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As lições de 2007

A volatilidade deu o tom do mercado no ano passado e mostrou que as aplicações em bolsa devem ser feitas para o longo prazo

Por MIRIAM KÊNIA

A Bovespa viveu mais um ano histórico em 2007. As cifras são emblemáticas: o Ibovespa, principal índice da bolsa, superou a marca inédita de 65 000 pontos. Muitas empresas abriram capital. Até novembro do ano passado, o pregão registrava 61 estréias. A lucratividade das principais companhias listadas na bolsa aumentou, em média, 45% em relação a 2006. Os capítulos da história que aconteceu em 2007, no entanto, não foram só de glórias. Aos bons momentos da bolsa se alternaram períodos de euforia e instabilidade. Desde a crise dos mercados internacionais, detonada pelos problemas de crédito imobiliário nos Estados Unidos, o sobe-e-desce dos preços dos papéis fi cou intenso. Em agosto, em um único dia, a Bovespa caiu mais de 8%. Depois, fechou setembro com alta de 10,6%. A volatilidade pegou os investidores de surpresa. Principalmente aqueles que haviam entrado recentemente na bolsa e não estavam acostumados com a inconstância. Se você foi um deles, saiba que é bom se acostumar com a instabilidade. O cenário de altas e baixas no preço das ações deve continuar intenso, mas quanto maiores os riscos, maiores as chances de ganho. A seguir, essa e outras lições de 2007 que ficam para 2008.

1 - Comprar e vender

Em 2007, a calmaria durou pouco no mercado de ações. Em fevereiro, os números da economia chinesa fi caram abaixo do que os analistas esperavam e provocaram os primeiros sustos na bolsa. O Ibovespa chegou a registrar queda de 6,63%. Para quem estava embolsando lucros havia um bom tempo, a desvalorização das ações serviu como lembrete de que os ganhos acionários não são eternos. Uma hora o preço cai. Quando o papel já subiu o sufi ciente para as metas que você defi niu, é hora de vender, mesmo que a tendência seja de alta, diz Paulo Veiga, sócio da Mercatto Gestora de Recursos, do Rio de Janeiro.

LIÇÃO: Vender na alta e comprar na baixa.

2 - Ação é para o longo prazo

A queda repentina no preço das ações trouxe à tona uma lição básica: investimento em renda variável é de longo prazo. Ou seja, quem aplicou seu dinheiro na bolsa olhando apenas para os ganhos dos meses anteriores e esperava lucrar 5% ou mais no final de um mês para quitar um compromisso financeiro teve problemas, ficando com saldo negativo. Não se deve programar os rendimentos mensais e imprescindíveis apenas em ações. Já o investidor que planejou a aplicação no mercado acionário com a expectativa de resgatar o dinheiro no longo prazo passou ileso pela turbulência. Bastou ter sangue-frio para esperar. Dois meses depois, a Bovespa superou o efeito China e foi o melhor investimento do mês.

LIÇÃO: Se vai precisar do dinheiro em um ano, prefira a renda fixa, nada de bolsa.

3 - A crise gera oportunidades

A partir de junho, os efeitos negativos da crise com a inadimplência no mercado de crédito imobiliário americano começaram a ficar contagiosos. E se espalharam pelo mundo financeiro afora. No Brasil, o problema se agravou entre julho e agosto. O pior momento foi no dia 15 de agosto, quando o Ibovespa caiu mais de 8%. Acredite, essa é a hora ideal de fazer negócios. Quando os preços dos papéis estão baixos, é o momento de ampliar a carteira, afi rma Marco Melo, da Ágora Corretora, do Rio de Janeiro. Isso se você tiver dinheiro em caixa para fazer um investimento arriscado no longo prazo. No auge da crise, quem aproveitou as pechinchas no preço das ações e comprou papéis da Vale teve um rendimento em torno de 25% em apenas três meses.

LIÇÃO: Fique atento aos momentos de crise porque eles podem baixar o preço de boas ações, criando condições para esperar ganhos no médio e longo prazos.

4 - O ano dos IPOs

Um dos marcos positivos do mercado de ações em 2007 foi o crescimento das ofertas de abertura de capital das companhias brasileiras. A boa valorização das novatas transformou os IPOs (sigla em inglês para oferta inicial de ações) em febre. É justamente aí que mora o perigo. O investidor cometeu muitos erros diante da euforia porque se esqueceu de avaliar os fundamentos da empresa, afi rma Rodrigo Aché, da Brascan Corretora, de São Paulo. A melhor lição veio do setor imobiliário, recordista em abertura de capital com 26 novas empresas. No começo das ofertas, muitas pessoas não conseguiram comprar a quantidade de papéis que desejavam de uma determinada companhia, em função da grande demanda dos investidores institucionais que têm preferência nas ofertas. Houve casos em que o cliente fez reserva para investir 50 000 reais e só conseguiu 2 000 reais, conta Rodrigo. Por isso, alguns optaram por fazer reservas com valores elevados. Mas se esqueceram de considerar que nem todo IPO é um bom investimento. No final, algumas ações encalharam entre os grandes investidores. Como são eles que ditam as diretrizes do pregão, houve uma sobra dessas ações. O preço caiu.

LIÇÃO: Nem todo IPO é lucro na certa. Os mesmos critérios de análise para compra de uma ação devem valer nessa hora.

5 - A estréia não é tudo

As ofertas iniciais de ações também podem causar decepção no longo prazo. A valorização da ação na estréia não é garantia de lucro no futuro. Os papéis da Camargo Corrêa Desenvolvimento Imobiliário valiam 14,50 reais na estréia. Dez meses depois, em novembro, caíram para 9 reais. O sucesso do IPO da Bovespa Holding, que teve uma valorização de 52% logo no primeiro dia do pregão e manteve o preço acima da cotação da abertura mesmo após as sucessivas quedas registradas no processo, não é uma regra geral. O seu desempenho está ligado a perspectivas de fortalecimento do mercado nacional e aos seus fundamentos, explica Rodrigo. É preciso analisar o potencial de cada uma das companhias que desembarcam no pregão, e não se empolgar apenas com o lançamento.

LIÇÃO: Sucesso no IPO não é garantia de rentabilidade futura. Para não errar, reveja sua carteira periodicamente.