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Ricardo Malcon em sua casa, em Porto Alegre: o encontro da felicidade depois da separação e do desencantamento pela vida
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Muito trabalho, pouca saúde

Esgotamento, medo doentio de perder o emprego e ncapacidade de se divertir -- as síndromes de quem exagera no batente

Por Cassio Henrique Utiyama

Desde 1982, a professora paulista Ana Cristina Limongi, da Universidade de São Paulo (USP), estuda o impacto do excesso de trabalho na vida das pessoas. Coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Gestão de Qualidade de Vida no Trabalho, da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP, o que não falta para ela é material de pesquisa, já que o cenário atual do mercado de trabalho é muito propício para o tipo de estudo que faz. Os brasileiros trabalham mais de nove horas por dia. E, segundo dados da International Stress Management Association (Isma-BR), até o final de 2010 a carga diária deve aumentar para quase 11 horas.

O fato de estarmos trabalhando em excesso não é novidade para ninguém. Mas, embora já se tenha falado muito no assunto, pouca gente tem uma noção exata das conseqüências que isso traz para a saúde e para a qualidade de vida.

Se o sistema exige cada vez mais produtividade e não há a menor possibilidade de reduzir o ritmo, cabe a você definir seus limites. Senão, pode ter certeza de que seu corpo vai obrigá-lo.

Em 22 anos de pesquisa, a professora Ana Cristina identificou três problemas diretamente ligados ao excesso de trabalho: síndrome do burnout, síndrome do desamparo e síndrome do lazer. Não são exatamente doenças, mas produzem alterações físicas, mentais e emocionais que preparam o terreno para problemas de saúde mais sérios. Muitas vezes elas aparecem juntas, o que dificulta bastante o diagnóstico. O abuso do álcool e das drogas, por exemplo, costuma ser uma decorrência das três síndromes. Na maior parte dos casos, o tratamento é feito à base de antidepressivos, ansiolíticos e de medicamentos para melhorar o sono. Também é preciso passar por sessões de psicoterapia e tratar das doenças que surgirem por causa das síndromes. Veja a seguir a descrição de cada uma delas.


Sindrome do Burnout
Quando o estresse se torna crônico

Traduzido para o português, o termo burnout quer dizer algo como queimar até a última cinza. Essa síndrome se caracteriza por um esgotamento emocional que acarreta sentimentos de fracasso e baixa auto-estima. Com o tempo, aparecem sintomas físicos como exaustão, alterações no sono e problemas gastrointestinais. "O burnout representa o nível máximo de estresse. Muito provavelmente o suicídio é o próximo passo para uma pessoa nessas condições", diz Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association.

O diagnóstico não é fácil, já que, segundo a Isma-BR, 86% dos pacientes que têm burnout também estão deprimidos. Para o psicólogo Esdras Vasconcellos, diretor científico do Instituto Paulista de Estresse, Psicossomática e Psiconeuroimunologia, em São Paulo, a evolução da síndrome do burnout tem cinco estágios diferentes. O tempo para passar de um para outro varia de acordo com a capacidade que a pessoa tem de resistir à pressão. O processo inteiro dura de seis a oito anos, mas a pessoa pode retroceder uma etapa, o que dificulta ainda mais a identificação do problema:

  • Entusiasmo -- o executivo vislumbra sua atuação profissional de maneira exagerada, com idealismo e uma noção distorcida da realidade.

  • Dificuldade -- o profissional percebe que seu trabalho está longe do ideal que imaginou na fase anterior. Com isso, passa a sentir dificuldade para se adaptar à realidade.

  • Isolamento -- nesse estágio, a pessoa começa a evitar o trabalho e sente, por exemplo, dificuldade para acordar de manhã para trabalhar.

  • Hostilidade ­ o profissional começa a ter um comportamento hostil com colegas, clientes, família e amigos.

  • Apatia ­ o profissional se torna totalmente indiferente a tudo e não vê mais nenhum sentido no que faz. "Depois dessa fase é só uma questão de tempo para ele adoecer de fato", diz Esdras.



    Sindrome do desamparo
    Quando o medo de perder o emprego vira idéia fixa

    Segundo um estudo da Isma-BR, depois da violência, o desemprego é o fator que mais estressa as pessoas. O medo de ir para o olho da rua aterroriza todo mundo -- não há quem não tenha sentido isso pelo menos uma vez na vida. O problema é quando esse pavor vira idéia fixa. É como uma síndrome do pânico ligada à carreira. "A pessoa passa a achar que está sob ameaça constante de ser demitida", diz Ana Cristina Limongi. Levantamentos estatísticos da Isma-BR mostram que o nível de ansiedade de uma pessoa com síndrome do desamparo fica na casa dos 82%, ante 60% de uma pessoa normal.



    Síndrome do lazer
    Quando a vida é só trabalhar

    A síndrome do lazer provoca uma alteração no funcionamento metabólico e afeta a produção normal de hormônios. A pessoa fica constantemente sob o efeito da adrenalina, hormônio produzido em situações de estresse que deixa a mente e o corpo em estado de alerta. "A sobrecarga de trabalho faz as glândulas funcionarem além do normal. Com o tempo, o organismo adota esse novo ritmo", explica o psicólogo Esdras Vasconcellos. Mesmo quando o profissional está de férias, seu organismo continua trabalhando da mesma forma e a descarga excessiva de hormônios acaba afetando a saúde. "É o caso do paciente que não se diverte e sente a necessidade de voltar para casa ou para a empresa a fim de ficar conectado com o trabalho", diz a psiquiatra Alexandrina Neleiro, do Hospital das Clínicas da USP.


    "Pensei que o mundo ia acabar"
    O executivo gaúcho Ricardo Malcon, de 54 anos, tem o que se chama de carreira bem-sucedida. Em 2000, era, ao mesmo tempo, presidente da Malcon Financeira, ao lado do irmão, e da Associação dos Bancos do Rio Grande do Sul. Também era cônsul honorário do Líbano no Estado. Em janeiro de 2002, foi eleito presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi). Mesmo com todas essas atribuições, ele ainda transformou seu hobby em negócio e começou a criar gado em sua fazenda. Resultado: 1 860 animais e mais de 20 empregados entre caseiros, agrônomos e especialistas em genética. A jornada de trabalho de Malcon durava em média 14 horas por dia, inclusive nos fins de semana. Apesar da sobrecarga, o primeiro baque só veio em julho de 2002 com a separação depois de 24 anos de casamento e quatro filhos. Cansaço constante, dificuldades no sono, desencantamento pela vida e mau humor eram apenas alguns dos sintomas que

    Malcon manifestou. "Pensei que o mundo ia acabar. Como todo descendente de libanês, dou muito valor à família e a separação significou minha falência na vida pessoal", diz. O executivo quase foi diagnosticado como depressivo, mas, no seu caso, o sintoma era fruto de duas síndromes: a do burnout e a do lazer. Malcon precisou de ajuda médica para se curar, mas aproveitou o drama para mudar de vida. Hoje, trabalha dez horas e só nos dias úteis, e freqüenta academia três vezes por semana. "Também passei a cuidar mais da aparência", completa o executivo, que deixou a Acrefi e vendeu a fazenda. A foto para esta entrevista foi tirada na véspera de uma viagem aos Estados Unidos para jogar golfe com os amigos. "Há algum tempo eu jamais faria uma coisa dessa!"

    Excesso de trabalho
    Os sintomas mais comuns de cada síndrome:
    Problema O que é Principais sintomas
    Síndrome
    do burnout
    Esgotamento
    emocional que leva
    ao esgotamento físico
    Exaustão física e emocional,
    depressão, baixa auto-estima,
    alterações no sono e no apetite,
    dores musculares constantes,
    problemas gastrointestinais,
    ansiedade, falta de concentração
    Síndrome do
    desamparo
    Medo constante de
    perder o emprego
    Irritação excessiva, agressividade,
    inflexibilidade na vida pessoal
    e impotência sexual
    Síndrome
    do lazer
    Medo constante de
    perder o emprego
    Transpiração excessiva,
    inquietação, gastrite, dores
    de cabeça e dores nas costas