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Aprenda a usar o fator feminino

Mais pacientes do que os homens, as mulheres contam suas estratégias para ter rentabilidades acima do mercado

Por CAMILA GUIMARÃES HESSEL

Doraci Julia, da Corretora Gradual: mulheres procuram justifi cativas para embasar cada negócio

Embora os clubes de investimento formados por mulheres não sejam novidade no Brasil eles existem desde a década de 90 , ainda não existem pesquisas que comparem as suas estratégias de investimento e os resultados com o de clubes mistos ou formados apenas por homens. Mas lá fora, onde o investimento em ações é mais consolidado, estudos comprovam o que muitos gestores já começam a perceber por aqui. As mulheres, por serem mais pacientes, obtêm resultados melhores do que os homens quando investem em bolsa. O portal fi nanceiro britânico Digital Look acompanhou as carteiras de 100 000 clubes de investimento na Inglaterra de 2004 a 2005 e verifi cou que, na média, os portfólios femininos obtinham um retorno de 17% sobre os investimentos realizados em um ano, enquanto os masculinos chegavam a 11%. Detalhe: o desempenho do mercado foi de 13% no período.

BEARDSTOWN LADIES

Sempre que se fala em clubes de investimento para mulheres e que obtêm resultados acima da média do mercado, alguém lembra a história das Beardstown Ladies. Em meados dos anos 90, o sucesso dos investimentos em bolsa desse clube de investimentos ganhou as páginas dos jornais e revistas especializados em fi nanças. O clube foi formado em 1983 por 16 velhinhas de uma cidade com pouco mais de 5 000 habitantes em Illinois, nos Estados Unidos. As vovós publicaram cinco livros com dicas de investimento e percorreram os Estados Unidos com palestras lotadas de admiradores.

A estratégia delas nada tinha de revolucionária. Elas começaram com 100 dólares cada uma e investiram outros 25 dólares por mês em companhias que conheciam bem. As ações do Wal-Mart entraram para a carteira a partir de uma conversa trivial. Algumas delas comentavam a difi culdade de encontrar vagas de estacionamento na loja da cidade e uma outra lembrou que o principal concorrente (K-Mart) vivia vazio. Opa! Boa razão para investigar os relatórios de analistas e entender se o movimento das lojas de Beardstown refl etia a realidade das duas empresas. Quando uma outra participante passou a usar marca-passo, elas foram estudar a empresa que o produzia, descobriram que era líder de um mercado promissor e, claro, adicionaram as ações da Medtronic ao portfólio.

Embora a imagem do grupo tenha sido manchada quando uma revista de Chicago apontou erros no cálculo dos retornos obtidos pelo clube, as suas lições se provaram válidas quando estourou a bolha da internet. Enquanto a maior parte dos investidores perdeu milhares e milhares de dólares, o prejuízo das Beardstown Ladies não passo u de umas poucas centenas. Isso porque, assim como a maioria das mulheres investidoras, elas só compram ou vendem um papel depois de ler muito a respeito e de trocar idéias e conselhos com as amigas e outras pessoas de sua confi ança. Enquanto os homens costumam decidir seus investimentos de um jeito mais independente, as mulheres procuram reunir justifi cativas para embasar cada negócio, diz Doraci Rodrigues Martins Julia, assessora de investimentos da Corretora Gradual, que atende a cerca de 30 clubes de investimento, dois deles formados apenas por mulheres.

FILHOS E NETOS

O primeiro clube brasileiro, em atividade desde 2001, foi fundado por professoras aposentadas e já não é exclusivamente feminino. Não resistimos ao pedido de alguns fi - lhos e netos e os trouxemos para o clube, diz a sua representante Rosegleyde Souza Rocha. Hoje, dos 64 componentes, seis são homens. A rentabilidade da carteira em 2007 (até 30 de novembro) foi de 74,5%, acima dos 46,8% do Ibovespa. O segredo? Decisões estudadas e muita paciência. Sempre que se interessam por uma determinada empresa, as participantes do clube levam a sugestão a Rosegleyde, que lê os relatórios de analistas e consulta Doraci. Se o papel pelo qual estão interessadas subiu muito nos últimos dias, peço que esperem um pouco, diz.

Encontro de investidoras na Bovespa, em São Paulo: elas capricharam na lição de casa

O método adotado pelo clube de Rosegleyde também funciona num dos maiores grupos exclusivamente femininos do Brasil, o Mulherinvest, fundado em abril de 2004 pela consultora fi nanceira Sandra Blanco, que hoje reúne 100 participantes. Quando alguém se interessa por uma empresa, criamos uma força-tarefa de pesquisa, que depois apresenta os resultados do estudo para o grupo, antes de optar ou não pela compra do papel, diz Sandra. A paciência não se refl ete apenas na hora de incluir um novo papel na carteira, mas também no ritmo do giro das ações que a compõem. Em vez de comprar e vender todo dia ou toda semana, elas realizam poucos negócios por ano, apesar de acompanhar de perto tudo o que acontece com a bolsa. Em novembro do ano passado, o Mulherinvest acumulava rentabilidade no ano próxima de 60% e a valorização desde a fundação do clube era de impressionantes 310%.

O primeiro clube de investimentos do estado do Mato Grosso foi fundado por Marilise Doege Esteves, de 52 anos, professora universitária e consultora de empresas. O clube Mulheres Prósperas usou uma atitude bem feminina para escolher a data de lançamento. Consultou um numerólogo para identifi car um dia auspicioso para os negócios e ofi cializou sua abertura em 3 de março de 2007.

A idéia nasceu a partir de uma palestra do projeto Mulheres em Ação, iniciativa da Bolsa de Valores de São Paulo. Três gerações de mulheres participam do Mulheres Prósperas, que é gerido pela Spinelli Corretora. A mais jovem componente é neta de uma das primeiras participantes e tem apenas 3 anos. Elas se reúnem uma vez a cada 30 dias, analisam o desempenho do mês, trocam idéias sobre fi nanças pessoais e assistem a apresentações de convidados sobre temas relacionados ao mercado.

Já tivemos cursos sobre análise gráfi ca e fundamentalista, palestras sobre o funcionamento geral do mercado de capitais e também sobre a tributação dos diferentes tipos de investimento, diz Marilise. A empolgação fez muitas trocarem a novela pelo canal de notícias financeiras. Os maridos, amigos e fi lhos são convidados para os eventos mensais, apesar de não participarem do clube. Manuel Lois, diretor de investimentos da Spinelli, elogia a disciplina delas em relação às suas expectativas quanto à rentabilidade inicial dos investimentos. Como a carteira do clube ainda está em fase de formação, elas estão mais concentradas em entender o mercado, afi rma Manuel. Por serem mais tolerantes e menos ansiosas, as mulheres têm conseguido excelentes resultados na bolsa.