
"Mantenha uma carteira diversifi cada para suportar bem os momentos de volatilidade que a bolsa pode enfrentar este ano" -- Paulo Corchaki, diretor de estratégia do Itaú Private
"Não se deixe levar pela emoção na hora de vender ou de comprar um papel" - Gustavo Castello Branco, superintendente de asset allocation do BNY MellonO mercado de gestão de fortuna, ou private banking, vive um momento de plena expansão no país. Uma sondagem feita pela consultoria PricewaterhouseCoopers no primeiro semestre de 2007, encomendada pela Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), aponta um crescimento de 24% para o mercado nos próximos três anos. A receita desse segmento aumenta 31% ao ano, segundo o mesmo estudo. Tudo isso porque as instituições estrangeiras observam na expansão econômica do Brasil uma boa oportunidade de negócio. Houve um tempo em que contar com uma assessoria exclusiva no banco era privilégio de milionário. Hoje, com depósito a partir de 100 000 reais já se pode ter acesso a esse tipo de serviço. A vantagem está na estrutura de aconselhamento e pesquisa, que garante acesso a informações de todos os mercados do mundo, além do compromisso de uma generosa rentabilidade que se estabelece com o cliente. Para quem ainda não chegou lá, vale a pena tirar proveito da expertise de profissionais dessa área. A seguir, dois gestores de fortuna apontam os erros mais graves de um investidor e dizem como acertar em 2008 para entrar no clube dos private.
1 Gustavo Castello Branco, superintendente de asset allocation do BNY Mellon
2 Paulo Corchaki, diretor de estratégia do Itaú Private
1 Explicar os riscos que um cliente está correndo em cada modelo de investimento e adaptá-los de acordo com o perfi l de cada um. O papel do gestor de fortuna é otimizar a relação entre risco e retorno e não permitir que o investidor se deixe levar pela volatilidade do curto prazo. Tomo como exemplo a queda na Bovespa em agosto de 2007. Um investidor despreparado esquece que o foco é o longo prazo e se desfaz de papéis com prejuízo. O desafi o é justamente entender o perfi l do cliente de forma a compor uma carteira sob medida, seja ele um investidor agressivo ou um que não suporta oscilações.
2 A resposta mais direta é: educar. Em geral, o investidor tem um desejo de conseguir a maior rentabilidade com o menor risco. Quando falo que o gestor de fortuna precisa educar é no sentido de mostrar a relação que existe entre risco e retorno. Veja o exemplo da renda variável. Quando a performance é boa, todos querem ter ações e esquecem que existe volatilidade. Um gestor de fortuna deve se desdobrar para conhecer bem o seu cliente e saber quanto de risco ele é capaz de suportar.
1 Observe que o brasileiro esteve por muito tempo acostumado a taxas altíssimas, o que representava alta rentabilidade em aplicações sem qualquer tipo de risco. Não saber medir o risco de uma aplicação é um dos principais erros que o investidor brasileiro comete. Conheço inúmeros casos de pessoas que têm apetite para a bolsa enquanto ela está em alta, mas basta o primeiro solavanco para que entrem em desespero. Certamente, o aplicador americano já passou por tudo isso e entende a bolsa como longo prazo. Imagine que metade da população dos Estados Unidos tem investimento em ação. Enquanto no Brasil, os investidores não somam 4%. Nossa bolsa é mais volátil que a americana, é natural.
2 O tino do investidor brasileiro ainda é para o curto prazo. Mas a difi culdade em pensar no longo prazo é uma questão cultural, herança do ambiente em que vivemos aqui nos últimos anos: altas taxas de juros, uma bolsa muito especulativa. Tudo isso mudou e vai levar um tempo para quem investe se acostumar. O brasileiro, em geral, não tem visão estratégica. Não compra um papel imaginando que em cinco anos valerá a pena, espera uma resposta imediata, e isso o mercado de renda variável não garante.
1 Consideramos um tíquete mínimo de 5 milhões de reais, mas claro que alguém com 100 000 reais poderá ser nosso cliente, entrando num fundo condominial. Atualmente, temos quase 1 000 aplicadores no Brasil.
2 Dois milhões de reais. Atualmente, temos 6 000 clientes com esse nível de investimento e uma equipe grande o sufi ciente para prestar atendimento exclusivo.
1 Uma vez por mês falamos com o cliente. Nesse encontro, fazemos uma prestação de contas, mas sem vincular essa prestação a uma mudança na carteira. Como disse, nosso objetivo é de longo prazo. Acho que isso vale para qualquer pessoa: acompanhar as notícias diariamente é saudável. Mas não dá para checar todos os dias se ganhou ou perdeu do CDI. É preciso dar tempo para o investimento maturar. Um fundo de ação precisa de um horizonte de três a cinco anos. Revisão na carteira nós fazemos todo mês, mas, uma vez tomada a decisão de investimento, não nos preocupamos com o resultado de curto prazo.
2 Nós reavaliamos diariamente a carteira de nossos clientes, mas ofi cialmente há reuniões mensais de quatro comitês que têm essa função. O primeiro comitê é o internacional e analisa todos os fatos ao redor do globo. Depois, tem a reunião do comitê nacional, que refl ete sobre os acontecimentos locais e destaca setores e empresas. Em seguida, o comitê de alocação analisa as classes de ativos. E há ainda um comitê que se debruça apenas sobre o mercado de ações.
1 Isso depende de contrato para contrato. Temos fundos que são 100% geridos por nós. Outros que têm gestão compartilhada e há ainda os que o cliente toma a decisão, ele é o gestor da carteira e nós apenas damos o suporte. Nesses casos, pedimos que todos assinem uma carta assumindo a responsabilidade sobre a rentabilidade da carteira.
2 O investidor tem muita fl exibilidade para escolher como quer operar. Basicamente, são três os tipos de cliente: o que já sabe exatamente o que quer e nós apenas executamos; o que quer debater, aceita receber conselhos, mas faz questão que a decisão fi nal seja dele, e aquele que delega 100% da gestão do patrimônio. Nós oferecemos estruturas diferentes para cada tipo.
1 Trabalhamos com três metas de longo prazo, o que signifi ca mais de dois anos: 105% do CDI para os mais conservadores; 115% para os considerados moderados e 130% do CDI para os que têm apetite ao risco e alocam 40% do patrimônio em bolsa.
2 Cada caso é um caso e isso varia muito, dependendo do tipo de ativo do cliente.
1 Isso também vai depender do perfi l do cliente. Para os mais dispostos ao risco, aconselhamos que destinem 40% para aplicação em bolsa. Esses certamente são os que entendem que bolsa é investimento para cinco anos no mínimo. Mas há muitos que querem distância dos pregões. Para esses, sugerimos que tirem proveito dos fundos multimercado.
2 A regra não é a mesma para todos. De modo geral, aproximadamente 50% dos clientes private não têm nada em renda variável e 15% mantêm 30% ou mais do patrimônio na bolsa. O restante se divide entre os que aplicam em renda variável esporadicamente e os que mantêm entre 10% a 20% aplicados em ações.
1 Estou esperando um mercado um pouco mais volátil do que em 2007, por isso manter uma carteira diversifi cada é uma boa alternativa para atravessar as situações adversas do mercado com maior segurança. Não sou um pessimista, mas tenho a impressão de que este ano não será tão fácil.
2 Disciplina. Investir com disciplina é primordial. É preciso saber a hora de entrar e a hora de sair, e não se deixar levar pelas emoções. A decisão de comprar ou vender um papel precisa antes de tudo ser motivada por análises fi nanceiras. Muita gente compra uma ação que começa a perder valor, mesmo assim se apega ao papel de investidor e se torna um torcedor. É um erro. Ou, ao contrário, enxerga uma boa oportunidade de investimento, mas prefere ficar longe só porque não vai muito com a cara do presidente da companhia. Isso não pode ser parâmetro de decisão.
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