Assine VOCÊ S/A
BUSCA AVANÇADA
VOCÊ NA REDE
COLUNISTAS
EVENTOS
TESTES
NEWSLETTER
QUEM SOMOS
FALE CONOSCO
ANUNCIE
 
 
 
Vanderlei sendo atacado na maratona das Olimpíadas 2004: Cornelius segura o brasileiro, que depois recebe ajuda de um espectador
Envie este artigo
Como superar as rasteiras

Todos estamos sujeitos a golpes na carreira e na vida, mas é preciso reagir. Levantar a cabeça e seguir como se nada tivesse acontecido

Por Eugenio Mussak

Quando pensamos que nada de novo vamos observar no comportamento das pessoas, aparece alguém e nos surpreende, para o bem ou para o mal. Você, caro leitor, já foi alguma vez prejudicado por alguém? Talvez um sócio que o enganou nos negócios? Ou, quiçá, um colega de trabalho que parecia tão amigo até que ambos disputaram a mesma promoção e o tal "amigo" jogou a amizade e a ética pela janela para sair-se melhor na disputa? Se a resposta for sim, saiba que você não foi o único.

Estamos falando do lado mesquinho do bicho homem, cujo egoísmo garantiu sua sobrevivência no início dos tempos e que hoje impede a criação de uma civilização harmônica e pacífica. Todos nós estamos sujeitos a levar rasteiras e temos de estar preparados, levantar a cabeça e continuar lutando, como se nada tivesse acontecido.

Foi o que aconteceu com Vanderlei Cordeiro de Lima na maratona das Olimpíadas 2004, em agosto. Cornelius, o irlandês amalucado, apareceu do nada para atacar quem estava na frente com o propósito retrógrado de impedir a glória do homem por seus próprios meios, como se isso fosse uma ofensa a Deus. Só que o dito highlander não contava com dois fatos: a imensa capacidade de superação do brasileiro e o gesto de solidariedade de Kossivas, o grego que, em um instante, passou de espectador a protagonista e ajudou a soltar Vanderlei. Resiliência e solidariedade, uma combinação poderosa para vencer a infâmia e a intolerância.


Uma história parecida
Veja que curioso: há 25 séculos, precisamente no ano 492 a.C., um outro amalucado, chamado Dario,
o déspota esclarecido (só massacrava quem ousava contrariá-lo), resolveu invadir a Grécia, começando por Atenas, a cidade-estado que praticava um estranho regime chamado "democracia". O persa Dario mandou 600 navios com 200 000 soldados pelo mar Egeu em direção à costa próxima à aldeia de Maratona. Os atenienses, alarmados, mobilizaram seu pequeno exército, mas, quando perceberam a inferioridade numérica e bélica, resolveram pedir ajuda a outras cidades.

A lógica era convocar Esparta, conhecida pela qualidade de seus guerreiros. E lá foi Filípedes (ou Feidípedes), o ateniense mais rápido, chamar os espartanos a pé, pois o rigor do terreno prejudicava os passos dos cavalos. Filípedes chegou a Esparta em dois dias. Detalhe: a distância era de 240 quilômetros. E tal esforço valeu a pena? Não, pois os espartanos estavam curtindo a festa religiosa de Ártemis e se negaram a pegar em armas em menos de uma semana. Ao corredor não restou saída, a não ser correr os 240 quilômetros de volta com a má notícia e engajar-se ao exército de 10 000 homens que Atenas mandava à costa para defender sua dignidade. Nessa empreitada, Atenas contou apenas com uma ajuda inesperada: a cidade de Platéia mandou mil soldados, todo o seu exército.

O resto da história é conhecido: o pequeno, mas motivado exército grego, usando a estratégica certa, logrou vencer os persas e colocá-los em retirada. E a Filípedes coube, por mérito e talento, correr os 42 quilômetros de volta e acalmar as mulheres de Atenas com a notícia da vitória. "Vencemos, Atenas está livre" foram suas últimas palavras antes da última traição, da fadiga extrema que lhe provocou a morte.

Não fosse a vitória grega na batalha de Maratona, o mundo não seria hoje o que é, pois o despotismo do imperador oriental teria escrito uma nova história para toda a humanidade. A Grécia, tendo Atenas como exemplo de respeito ao espírito livre, pôde continuar cultivando a filosofia, a democracia, as artes e as ciências, o que marcou o início do mundo ocidental livre, composto especialmente pela Europa.


E a competição do dia-a-dia?
Em seu conceito clássico, competir é "buscar a satisfação dos próprios interesses, independentemente do impacto disso sobre as outras partes em conflito". Partindo dessa definição, podemos concluir que o irlandês Cornelius nada mais fez do que competir com o brasileiro Vanderlei mesmo sem fazer parte da corrida. O que houve foi um conflito de interesses, um choque entre pessoas que buscavam atingir metas distintas.

E dentro das empresas pode acontecer coisa parecida? Às vezes sim. Empresas com administrações modernas usam expedientes de colaboração, como atrelar os bônus ao resultado geral da organização, entre outras práticas. Entretanto, ainda existem companhias que estimulam a concorrência entre seus executivos, pois partem do princípio que assim eles melhoram e se aprimoram, visando não apenas produzir mais e melhor que o outro, mas também merecer os bônus e os prêmios. A competição que deveria ser travada no campo de batalha do mercado acaba sendo transferida para dentro das empresas. Solo fértil para os Cornelius de plantão.

O que fazer diante de rasteiras inesperadas? Levantar a guarda e preparar o ataque? Desistir e tomar o caminho de casa? Não mesmo: pesquisas têm demonstrado que, nas empresas, o altruísmo ainda ganha do egoísmo. O egoísmo do irlandês reside no fato de que seu objetivo individual se opunha ao objetivo coletivo, do brasileiro e de todos os que desejavam o mesmo: enaltecer os ideais olímpicos da superação humana.

Acredite que sempre vai haver alguém rápido como Filípedes ou solidário como Kossivas colaborando com pessoas que, como Vanderlei, não desistem. São elas que chegam ao final sorrindo como se nada tivesse acontecido, dando uma lição aos tiranos e aos amalucados que sempre existiram e sempre existirão.

Eugênio Mussak é consultor de empresas, palestrante e colaborador da VOCÊ S/A