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| Rifkin, um dos pensadores que mais influenciam a política americana: 11% dos empregos no mundo desaparecem a cada sete anos |
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O fim das vagas
O polêmico economista Jeremy Rifkin está ainda mais pessimista. Para ele, em 50 anos não haverá mais emprego nas fábricas
Por Anne Dias
Nove anos atrás,o economista Jeremy Rifkin,de 59 anos, lançou um livro que entrou para a história do mercado de trabalho mundial e tornou-se um best-seller internacional. O Fim dos Empregos era taxativo: a quantidade de vagas no mundo estava minguando.Olhando para traz,Rifkin diz que deveria ter sido ainda mais pessimista.“Fui muito conservador”, afirma.Na época em que a primeira versão saiu,Rifkin não calculava que hoje o mundo teria 1 bilhão de desempregados e subempregados.Agora,a editora M.Books relança o livro, com uma novidade: a introdução. Lá, Rifkin esmiúça o desemprego no mundo, fala da produção mais enxuta e da queda dos salários.Com mais de 17 livros publicados e traduzidos em pelo menos 20 idiomas,Rifkin é considerado um dos 150 pensadores que mais influenciam a política dos Estados Unidos.Em agosto de 2003 esteve no Brasil e em meados de setembro deste ano passou por Praga,na República Tcheca,para dar palestras e divulgar seu novo livro,O Sonho Europeu.A obra deve chegar por aqui em março de 2005.Rifkin falou por telefone com exclusividade para VOCÊ S/A.
O senhor se arrependeu de alguma das análises feitas na primeira edição de O Fim dos Empregos?
Na verdade, não.Minhas análises foram bastante conservadoras, porque quando escrevi a primeira versão do livro, em 1995, havia 800 milhões de pessoas desempregadas ou em subempregos. Hoje, esse número saltou para cerca de 1 bilhão de pessoas. É muito mais gente do que eu poderia imaginar.
O que mudou nos últimos anos?
Hoje, a flexibilização da jornada de trabalho no mundo é maior e a força de trabalho está ficando cada vez mais barata. A revolução trazida pelos computadores, pela biologia e pela nanotecnologia (a manipulação de átomos e moléculas) mostra que as empresas estão tecnologicamente melhores. Por isso fui conservador ao não considerar que tantos empregos seriam eliminados, principalmente na indústria. Os números apresentados na nova edição de O Fim dos Empregos apontam que 11% das vagas no mundo desaparecem a cada sete anos, pelo menos. Se o ritmo continuar assim, em 50 anos ou menos os empregos na linha de produção das indústrias serão eliminados.
Quem lê seu livro tem a impressão de que o senhor é muito pessimista.O senhor se considera um pessimista?
Não sou otimista nem pessimista. Quem é sempre otimista se decepciona o tempo todo. Já os pessimistas se sentem mal quando suas profecias não se realizam. Estamos diante de uma grande mudança na história que pode levar a humanidade ao renascimento dos empregos ou a um período de instabilidade econômico-social ainda maior. Se não criarmos novos caminhos e valores, poderemos virar máquinas e ser substituídos por elas. No Brasil, por exemplo, as pessoas trabalham duro durante anos. É muito triste ver esse pessoal trabalhando como máquina e tendo a produção como único valor. Luiz Inácio Lula da Silva prometeu uma nova era, a era da prosperidade. As pessoas têm de pensar o que podem fazer e o governo deve ajudá-las.
Por que tantos empregos estão migrando para a China e para a Índia? Os empregos relacionados a serviços, como os call centers, estão indo para Índia e as fábricas estão deslocando sua produção para a China. Mas essa transferência representa uma minúscula fatia dos empregos que foram eliminados. A maior parte das vagas sumiu por culpa da tecnologia empregada nas fábricas. Os políticos procuram um culpado pela redução dos empregos, mas eles nunca se envolveram em uma grande discussão sobre o tema.
Como o senhor vê a redução da jornada de trabalho?
A melhor solução para a criação de vagas no mundo é através da diminuição da jornada de trabalho. Afinal, as indústrias estão produzindo mais com menos gente. Agora, países europeus, principalmente os do leste, estão caminhando para isso. Estão reduzindo a jornada de 40 para 35 horas por semana. Há poucas empresas caminhando no sentido contrário. Se olharmos para a França, por exemplo, que adotou a redução da jornada há muito mais tempo, lá não houve demissões, mas criação de vagas no período. Isso significa que as novas regras não engessaram as empresas. Quando algum projeto exige mais tempo e dedicação, as pessoas trabalham mais horas por dia.
Mas já existem empresas na Alemanha que estão revendo esse esquema de trabalho.
Há poucas empresas que consideraram que a flexibilidade das horas não funciona. Então essas companhias voltaram a ter uma semana mais longa, o que não ajuda a criar empregos e ainda pode piorar o problema do desemprego.
Para onde o mercado de trabalho está caminhando?
Esse é o estágio final do sucesso do capitalismo, que começou com a revolução industrial, quando as pessoas trabalhavam pelo menos 70 horas por semana, de segunda a domingo,em péssimas condições. Agora, a produtividade está em crescimento, mesmo com menos vagas no mundo.As pessoas procuram maneiras alternativas para encontrar emprego.
E onde elas poderiam encontrar trabalho?
Até pouco tempo atrás, o governo era uma alternativa quando a iniciativa privada não oferecia vagas.Mas agora os governos também estão reduzindo as contratações. Dois setores nos quais as pessoas ainda encontram emprego é a economia informal e a criminalidade. A saída, portanto, é o terceiro setor, uma área que precisa de gente, não de computadores. Nos últimos dez anos, 40% de todos os empregos que surgiram na Europa vieram do terceiro setor.
Como as Organizações Não-Governamentais (ONGs) conseguirão pagar seus funcionários?
Metade do faturamento das ONGs vem de serviços que elas prestam. O governo de Lula poderia ajudar firmando a mesma parceria que outros governos brasileiros vinham fazendo com as empresas. Os governos, de um modo geral, sempre ajudam companhias que passam por momentos difíceis, e elas se recuperam e crescem. Agora, o governo tem uma segunda missão: criar créditos e subsídios para as sociedades civis e as ONGs gerarem novos empregos. Os pobres precisam de projetos realistas.
É mesmo possível fazer uma carreira ascendente e bem remunerada no terceiro setor?
Claro que sim. Qualquer sociedade civil ligada a artes, esportes ou problemas sociais pode oferecer boas oportunidades de carreira. O principal lugar onde as pessoas passam suas vidas é na comunidade. É lá que elas se divertem, se comunicam, se relacionam.Mas, para crescer no terceiro setor, é preciso se qualificar, como acontece com quem trabalha em empresas privadas.
Estamos mesmo vivendo a tal era do freelancer, do trabalhador autônomo?
Não. Há um discurso para criar a flexibilização do trabalho e isso significa ser explorado.Eu acho que os funcionários nunca tiveram de ser tão flexíveis e qualificados quanto hoje. Alguns trabalhadores sabem viver como freelancers, mas a maioria não gosta e não quer viver sem saber quanto vai receber no final do mês. As pessoas têm de ter a previsibilidade do salário para poder viver. Eu acho que seria melhor gastar tempo pensando em como criar empregos do que ficar discutindo se todos vamos virar autônomos daqui para frente.
as, se não há empregos, as pessoas terão de virar autônomas.
Isso seria inevitável, mas há o risco da informalidade. Grande parte dos trabalhadores brasileiros trabalha na informalidade. Não acho que essas pessoas queiram ser freelancers. Mesmo as empresas preferem ter uma força de trabalho qualificada, fixa, leal, engajada, com funcionários que fazem parte de sua dinâmica.
Que análise o senhor faz do mercado de trabalho brasileiro?
O Brasil sofre dos mesmos problemas estruturais, como o desemprego, que outros países, como os Estados Unidos e o Japão, enfrentam. A diferença é que o Brasil é um país muito jovem e bastante desigual, o que significa mais instabilidade e ainda mais pobreza.
O senhor acha que o Brasil encontrará uma saída para o desemprego?
Depende das políticas do governo, das empresas, dos sindicatos e da sociedade pensar no longo prazo. Essa é a hora de pensar em idéias concretas para o futuro. Os europeus estão pensando em algumas mudanças nas relações com os empregados. E vocês têm de pensar e propor alternativas.
O senhor acha que os sindicatos são realmente necessários neste novo contexto?
Sim, mas eles têm de fazer uma parceria com o governo e com a sociedade civil. Só assim se terá uma política do ganha-ganha. Eles têm de ser cooperativos — e a cooperação é o novo nome do jogo. Os Estados Unidos viveram um período de prosperidade econômica, com o equilíbrio entre empresas e trabalhadores. Os sindicatos devem se organizar globalmente, porque o capital já faz isso há bastante tempo.
Onde estão os empregos?
1 bilhão de pessoas estão desempregadas ou em subempregos no mundo
31 milhões de empregos desapareceram entre 1995 e 2002 nas 20 maiores economias
3 milhões de vagas sumiram nos EUA entre 2001 e 2003
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