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Fôlego para sua carreira

Pensando em largar o cigarro? Saiba que fumar custa caro para sua saúde, sua vida profissional -- e para a empresa em que você trabalha também

Por Roberta Rego

O funcionário fumante pesa mais no orçamento da empresa do que aquele que não fuma: interrompe suas tarefas com mais freqüência, vai mais vezes ao médico, se interna mais e falta ao trabalho com maior freqüência. Sem falar que o fumante gasta, em média, meia hora por dia com as idas ao fumódromo. Essas são as conclusões de uma pesquisa realizada no ano passado pela Vie Santé, consultoria paulistana que oferece programas corporativos de controle e tratamento do fumo. Juntas, as 14 companhias que participaram do levantamento gastaram mais de R$ 123 milhões para tratar do tabagismo de seus colaboradores. "Existem estudos comprovando que o hábito de fumar custa para as corporações significativamente mais do que o sedentarismo, a obesidade e o estresse", reforça Sheila Clezar, gerente de benefícios da Marsh, operadora de seguros, com escritório em São Paulo, responsável pelo gerenciamento de risco e seguros de 44 das 100 maiores empresas do país em faturamento.

Segundo Nicolas Toth Jr., gerente-geral da Vie Santé, as chances de um fumante na disputa por um cargo ou por uma nova oportunidade no mercado costumam ser menores do que as de um não-fumante. Andréa HuggardCaine, sócia-diretora da HuggardCaine consultoria de gestão em recursos humanos, de São Paulo, concorda e acrescenta: "Se você não é eficiente e é fumante, pode ser visto como um profissional que trabalha menos do que os outros". Sem falar que o tabagismo entre os funcionários também afeta negativamente a imagem da empresa. Não é à toa que o cerco ao cigarro está se fechando. As empresas que mantêm programas consistentes de qualidade de vida conseguem reduções de 18% no número de consultas médicas e de 25% no custo de assistência médica depois de dois anos de funcionamento do programa. "E a diminuição dos fatores de risco para a saúde pode chegar a 70%", afirma Sheila, da Marsh. A HuggardCaine realizou, no ano passado, um levantamento para avaliar as políticas usadas pelas empresas na contratação de profissionais. A maioria -- na verdade, 95% -- das 128 organizações de médio e grande portes ouvidas no estudo da HuggardCaine afirmou não haver discriminação contra fumantes.
"Pode até não existir preconceito explícito, mas as organizações não facilitam as coisas para quem fuma", diz Andréa. Segundo a consultora, a tendência de proibir o fumo foi disseminada pelas multinacionais americanas e quase se tornou uma política mundial.


Exemplos a serem seguidos
Presente em cerca de 100 países e com mais de 100 000 funcionários -- 600 deles no Brasil --, a empresa suíça ABB, líder em tecnologias de energia e de automação, conseguiu fazer 70% dos colaboradores fumantes largar o cigarro. A iniciativa, que existe desde 1999 e foi desenvolvida em parceria com o Prevfumo, uma entidade ligada à Universidade de São Paulo, foi premiada pelo Ministério da Saúde e pelo Instituto Nacional de Combate ao Câncer. Além da proibição do fumo dentro da fábrica e da instalação de fumódromos, a ABB subsidia tratamento médico e acompanhamento psicológico.

Outra empresa que vem conseguindo resultados é a indústria de cosméticos Avon, que, em 1996, implementou o Programa de Qualidade de Vida Sem Fumo. O projeto inclui campanhas anuais, grupos de apoio e atendimento médico individual toda sema-na. A empresa arca integralmente com os custos dos remédios e paga metade das sessões de auriculoterapia, tratamento feito com acupuntura ou com pontos cirúrgicos na orelha, cuja finalidade é diminuir a vontade que a pessoa sente de fumar.

Se algumas empresas estão dando o exemplo e ajudando seus funcionários na luta contra o cigarro, resta a eles aproveitar a oportunidade. Antes de tudo, precisam querer abandonar o vício. Tomada essa decisão, devem lançar mão de todos os recursos que a ciência criou para ajudá-los a se livrar da dependência da nicotina. Isso não diminui o valor de seu esforço nem indica falta de força de vontade. Afinal, a Organização Mundial de Saúde considera o tabagismo uma doença -- e das mais letais.


Livre da fumaça
Depois de 17 anos consumindo um maço e meio de cigarros por dia, o paulista João Pilorz, de 42 anos, decidiu parar de fumar. O primeiro passo foi aderir ao programa antitabagismo oferecido pela ABB, empresa em que trabalha como coordenador de produção. Pilorz precisava de fôlego para praticar esportes, como natação, corrida e jiu-jítsu. Além disso, queria dar um bom exemplo ao filho. "Há dois anos, no Dia dos Pais, falei para ele que nunca mais colocaria um cigarro na boca", diz. Faz dois anos que a promessa está totalmente cumprida


O alto preço do tabagismo
Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o cigarro mata 4 milhões de pessoas no mundo por ano. No Brasil, são 200 000 mortes anuais. Veja os efeitos devastadores do cigarro sobre a saúde:
90% dos casos de câncer de pulmão;
85% das mortes causadas por bronquite e enfisema;
45% das mortes por infarto agudo do miocárdio;
25% das doenças vasculares -- entre elas o derrame cerebral;
30% das mortes decorrentes de câncer de boca, laringe, faringe, esôfago, pâncreas, rim, bexiga e colo do útero.