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A oportunidade mora ao lado
O job rotation é uma ótima alternativa para quem quer se desenvolver na carreira quando não há uma promoção em vista
Por Roberta Rego
Em tempos bicudos e com organogramas idem (literalmente!), o crescimento profissional fica comprometido. No entanto, novas oportunidades na carreira nem sempre significam promoção ou troca de emprego. Às vezes, o crescimento é "lateral", na mesma empresa, só que em outra área, e, na maioria dos casos, sem aumento no salário -- pelo menos no começo. É o que se chama de job rotation, ou seja, um rodízio de funções que permite ao funcionário ocupar postos diferentes dentro da mesma organização. Em princípio, nenhuma função impossibilita o job rotation. A não ser aquelas mais técnicas, que exigem formação e conhecimento específico. No nível gerencial, isso não costuma acontecer porque mais importante que o conhecimento em si é o nível de empreendedorismo e a capacidade de liderança do funcionário.
Cerca de 8% das empresas que fizeram parte do Guia EXAMEVOCÊ S/A -- As Melhores Empresas para Você Trabalhar têm um programa formal de rotatividade interna para melhorar a performance do time. E, mesmo naquelas organizações em que o job rotation não está entre as estratégias do RH, não é difícil encontrar funcionários que tenham trocado de função. É que a prática do job rotation, formalizada ou não, amplia a visão que os profissionais têm dos processos da empresa e de cada setor. "Ao mudar, o executivo oxigena a área nova com a experiência que carrega da função anterior", diz Vicente Picarelli, sócio da área de gestão de capital humano da unidade brasileira da consultoria Delloitte Touche Tohmatsu. Além disso, ao trocar de ares, o profissional entende de forma mais completa as demandas da organização, além de aprender a lidar com outros subordinados e colegas de trabalho.
No Brasil, o boom dessa prática aconteceu no final da década de 90, quando as empresas começaram a sentir o impacto da globalização em suas estruturas. Aliás, foi nessa época que a expressão em inglês job rotation começou a ser utilizada por aqui. "As organizações passaram a rever a forma como estavam organizadas e perceberam que a estrutura verticalizada e rígida não trazia competitividade, pois não permite uma absorção rápida de novas estratégias", diz o consultor Picarelli. Outra defensora do job rotation é a consultora Sumaya Ferreira, diretora da Agregarh, consultoria pernambucana de recursos humanos. Para ela, escolher alguém que já está dentro de casa para um novo cargo é mais seguro. "O profissional pode até estar 'verde' em termos de experiência, mas sua competência profissional e comportamental já é conhecida", afirma. Para Sumaya, a pessoa torna-se especialista com atuação generalista, o que a deixa mais atraente para o mercado.
Dança das cadeiras
Eleita por seis anos consecutivos pelas revistas EXAME e VOCÊ S/A como uma das melhores empresas para trabalhar no Brasil, a Microsiga, companhia paulistana de tecnologia, promoveu uma verdadeira dança das cadeiras em seu quadro de diretores. A idéia é desenvolver neles uma característica marcante entre os fundadores da empresa: o empreendedorismo. Como vantagem, os diretores que participaram do programa de job rotation já tinham conhecimento mútuo de suas atividades e equipes, pois esse tipo de interação faz parte do estilo gerencial da Microsiga.
Cada diretor participou da decisão e planejou a estratégia de transição e a comunicação da mudança, transmitindo para o sucessor um perfil dos membros do time. Juntos, o antigo e o novo diretor discutiram o planejamento, desenharam atividades-chave e traçaram um cronograma. O troca-troca não gerou confusão, mas trouxe, obviamente, uma sobrecarga de trabalho. O processo durou um mês e, em fevereiro deste ano, nove dos 11 diretores da empresa assumiram uma nova posição. "Houve ganhos indiretos, como melhoria da motivação e um número maior de novos projetos, alguns bastante criativos", conta Flávio Palestrim, diretor de relações humanas da Microsiga. A experiência está dando tão certo que, daqui a algum tempo, a Microsiga pretende fazer uma segunda rodada.
Outras organizações abrem espaço para mudança de área entre seus funcionários -- embora não tenham um plano formal de job rotation como a Microsiga. É o caso da operadora de telefonia móvel TIM. O economista carioca Lorenzo Lindner, de 31 anos, que trabalha lá há pouco mais de dois anos, já exerceu quatro funções diferentes. Na última troca, três meses atrás, passou de gerente de orçamento e controle na área financeira para gerente de planejamento comercial. "Na área financeira, por exemplo, eu tinha visão do negócio, mas estava longe da linha de frente", afirma Lindner.
Também no serviço público
Em 1973, quando era chefe de habilitação no Detran da Bahia, o coronel Cassivandro da Costa Santos, de 55 anos, promoveu algumas trocas de função em sua equipe. Em 1999, ao voltar para o Detran baiano, dessa vez como diretor-geral, resolveu repetir a dose em todos os níveis hierárquicos. A medida virou case nas aulas de um MBA da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro. E, ao que tudo indica, vem dando certo do ponto de vista do "negócio": o Detran baiano é pioneiro em projetos como a prova eletrônica de legislação, a descentralização do atendimento ao público e o controle informatizado da segurança.
O estilo gerencial do coronel Santos provocou uma verdadeira revolução entre os funcionários do Detran. Houve choque, choro e até pedidos precipitados de aposentadoria. "Depois, quem participou do programa veio me agradecer", diz Santos. Entre os resultados, ele inclui, além do aprendizado, o aumento da motivação e da solidariedade entre as equipes: quando vêem filas em outros setores, as áreas vizinhas costumam mandar reforços.
CADA UM FAZ A SUA PARTE
Se as empresas têm de tomar alguns cuidados para garantir a eficácia do processo -- e adotar medidas como, por exemplo, evitar a centralização de tarefas e de informações --, os funcionários também precisam estar preparados para mudar. Geralmente, quem tem flexibilidade e facilidade para trabalhar em equipe se sai melhor em um job rotation. Aqui, algumas dicas para quem está disposto a tentar. Se achar que vale a pena, peça transferência de área, mesmo que não haja um programa formal de rotatividade interna na empresa em que você trabalha.
ESTUDE BEM O CENARIO Ninguém mais do que você sabe se o seu perfil é compatível com as necessidades da nova vaga. Não é interessante recusar uma proposta, porque indica que você é um profissional que tem algumas limitações para fazer carreira na companhia. Mas, se por algum motivo você não puder ou não quiser aceitar a oferta, apresente argumentos convincentes para não fechar as portas da próxima vez.
PENSE ESTRATEGICAMENTE Se a proposta não parecer vantajosa à primeira vista, pense no longo prazo e veja o que a mudança pode agregar para sua carreira.
CULTIVE O DIALOGO As pessoas são mais importantes do que os processos. Isso vale para a equipe e para os colegas de trabalho.
FAÇA A LIÇÃO DE CASA Para compensar a inexperiência na nova área, atualize seus conhecimentos sobre ela.
FORA DA ZONA DE CONFORTO
O paulistano Fábio Jorge Celeguim, de 31 anos, é um dos executivos da Microsiga que entraram no programa de job rotation que a empresa promoveu no início deste ano. Formado em marketing e com pós-graduação em administração de empresas, Celeguim estava, desde 1999, à frente da área de mercado internacional. Em fevereiro deste ano, assumiu a direção administrativo-financeira da empresa. Ele acredita que o job rotation permite que a companhia forme o executivo que pretende ter daqui a cinco, dez anos. Segundo ele, a equipe ganha sangue novo com a entrada de um profissional que possui outra vivência e traz novas idéias. E o executivo, por sua vez, exercita duas capacidades muito importantes: a de adaptação a novos cenários e a de empreendedorismo. "A gente deixa a zona de conforto por um tempo, mas, no final, consegue se posicionar de outra maneira", pondera.
FLEXIBILIDADE A TODA PROVA
O job rotation é praticamente a razão de ser da carreira do capitão Enéas Dibelo Estrela, de 37 anos. Desde que começou
a trabalhar no Detran-BA, há cinco anos, esse soteropolitano já passou por oito cargos diferentes. Aos 37 anos, advogado com pós-graduação em gestão pública, ele é, desde março deste ano, o diretor de licenciamento da instituição. Mas já foi assessor do diretor-geral, diretor de RH, da controladoria regional de trânsito, entre outras funções. "Essa experiência me tornou um profissional mais corajoso, pronto para superar meus limites e preparado para enfrentar qualquer obstáculo", garante.
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