reservam boas perspectivas de ganho para os investidores este ano. O único risco é terem de enfrentar uma longa recessão econômica nos Estados Unidos

Por MARTA BARBOSA

Usina hidrelétrica do Xingó: principal fonte de energia ainda vem da água

Os analistas enxergam a economia brasileira de duas maneiras em 2008. Um cenário prevendo meses de recessão nos Estados Unidos, outro sem ou com crise mais branda. Por mais que os indicadores internos sigam bem, obrigada, não se pode desprezar que a crise deflagrada pelo setor imobiliário americano ainda terá ecos nos quatro cantos do mundo, inclusive no Brasil. Setores da economia que têm os resultados atrelados à exportação podem ser os mais afetados caso a tal recessão americana seja longa. Por cautela, o Banco Central está de plantão. O governo brasileiro reduziu as metas de exportação para 2008. E estima que o ano terá o menor crescimento de vendas externas desde 2003 (apenas 10% acima do projetado para 2007). “Diante de tudo isso, a volatilidade do mercado deve continuar”, diz o economista Daniel Gorayeb, analista de investimento da Spinelli Corretora, de São Paulo.

Por outro lado, se as previsões mais pessimistas não se confi rmarem — e há quem confi e nisso ainda —, alguns setores terão 12 meses bastante favoráveis pela frente. Muitos analistas fi - nanceiros esperam receber este ano a melhor notícia da década: a promoção do Brasil pelas agências de risco ao grau de investimento. Se isso acontecer, os investidores estrangeiros fi - carão mais confi antes no país e as empresas negociadas na Bovespa vão se benefi ciar. Além disso, a expansão de crédito e os bons resultados da economia enchem o governo de esperança de que o Produto Interno Bruto mantenha o ritmo de crescimento do ano passado, fechando 5% acima de 2007.

São positivas ainda as perspectivas para a indústria. Segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria, 42% das empresas no Brasil planejam aumentar a compra de máquinas e equipamentos este ano. Outras 45% não pretendem ampliar os investimentos, mas garantem repetir o ritmo de produção de 2007. Essas são ótimas notícias que dão a dimensão do ânimo dos analistas do setor industrial. O investimento da indústria impulsiona bons resultados em outros setores, como o de geração de energia, logística, o de crédito e o de consumo.

Resta a você, como investidor, acompanhar com atenção especial os seis setores com mais chance de expansão, segundo analistas ouvidos pela VOCÊ S/A. Todos oferecem boas oportunidades de ganho ao comprar ações de empresas de cada segmento econômico indicado. Sem esquecer, é claro, de manter um olho nos noticiários internacionais para não vender suas ações na baixa.

CELULOSE

O país é um dos líderes mundiais na produção de celulose e o setor mantém características muito vantajosas que garantem uma expectativa de crescimento não só em 2008, mas também no longo prazo. Nenhuma outra nação está mais modernizada do que o Brasil na fabricação de papel a partir de eucalipto. O bom é que o mercado de celulose tem uma demanda crescente na China. Se há algum risco proeminente nesse setor, ele se restringe aos fabricantes de embalagem, como Klabin, a maior produtora e exportadora de papéis brasileira. É que essa produção é uma espécie de termômetro da economia e pode ser uma das primeiras afetadas no caso de crise defl agrada por uma recessão americana.

CONSUMO

Se as indústrias produzem mais é porque o comércio também vai vender mais. Olhando para trás, um motivo reforça a expectativa: o setor de consumo não pára de crescer por aqui. Principal componente no cálculo do PIB, o consumo das famílias teve, no primeiro semestre de 2007, o melhor desempenho dos últimos dez anos. Cresceu 5,9% em relação ao ano anterior e só não foi maior do que a expansão registrada nos primeiros seis meses de 1997. “O cenário de crescimento econômico, somado ao aumento da oferta de crédito, leva a uma percepção de riqueza maior”, explica Marco Melo, chefe de pesquisa da corretora Ágora, do Rio de Janeiro. Ou seja, com emprego e com facilidade de ter crédito, o brasileiro continuará comprando bens este ano. E as grandes redes de varejo vão se benefi ciar disso.

GERAÇÃO DE ENERGIA

Esse é um setor totalmente atrelado ao crescimento do PIB brasileiro. Como o mercado interno não pára de crescer, os analistas não têm dúvidas de que vai haver aumento na tarifa de energia nos próximos anos. Demanda crescente e preço em alta são duas boas razões para acreditar que este será um ano de investimentos e bons resultados para as empresas que focam sua atuação na geração de energia. Já as companhias que atuam com transmissão de energia merecem atenção. “Se a economia crescer este ano em um ritmo superior ao de 2007, podemos assistir a um colapso da planta instalada”, diz Paulo Eduardo De Mingo, economista da Terra Futuros Corretora. “Imagine que a malha de transmissão brasileira não se moderniza há 30 anos.”

SIDERURGIA E MINÉRIO

O aumento da produção na indústria brasileira leva junto as vendas de aço. As grandes companhias desse setor começaram janeiro com quase toda a produção do ano vendida. As empresas de siderurgia mais promissoras são as que vendem para a construção civil e para fabricantes de automóveis, dois setores que se benefi ciam diretamente com a redução de juros e a expansão do crédito. Quanto ao minério, a boa notícia é que há expectativa de aumento no preço do produto este ano. É bom lembrar que o Brasil lidera a produção de minério de ferro. Um terço de todo minério de ferro consumido no mundo é fornecido pela brasileira Vale.

SETOR BANCÁRIO

Juros em queda, economia em crescimento — não há cenário melhor para os bancos. A expansão de crédito contribui para as boas perspectivas para 2008. “Acreditamos que não apenas o volume de crédito vai crescer este ano, mas também os prazos serão alargados ainda mais”, diz Daniel Gorayeb, da Spinelli Corretora. Na carona do bom momento nos campos, o crédito agrícola deve crescer em 2008, assim como os empréstimos à pessoa física e o comércio de bens de consumo, apesar dos sustos internacionais.

CONSTRUÇÃO CIVIL

Esse é um campo que merece atenção. É unânime entre os analistas que em 2008 terá início a consolidação do setor na bolsa. Imagine que entre 2004 e 2007, o número de construtoras com capital aberto na Bovespa quase triplicou. Até dezembro, eram 30. E há pelos menos três processos de abertura encaminhados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Ou seja, mais opções para o investidor. O mercado, por sua vez, está aquecido. Porém, ainda não alcançou a tal explosão imobiliária que os construtores esperam tanto. “Não acredito que esse boom deva chegar antes de cinco anos”, afi rma Paulo Eduardo De Mingo, da Terra Futuros.