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O que esperar de 2008

Já deu para perceber que o ano será de fortes emoções. Você deve ter cautela, mas nada de desespero. A previsão é de alta para a bolsa

Por CAMILA GUIMARÃES HESSEL

Economia americana: risco de desaquecimento pode contaminar mercados no mundo todo

Um suspense paira sobre as mesas de operação a respeito de 2008: será mesmo este o ano em que o Brasil alcançará o grau de investimento? Se acontecer, vai ser uma excelente notícia. Mas há analistas não tão confi antes e a razão estaria nos elevados níveis dos gastos governamentais. Sem contenção de gastos, a classifi cação pode fi car para 2009. Menos mal que, independentemente do investment grade, os dólares continuarão entrando de maneira crescente no país. E os possíveis ecos da crise na economia americana não devem alterar o rumo do mercado de ações brasileiro. Será? Analistas experientes dizem o seguinte:

  • Alexandre Póvoa, diretor da gestora de recursos Modal Asset Management, projeta um período de volatilidade, mas com a bolsa chegando ao fim do ano em 77 000 pontos.
  • Daniel Gorayeb, analista da Spinelli Corretora, de São Paulo, é mais otimista: acredita que a bolsa chegará a 80 000 pontos, movida justamente pelos bons resultados das empresas. É certo que a Bovespa continuará sua trajetória de alta, embora em ritmo menor, diz Daniel.
  • Rodrigo Menon, economista da consultoria Beta Advisors, de São Paulo, acredita nos 80 000 pontos e vê nisso um ótimo sinal da credibilidade do mercado de ações brasileiro, independentemente da volatilidade que o ano promete.

Para ganhar com isso, claro, é preciso acompanhar de perto os acontecimentos. Por isso, veja o que merece sua atenção especial em 2008.

1 - Comportamento da economia nos Estados Unidos

Os efeitos da crise provocada pelas hipotecas de alto risco devem ser sentidos ao longo de 2008, principalmente porque afetarão o lucro das instituições fi nanceiras e, conseqüentemente, a sua capacidade de conceder crédito. Enquanto os balanços oficiais do ano não saem, um levantamento realizado pela Modal Asset Management, a partir de dados fornecidos pela agência Bloomberg, dá uma idéia do impacto. Ao fi nal do terceiro trimestre de 2007, a redução média nos lucros declarados pelos grandes bancos internacionais foi de 47%. Este é um dos motivos que levaram alguns especialistas a considerar a possibilidade de uma recessão nos Estados Unidos. A recessão não é certa, ainda assim há consenso que haverá uma desaceleração e que é importante fi car de olho nas notícias sobre a situação da economia norte-americana.

Uma forte desaceleração econômica nos Estados Unidos pode trazer a bolsa brasileira para baixo, o que representa mais volatilidade. Isso porque a redução no consumo dos norte-americanos afetaria o desempenho das empresas exportadoras, que estão entre as maiores companhias listadas na Bovespa e suas ações fi cam entre as mais negociadas. No entanto, há consenso que é pouco provável haver recessão tão grave nos Estados Unidos. O doente já está sendo medicado e, até o fi m de 2008, os ajustes necessários já terão surtido o efeito desejado, diz Osvaldo Salles Guerra, diretor executivo de alta renda do Banco do Brasil.

2 - Comportamento da economia brasileira

Que o Produto Interno Bruto (PIB) vai crescer este ano é certo, ninguém duvida. O crescimento será estimulado, principalmente, por um aumento no emprego, que deve levar à aceleração do consumo e estimular novos investimentos por parte das empresas. Ainda tem o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, que injetará recursos em infra-estrutura, benefi ciando diretamente empresas do setor. O ano também será marcado pelo período de eleições municipais e pelo início da preparação do país para sediar a Copa de 2014. Essas notícias, no entanto, não devem surtir grandes efeitos no mercado de ações. A política, principalmente de caráter municipal, tem pouco impacto sobre o mercado e, quanto à Copa, ainda falta muito tempo para começarem as obras de infra-estrutura, diz Rodrigo Menon, da Beta Advisors. Países-sede de Copa costumam ter o PIB ampliado em 1 ponto percentual no ano de realização dos jogos isso ainda vai levar seis anos para acontecer. A seguir, outros itens que devem marcar 2008 na economia brasileira:

Taxa de juros

A trajetória de queda na taxa de juros é dada como certa, embora ocorra em ritmo bem menor do que o verifi cado em 2007. Há projeção de pequenos cortes ao longo do ano que, somados, devem chegar a 1%, levando a Selic a 10,25% ao fi nal de 2008. A velocidade desse recuo vai depender da capacidade produtiva das empresas, diz Daniel Gorayeb, da Spinelli. Se ela aumentar em linha com a demanda, reduzindo a pressão infl acionária, o ritmo dos cortes pode ser mais intenso.

Inflação

Desde o último trimestre de 2007, o Banco Central do Brasil (BC) vem dando sinais de aumento nas expectativas de infl ação. O fi m do ano é sempre marcado por relativa elevação dos preços, com impacto nos primeiro trimestre do ano seguinte, mas a preocupação do BC são os eventuais impactos de uma recessão nos Estados Unidos. Velha conhecida do brasileiro, a infl ação pode subir em virtude de um descompasso entre o aumento no volume de investimentos e na demanda por produtos. É que, com o aquecimento do mercado e a continuidade na ampliação da oferta de crédito, a demanda pode crescer em ritmo mais acelerado, pressionando os preços para cima. Além disso, os problemas nos Estados Unidos trazem incertezas com relação à taxa de câmbio, que tradicionalmente funciona como um amortecedor dos riscos infl acionários.

Dólar

A entrada de moeda estrangeira no país continuará forte, em virtude da manutenção de uma ativa participação dos investidores estrangeiros na bolsa e nas novas ofertas de ações. Além disso, a taxa de câmbio no Brasil deve refl etir a tendência internacional de queda da cotação da moeda norte-americana, acentuada desde o início de 2006. As projeções dos analistas colocam o dólar no fi m deste ano muito próximo do patamar de fechamento em 2007: entre 1,70 real e 1,80 real.

Investment grade: se confirmado, estrangeiros devem investir mais no Brasil

3 - Grau de investimento

O selo de bom pagador concedido pelas agências internacionais de classifi - cação de risco (rating) aos países que apresentam menor risco de crédito é esperado com grande ansiedade. O grau de investimento irá colocar o país entre os primeiros da lista utilizada pelos grandes investidores internacionais na hora de destinar suas aplicações. Algumas mudanças ocorridas nos últimos anos são interpretadas pelos especialistas como sinais de que a obtenção do grau de investimento é mera questão de tempo.

A primeira delas é o próprio crescimento da participação dos investidores estrangeiros na bolsa brasileira: eles fi - caram com cerca de 70% das ações emitidas nos mais de 90 IPOs (oferta inicial de ações, na sigla em inglês) realizados desde 2005. Entre as outras evidências apontadas estão o aumento no volume de investimentos estrangeiros diretos e o forte aquecimento do setor imobiliário que, em geral, é um dos que mais crescem às vésperas da conquista do grau de investimento. Apesar das evidências, não há como prever quando as agências irão alterar a classifi cação de risco do Brasil nem mesmo projetar com exatidão o que vai acontecer depois.

Embora muitos analistas apostem que o grau de investimento virá ainda em 2008, há quem espere a classifi cação apenas em 2009. Um dos elementos da nossa economia que contribui para a hesitação das agências de rating é o elevado nível de gastos do governo. Com maior contenção de despesas governamentais, o Brasil já teria recebido o selo do grau de investimento, que, em boa parte, está condicionado à disciplina financeira de um país.

É difícil estimar os efeitos da nova classifi cação, mas o histórico dos países que já receberam o selo mostra que o fl uxo de investimentos estrangeiros se multiplica, especialmente nos setores em que o país tem destaque. O agronegócio, a indústria de energia e os setores ligados à infra-estrutura, com destaque para logística, são apontados como os favoritos no caso do Brasil.

Com a maior procura pelas empresas desses setores, o preço das ações daquelas que já estão na bolsa tende a subir bastante e as que ainda não abriram capital devem estrear mais rápido no pregão. Outro impacto recorrente é sobre a taxa de juros, que costuma cair de maneira acentuada após o grau de investimento dando um empurrão extra na economia como um todo.