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Toda atenção ao acionista

As grandes companhias precisam personalizar o atendimento às pessoas físicas que compram suas ações ¿ ainda mais este ano

Por CAMILA GUIMARÃES HESSEL

Geraldo Soares, presidente do Ibri e superintendente de RI do Itaú: atendimento segmentado ao acionista é a tendência do setor

Ter sucesso como investidor de ações depende, em boa parte, do acesso à informação certa. Além de fi car de olho nos vários fatos que podem afetar o mercado e entender como eles infl uenciarão o desempenho dos próprios investimentos, é preciso avaliar muito bem se os resultados de uma determinada empresa são bons a ponto de justifi car a compra ou a manutenção de seus papéis. Os relatórios das equipes de pesquisa dos grandes bancos e corretoras certamente ajudam, mas quase sempre sobra uma dúvida ou surge aquela pergunta que você não sabe exatamente para quem fazer (como nesses momentos de nervosismo). É aí que entra em cena o profi ssional de relações com investidores.

Principal interface entre o investidor e a administração da empresa, o RI é responsável por garantir que a estratégia adotada pela empresa e o seu impacto sobre os resultados sejam perfeitamente compreendidos por acionistas e analistas. Por isso, na hora de comprar uma ação, é importante avaliar a estrutura de RI da empresa.

Incentivar o desenvolvimento da cultura de investimentos no mercado de capitais também é papel das companhias abertas, diz Geraldo Soares, presidente executivo do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (Ibri) e superintendente de RI do Banco Itaú. Geraldo lembra que no último encontro nacional de profi ssionais de RI promovido pelo Ibri, realizado em São Paulo, em junho de 2007, o atendimento segmentado e as iniciativas dirigidas ao investidor pessoa física foram temas amplamente discutidos. Com o aumento da participação de pessoas físicas na bolsa brasileira, as companhias já não podem deixar a segmentação de lado, diz Geraldo.

Em empresas de maior porte, onde o número de acionistas pessoa física já é grande, a segmentação no atendimento é comum. A Petrobras, que tem mais de 260 000 acionistas, conta com uma gerência exclusiva para pessoas físicas, criada em 2002. Seu modelo pioneiro serviu de inspiração para outras empresas, que mexeram em suas estruturas de RI para reforçar a atenção dispensada ao investidor individual. Uma delas foi o Bradesco que, de acordo com seu diretor de relações com o mercado, Jean Philippe Leroy, tem 1,2 milhão de acionistas. Ele diz que o esforço foi muito além de alocar uma equipe para esclarecer as dúvidas e produzir material específi co. Para atender nossos acionistas pessoa física de maneira mais efi ciente, mudamos até de endereço, afi rma Jean. O departamento de RI, que fi cava na sede do banco em Osasco, em São Paulo, foi transferido para o escritório na Avenida Paulista, no centro de São Paulo, onde o acesso é mais fácil.

A CPFL Energia é outra que conta com um programa específi co para o investidor individual. Ele consiste basicamente na participação em eventos e na produção de materiais dirigidos, como a newsletter bimestral Investidor CPFL. Enviada por correio inclusive para quem não é acionista, mas se cadastra no site de RI, a publicação traz um apanhado dos principais fatos relacionados à atuação da companhia, uma mensagem do presidente e um resumo das recomendações dos analistas de mercado que realizam a cobertura do desempenho das ações da empresa. Outra iniciativa interessante é a promoção de visitas da comunidade universitária, portanto formadora de opinião. Os executivos da CPFL conversam com professores de fi nanças e de economia e detalham o relacionamento da companhia com o mercado de capitais.

Adaptar a linguagem técnica e cheia de jargões do mundo fi nanceiro a um texto compreensível até para quem não entende nada de economia é a principal missão dos RIs dedicados à pessoa física. Outras empresas também publicam newsletters periódicas para explicar de maneira simplifi cada os eventos que movimentaram a empresa e que devem infl uenciar o rumo das ações. Além da CPFL, Itaú, Bradesco e Unibanco fazem parte dessa lista.

A organização de eventos exclusivos para investidores não-profi ssionais e pessoas interessadas em investir na bolsa é uma das iniciativas que mais cresceram no ano passado. O Instituto Nacional de Investidores (INI) promove os Encontros com o Investidor, em que os executivos de uma empresa se apresentam para usuários cadastrados no site do INI. Paulo Portinho, gerente-geral do INI, conta que os encontros funcionam nos mesmos moldes das reuniões abertas com analistas de mercado, conhecidas como reuniões Apimec. Em termos simplifi cados, os RIs explicam o negócio da empresa, falam dos fatores que infl uenciam o preço das ações e apresentam os resultados mais recentes, diz Paulo. Foram realizados mais de 15 eventos em 2007, no Rio e em São Paulo, reunindo um público superior a 3 000 pessoas. A lista de companhias participantes incluía Banco do Brasil, Bradesco, CPFL, CSN, Vale, Eternit, Natura, Petrobras, Positivo Informática, Suzano Papel e Celulose, TAM, Usiminas e WEG.

Fora do eixo RioSão Paulo, o modelo das apresentações promovidas pelo INI é reproduzido em reuniões Apimec, nas quais o público é formado principalmente por leigos. Bradesco e Itaú são dois exemplos de empresas que apostam forte na interiorização dos eventos e percorrem mais de dez cidades ao longo do ano. Em novembro de 2007, um grupo de quatro companhias abertas com sede no Paraná organizou o primeiro evento regional do mercado brasileiro. ALL Logística, GVT, Paraná Banco e Positivo Informática realizaram o 1o Sul em Ações. Mais de 300 pessoas participaram do evento, que deve ser repetido este ano. Quem sabe uma dessas não será a sua oportunidade para estreitar o contato com os RIs das empresas em que investe, ou que pretende investir?

COMO USAR O TRABALHO DO RI

Quase toda grande companhia de capital aberto tem um departamento pronto para atender o investidor e você deve aprender como tirar proveito dele. Confira:

O que a empresa faz?
Se você não conhece bem o setor de atuação ou tem dúvidas sobre determinadas atividades, o RI pode explicar cada uma delas e ainda apontar como o desempenho geral das ações é afetado pelos vários aspectos.

O que diz esse número?
Não está bem certo sobre o signifi cado do Ebtida? Não entende a relação entre o lucro e um índice setorial, como o Volume Geral de Vendas das construtoras ou o Vendas das Mesmas Lojas do Varejo? Cabe ao RI esclarecer informações sobre os resultados obtidos pela empresa e traduzir para o acionista os principais indicadores observados pelos investidores profi ssionais na hora de precifi car as ações da companhia.

O que impacta no preço da ação?
Diferentes empresas são infl uenciadas de maneiras distintas por um mesmo fator macroeconômico. O RI pode ajudá-lo a entender quais são os eventos que você tem de monitorar e esclarecer. Pode apontar também alguns aspectos que, em teoria, impactariam diretamente a atuação da empresa, mas não são relevantes. Uma das perguntas que o gerente responsável por pessoas físicas na Petrobras mais escuta é justamente por que a empresa não repassa aos combustíveis brasileiros o aumento nos preços internacionais de petróleo.

Como vão as concorrentes?
Muitas companhias listadas em bolsa ainda não têm concorrentes diretos no pregão. Com isso, fi ca mais difícil comparar o desempenho da empresa em relação às suas concorrentes. No entanto, a equipe de relações com investidores pode fornecer dados sobre participação de mercado ou outros indicadores setoriais que permitam posicioná-la melhor.

Com quem posso obter relatórios?
Você quer ler os relatórios de pesquisa produzidos pelos bancos e corretoras sobre a empresa, mas não sabe a quem pedir? O RI pode fornecer os contatos dos analistas e até apresentar um resumo das recomendações realizadas por todas as casas que cobrem as ações da companhia.

Por que as ações estão caindo ou subindo?
Embora alguns movimentos de preço não possam ser explicados, o RI pode ajudá- lo a entender os fatores que infl uenciam a percepção de valor do mercado num determinado momento. Com essas informações você se sentirá mais seguro para decidir se é hora de comprar, vender ou manter os papéis da companhia.

É verdade que a empresa vai ser comprada?
Vira-e-mexe correm boatos sobre a venda de uma companhia para uma concorrente nacional ou estrangeira. Por lei, o RI deve esclarecer o mercado a respeito de operações de fusão ou aquisição, embora não tenha a obrigação de fornecer detalhes. Se a venda ainda está sendo estudada, o ideal é que ele não desminta a informação, porém deixe claro se a possibilidade será ou não avaliada. Quando a operação é tornada pública, a equipe de relações com investidores é que orienta o que os acionistas devem fazer caso haja troca de ações, por exemplo.

Herdei ações, o que faço?
São relativamente comuns os casos em que ações de companhias mais antigas, como as do setor elétrico ou de telefonia, que você nem sabia que existiam, venham parar em suas mãos como herança. Não tem certeza se elas ainda valem alguma coisa? O RI pode orientá-lo sobre o valor dos papéis e o que é preciso fazer para negociá-los.

O que a empresa vai fazer para conter uma crise?
Toda companhia apresenta riscos que podem defl agrar grandes perdas para os acionistas. Como esses riscos são gerenciados? Qual o potencial impacto deles? No caso de um acidente envolvendo a empresa ou de uma grande mudança na administração, o RI deverá esclarecer o que está sendo feito para reparar as perdas e qual a perspectiva de duração da crise.

Como saber se o RI funciona?

Três passos para avaliar o desempenho de um departamento de relação com investidores:

1 - Ter departamento de RI não signifi ca que o acionista será bem atendido. Primeiro procure saber se existe alguma iniciativa para quem não tem o mesmo conhecimento técnico que o profi ssional de mercado. Algumas companhias também privilegiam o investidor institucional, de maior porte, com um atendimento mais personalizado.

2 - O site de RI é a ferramenta mais importante de comunicação entre investidores e empresas. Certifique-se que ele de fato é funcional. Como? Confi ra se há segmentação do conteúdo por tipo de acionista, porque isso garante informações mais diretas, e que os textos tenham uma linguagem de fácil compreensão. Hoje, a maior parte das companhias abertas disponibiliza sites segmentados, com home pages para cada tipo de investidor, de maneira a facilitar o acesso às informações que mais interessam a cada um.

3 - Por melhor que seja o site, é preciso certifi car-se se há encontros presenciais. Procure saber se a empresa participa de eventos dirigidos ao investidor leigo, como as reuniões promovidas pelo Instituto Nacional de Investidores (INI) e a Expomoney, por exemplo.