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Vencedores sem diploma
As histórias de profissionais sem formação acadêmica que conseguiram fazer uma carreira brilhante
Por Arthur Pereira Filho
Um diploma de primeira linha acompanhado de especialização em instituição de renome é, para muita gente, a condição básica para fazer uma carreira de sucesso. E não é para menos: as empresas estão cada vez mais exigentes na hora do recrutamento e é preciso estar preparado para se destacar na multidão. Quanto mais diplomas e especializações, melhor. Alguns profissionais já provaram, no entanto, que nem sempre essa regra vale para todo mundo. Veja as três histórias abaixo:
A história de Haradom -- No início dos anos 60, Michael Haradom, então um garoto de 14 anos, argentino de origem judaica, decidiu pegar em armas para defender Israel. Deixou a mãe, com quem vivia em São Paulo, no bairro de Higienópolis, e partiu para o Oriente Médio. Viveu em um kibutz (uma espécie de fazenda onde as pessoas moram em comunidade), perto da fronteira com o Egito. Estudou, aprendeu hebraico e trabalhou na agricultura. Com 18 anos, após completar um curso técnico de engenharia bélica, se alistou no Exército israelense, onde serviu durante dois anos e meio. Em 1968, com 22 anos, voltou para São Paulo e decidiu investir em um negócio próprio. Hoje, aos 57 anos, Haradom é o controlador e principal executivo da Fersol, indústria química que deve faturar este ano 100 milhões de dólares. Empresário bem-sucedido, abandonou as idéias bélicas, só usa branco em nome da paz e se transformou em militante de movimentos pacifistas e de ONGs que defendem o meio ambiente e a qualidade de vida.
A história de Ribeiro -- Na mesma época em que Haradom deixava Israel, o paulistano Sidney Ribeiro, então com 17 anos, conseguia seu primeiro emprego numa pequena agência de publicidade. Ele gostava particularmente de passar as madrugadas na redação do Jornal da Tarde, no centro da cidade, local que visitava com freqüência. Sentia especial atração pelo trabalho criativo dos diagramadores, responsáveis pelo arrojado visual gráfico do jornal à época e que fez história no jornalismo. Um ano depois, Ribeiro fazia parte da equipe da agência de Neil Ferreira, um dos publicitários mais badalados dos anos 70. Após passar por agências de peso como Young & Rubican, Norton, Thompson e Salles, entre outras, atualmente, aos 54 anos, virou vice-presidente, diretor de criação e um dos sócios da Fábrica. Trata-se de uma das seis maiores empresas do país na área de marketing direto, com faturamento anual de 40 milhões de reais. Ribeiro coleciona vários prêmios publicitários no Brasil e no exterior, entre eles o Caboré de 2002, e é um dos jurados do badalado Festival de Cannes, na França, o Oscar da publicidade mundial.
A história de Hiwat -- Durante 13 anos, entre 1986 e 1999, o surinamês Stanly Hiwat trabalhou para a companhia aérea holandesa KLM como comissário de bordo e chefe de cabine. O salário era apenas 20% do que ganhava como responsável de divisão de uma empresa de marketing direto, onde havia trabalhado nos quatro anos anteriores. Mas mudar de emprego foi o jeito que ele encontrou para realizar o sonho de viajar e conhecer outros países. Hiwat nunca teve uma vida fácil. Deixou sua terra natal com a família aos nove anos para morar na Holanda. No final dos anos 70, fez sucesso como cantor e compositor de uma banda de reggae, a Chapter 3. Os compromissos como músico e a rotina de servir refeições aos passageiros nos aviões não eram suficientes para acalmar seu espírito agitado. Ele queria mais. Comprou um notebook -- um dos primeiros modelos a serem lançados no mercado -- e passou a trabalhar como free lancer para o antigo patrão da empresa de marketing direto. Seu trabalho era analisar os resultados de uma ação e sugerir a adoção de novas estratégias para aumentar a eficiência da comunicação. Aos poucos, Hiwat foi aumentando seu raio de atuação. Passou a fazer trabalhos para outras empresas e a pesquisar o potencial de mercado dos países pelos quais passava. Foi assim que conheceu o Brasil, país que conquistou seu coração. Ele decidiu ficar por aqui e trabalhar duro. Desde 2002, o ex-comissário de bordo é presidente da filial brasileira da One World Interactive, empresa britânica, líder mundial na distribuição de conteúdo digital interativo por meio de telefonia fixa e celular.
O que essas três histórias têm em comum? Haradom, Ribeiro e Hiwat não têm diploma universitário. Isso mesmo. Nenhum deles, é bom que se diga, deixou a escola de lado porque não teve condições financeiras. Foi uma escolha consciente. Autodidatas convictos, optaram por enfrentar o mercado de trabalho com a cara e a coragem. "Na época, eu achava que não havia tempo para perder com a faculdade, pois estava aprendendo o trabalho na prática com grandes profissionais", lembra Ribeiro, que desistiu de fazer arquitetura e não sente vergonha de dizer que tem apenas o Segundo Grau. Haradom compartilha da idéia de que o dia-a-dia no trabalho ensina mais do que as faculdades. Sua última experiência com os bancos escolares foi na escola militar israelense, onde completou o curso de técnica de engenharia bélica para entrar para o Exército. "Na época, a formação universitária não era prioridade para mim", diz. "Eu só pensava em ter meu próprio negócio, pois não queria depender de ninguém."
Já Hiwat, hoje com 47 anos, estudou até o quarto ano de economia na Holanda. Decidiu abandonar o curso antes do término porque se decepcionou ao ver as dificuldades que teria para arrumar emprego na área. Nunca mais voltou a uma sala de aula. "Leio bastante e me comunico muito com as pessoas", diz. "Eu me considero bom com os números e na percepção do mercado."
Não é impossível vencer sem formação superior, claro. Mas é infinitamente mais difícil. "Quando você recebe um diploma universitário, não vem um selo junto garantindo que será bem-sucedido", diz o consultor de carreira Gutemberg de Macedo, presidente da Gutemberg Consultores. "Mas hoje as empresas estão exigindo Segundo Grau completo até para faxineiros. Sem formação acadêmica, as chances de ser bem-sucedido ficam mais restritas." Para Macedo, quem optar por seguir os passos de Haradom, Ribeiro e Hiwat deve se cercar de gente competente. "Roberto Johnson, filho do fundador da Johnson & Johnson e responsável pela expansão da empresa, era um autodidata", lembra. "Mas ele tinha um método de aprendizado interessante: conhecia os gênios do seu país na época e os convidava para jantar em sua casa. Durante o encontro, Johnson os sabatinava e tinha as respostas para as suas dúvidas."
Time de talentos
Ter pessoas competentes por perto foi o que fizeram Haradom, Ribeiro e Hiwat para suprir as possíveis deficiências técnicas. Além disso, para compensar a falta de formação teórica mais sólida, os três profissionais fizeram da criatividade, do talento natural, da intuição e da força de vontade armas poderosas para enfrentar o mercado de trabalho. "Sou antes de tudo um vendedor de conceitos e idéias", diz Haradom. Aliás, a intuição é característica básica desse perfil de profissional. "Nada supera o instinto. O que leva muitos empreendedores ao sucesso é aquela chamada voz interior. Algo forte, que vem de dentro para provar que o caminho a seguir está mesmo correto", defendem o headhunter Francisco Britto e o consultor Luiz Weber, autores dos livros Empreendedores Brasileiros I e II (editora Negócio). "Eu antecipo oportunidades e procuro me cercar de profissionais competentes para levar esses projetos adiante", conta Haradom.
Renato Spallicci, dono da Apsen Farmacêutica, é outro que abandonou os estudos para focar na prática. Como tinha consciência de que seria o sucessor natural na presidência, no lugar do pai, decidiu conhecer melhor o trabalho de cada área. Passou pelos vários setores da companhia, da administração à linha de produção, para aprender os detalhes do negócio. Sob o comando de Spallicci, hoje com 49 anos, a Apsen se transformou num dos maiores laboratórios brasileiro na área de urologia. "Não tenho dúvidas de que o dia-a-dia ensina mais do que qualquer faculdade", afirma o empresário, que não chegou a concluir o terceiro ano do Segundo Grau.
A Apsen, sob o comando de Spallicci, foi pioneira na venda de medicamentos genéricos no país, já nos anos 80. Além disso, começou a fabricar, antes da concorrência, vários medicamentos que faziam sucesso no mercado internacional. "A leitura de publicações especializadas e o contato direto com os médicos para saber o que eles necessitavam foram decisivos para o crescimento dos negócios", diz o executivo.
É curioso, mas esses empresários e executivos autodidatas costumam orientar seus funcionários a não seguir seus passos. Nas empresas que comandam, eles estimulam o pessoal a estudar e a se aperfeiçoar constantemente. "Todo funcionário da Apsen, por exemplo, tem direito à bolsa de estudos no valor de 50% do curso", diz Spallicci. Já na Fábrica, de Sidney Ribeiro, há um intercâmbio com a agência de relacionamento Loyalty Rules, que promove regularmente workshops e palestras para funcionários e clientes. Michael Haradom, da Fersol, segue o mesmo princípio. "Quem não estuda está fora da empresa", afirma. Ele até criou uma escola dentro da fábrica, onde são ministradas aulas de Ensino Fundamental e Médio, alfabetização de adultos e informática. "Em breve teremos um curso de filosofia", diz.
Para o consultor Gutemberg de Macedo, o que parece incoerência, na verdade, revela um traço fundamental do autodidata: humildade. Sem essa característica, ele jamais conseguirá pedir ajuda às pessoas, muito menos montar um time talentoso. "Conheço executivos e empresários que fogem dos mais competentes porque têm medo que eles roubem seu cargo. Quem pensa assim não é autodidata. É uma pessoa que caminha para o fracasso."
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