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Álvaro Sedlasek, do HSBC: prazer das compras no Mercado Municipal
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Curitiba para executivos

Como a chegada das multinacionais mudou o ritmo de vida da capital paranaense

Por Guilherme Gomes

Quem anda por Curitiba atualmente se depara com uma média de uma cafeteria a cada esquina. Umas mais sofisticadas, outras mais simples, elas já são 202 pela cidade. Há dez anos, eram apenas 18. Em 1994, a capital abrigava 541 restaurantes. De lá pra cá, a oferta mais que quintuplicou: hoje, há 2 811. Esses números dão uma amostra do salto qualitativo pelo qual o setor de serviços da gélida capital do Paraná passou nos últimos anos. O crescimento foi turbinado pela chegada de um novo perfil de morador, mais exigente e mais abastado. São os executivos -- muitos funcionários de multinacionais -- que chegaram a partir da década de 90, quando a região metropolitana passou a se firmar como pólo empresarial. Capacitados, donos de bons cargos e boa remuneração, esses profissionais de empresas como Renault, Crysler, Kraft Foods e Volvo criaram uma nova demanda na região. No conselho executivo do HSBC, por exemplo, estão 15 profissionais de fora; alguns de outros Estados e outros, estrangeiros. Na América Latina Logística (ALL), os oito cargos mais altos são ocupados por não-curitibanos. Esses profissionais colaboraram para dar uma nova dinâmica à cidade, que ocupa hoje o oitavo lugar entre as 100 melhores cidades para fazer carreira do país, segundo o ranking VOCÊ S/A-FGV.

O diretor de gente e relações corporativas da ALL, Pedro Roberto Almeida, de 49 anos, é um entusiasta da cidade. Quem escuta o baiano elogiando Curitiba pode achar exageradas as impressões desse profissional que já morou em Salvador e no Rio de Janeiro. Mas se Almeida vende muito bem a cidade, como ele mesmo diz, não é por acaso. "O nível de educação da população é muito bom. Encontrei o lugar ideal para o crescimento dos meus filhos", diz. "Também tenho um grupo fantástico de amigos, curitibanos e não-curitibanos." Além dos fatores conhecidos -- altos índices de escolaridade, a localização geográfica, como um interposto entre o Mercosul e a Região Sudeste, e um mercado consumidor ávido e relativamente pouco explorado --, a qualidade de vida sempre foi um diferencial de Curitiba, reconhecido em todo o país. A organização urbana, a limpeza das ruas e um certo clima provinciano, quase interiorano, que se pode encontrar não muito longe do centro, são alguns fatores que encantam gente acostumada ao caos urbanos. "Caminhar pelo centro de Curitiba é um dos meus grandes prazeres", diz Álvaro Sedlasek, diretor de qualidade do HSBC, que está na cidade há cinco anos.

Mesmo para quem vem de outro país, a cidade, calculada e projetada para crescer, é tida como especial. O diretor adjunto de operações do HSBC, o escocês David Duncan, de 48 anos, que passou um ano entre Belém do Pará e São Paulo antes de se fixar em Curitiba, considera a cidade como a melhor do Brasil para os expatriados europeus. "Tem boa infra-estrutura, belas paisagens, muitas áreas verdes. Tudo fica mais fácil assim", diz. "Em São Paulo, minha esposa tinha medo de dirigir. Aqui ela se desloca facilmente." O gerente de logística da Volvo, Sthepan Dkonick, de 42 anos, outro expatriado, completa: "O custo de vida é baixo e a cidade tem boas opções de lazer. Isso permite ter qualidade de vida acima da média".

Esses fatores foram fundamentais na hora de as empresas optarem por Curitiba. Foi assim com a Kraft Foods em 2000 no processo de escolha de seu escritório central. A empresa estava dividida entre a capital paranaense, a cidade de Bauru, em São Paulo, e Buenos Aires, na Argentina. Para ajudar na decisão, alguns funcionários passaram um fim de semana na capital paranaense. Isso bastou para que 128 dos 132 executivos selecionados optassem por Curitiba. Depois de instalados, no entanto, muitos perceberam que havia uma oferta reduzida de serviços. "Um ano depois de mudar para a cidade, comecei a sentir falta de algumas coisas", conta Sedlasek. Para ele, as poucas opções culturais e gastronômicas eram o ponto crítico. "As boas peças de teatro vinham para cá esporadicamente, quase sempre no festival de teatro, e lotavam sempre", conta. "O comum era a temporada passar de São Paulo a Porto Alegre pulando Curitiba." Duncan, diretor do HSBC, também diz ter se incomodado com a falta de opções. "Tudo fechava cedo. Depois de 22h30 era difícil encontrar algo aberto", diz. "No quesito restaurantes, só havia aqueles de cozinha italiana e mais nada."

A demanda desses executivos por novos serviços e opções de lazer provocou uma virada em Curitiba. Há dez anos, a cidade abrigava cerca de 1 031 estabelecimentos, entre hotéis, apart-hotéis, restaurantes e cafeterias. Hoje, são mais de 3 000. Resultado: o número de vagas no setor de serviços cresceu junto. Curitiba tem hoje uma das menores taxas de desemprego, de 8,4%, entre as regiões metropolitanas das capitais brasileiras.

A mudança, é claro, não traz só benesses para a cidade. A chegada das empresas aqueceu o mercado local. Muitos curitibanos arranjaram trabalho com a movimentação econômica da cidade. Muita gente que veio para Curitiba sem muita capacitação evoluiu na carreira. Mas obviamente a imigração inchou a cidade, a região metropolitana especialmente, que tem crescido, em média, 3,4% ao ano. O trânsito já garante dor de cabeça. Incômodo que até poucos anos atrás era desconhecido da população. Curitiba também passou a conviver de perto com a violência. "Ter um carro blindado, algo inimaginável para Curitiba há alguns anos, é uma possibilidade hoje", diz Sedlasek. De qualquer forma, boa parte dos executivos que chegou não pretende sair da cidade tão cedo.


Detalhes que encantam
Quando chegou em Curitiba há cinco anos,o diretor de qualidade do HSBC, Álvaro Sedlasek, de 37 anos, retomou um prazer que havia perdido em São Paulo.“Fui descobrindo Curitiba aos poucos, andando pelos bairros e pelo centro da cidade”, diz. Em suas caminhadas,o diretor percebeu um centro vivo e uma preocupação dos moradores em mantê-lo assim. “Em pequenas coisas, como trocar as flores dos canteiros regularmente e o fato de se respeitar as vagas para deficientes.Tudo isso me encantou muito.”No campo profissional, ele também vê com bons olhos o desenvolvimento da carreira na cidade.“Algumas carências de cursos foram supridas e, no geral, o estudante curitibano costuma se esforçar bastante”, diz.“Isso resulta num profissional que busca saber e aprender.”Hoje, Sedlasek já faz algumas críticas a Curitiba. Diz que o ritmo e a forma de crescimento urbanos o assustam.“Espero que não se repitam os erros de outros lugares.” Críticas à parte, ele sente ainda um grande prazer em morar na cidade.“As manhãs de sábado em Curitiba são especiais.O passeio para fazer compras no Mercado Municipal é um dos meus programas preferidos”, diz o executivo que também vê com alegria o fato de as três filhas, de 11, 9 e 7 anos, gostarem da cidade. “O Atlético Paranaense até ganhou uma nova torcedora”, diz Sedlasek, referindo-se à filha do meio,Mariana.


De dar inveja a europeu
O executivo belga Sthepan Dkonick, de 42 anos, está enfrentando um novo desafio pessoal e profissional. Ele acaba de assumir a direção industrial de uma unidade da Volvo na Polônia. Apesar do entusiasmo com a empreitada, não esconde certa tristeza. É que Dkonick teve de deixar Curitiba há cerca de dois meses. "Só posso dizer que vivi um período muito feliz aqui. Tivemos uma facilidade muito grande para fazer amigos", diz o ex-gerente de logística da Volvo. Para ele, além da tradicional cordialidade brasileira, pesou o fato de Curitiba ser uma cidade de fácil adaptação para os expatriados europeus. Em Curitiba, Dkonick diz que teve uma melhora acentuada na qualidade de vida. Ele conta que gosta muito de freqüentar sushi bares, por exemplo. "É um dos meus programas prediletos na cidade. Em Paris, esse tipo de coisa era para milionários; aqui em Curitiba sou freqüentador assíduo", explica, com a experiência de executivo em trânsito. Além do sushi bar, Dkonick se encantou pelo churrasco brasileiro. "Nos fins de semana, reuníamos os amigos para assar uma carne. Na Europa, fim de semana é reservado para limpar e arrumar a casa, porque não se tem tempo durante a semana."


Acupuntura urbana
O ex-governador do Paraná e ex-prefeito de Curitiba Jaime Lerner é, em grande parte, o responsável pelo jeitão cosmopolita que a cidade tem hoje. Em sua gestão, por exemplo, ele implantou um novo sistema de transporte público, tido como referência em todo o país, e inaugurou o espaço cultural NovoMuseu, assinado por Oscar Niemeyer. Hoje, no entanto, Lerner mudou de foco. Tem dado prioridade à sua carreira de arquiteto. Virou consultor. No ano passado, publicou a obra Acupuntura Urbana, em que relata experiências urbanísticas bem-sucedidas nas grandes cidades do mundo. Não faz planos para as próximas eleições estaduais em 2006 e, segundo ele, tem participado pouco da campanha das eleições municipais. Lerner continua, de qualquer forma, um defensor ferrenho de Curitiba. Orgulhoso, diz que em sua gestão seu papel na atração de investimentos se resumia em mostrar Curitiba aos executivos. A seguir, ele explica como isso era feito.

A transformação de Curitiba com a atração de novas empresas e profissionais foi planejada?
Nenhuma cidade pode atrair pessoas e empresas de fora se não tiver qualidade de vida para sua gente. É infantil achar que a atração dos investimentos é feita só por causa de incentivos. Os incentivos são iguais nos Estados. Quando começamos o projeto da Cidade Industrial de Curitiba (CIC) na década de 70, eu, pessoalmente, mandava cartas para as famílias dos executivos que estavam pensando em se instalar no Brasil. E dizia: 'Olha, você tem de ter alguma coisa a ver com o local onde vai morar. É uma decisão que envolve toda a família'. O que marcou essa grande mudança foram os avanços da qualidade de vida curitibana. A cidade tem um dos melhores sistemas de transporte coletivo do mundo, instalações de educação e saúde de excelente qualidade, atenção à criança, preocupação com o meio ambiente e lazer.

E como ocorreu o contato com as lideranças das empresas?
Tratei pessoalmente com esses profissionais. Uma questão fundamental era: quantas horas o curitibano perde por dia em trânsito em comparação ao que uma pessoa perde em São Paulo ou em outra cidade do país. Em Curitiba, ela perde três horas a menos por dia. Então, eu perguntava: 'Você quer perder sua vida atrás de um caminhão, no trânsito? Não? Então invista no Paraná'. Se houvesse ainda alguma dúvida, a decisão era tomada depois que a pessoa andava pela cidade, inclusive, de ônibus. Aí, eu sabia que a guerra estava ganha.

Com quais empresas "essa guerra" foi vitoriosa para Curitiba?
Com todas as grandes empresas que vieram para cá (HSBC, Kraft Foods, Renault, entre outras). São esses 20 bilhões de reais investidos no Paraná entre 1995 e 2000.

O crescimento com a chegada de novas empresas movimenta a cidade e gera empregos. Mas o aumento da população não acaba tendo um efeito negativo?
Tivemos o cuidado de fazer uma boa distribuição na Região Metropolitana e no Estado. O número de indústrias que se instalou no interior foi maior do que o da Região Metropolitana. Não queríamos sobrecarregar Curitiba. Dotamos os principais centros regionais do Estado com pólos profissionais.

Dizia-se que Curitiba era bonita, organizada, mas provinciana. Como o crescimento econômico mudou a cidade do ponto de vista da vida social?
Em Curitiba não havia boêmios, só gente que dormia tarde. Com essa movimentação toda, criou-se um espírito mais cosmopolita. Isso estimulou as atividades culturais. Hoje, você abre os jornais e encontra exposições, peças de teatro, shows, quase equivalente aos oferecidos no Rio de Janeiro e São Paulo. Temos até uma Academia de Cinema, uma das mais modernas do Brasil. Na área esportiva, Curitiba tem certa responsabilidade nessas conquistas olímpicas. Aqui, as equipes de vôlei, ciclismo e atletismo foram treinadas.

O senhor pensa em voltar a planejar uma cidade?
No momento, estou planejando muitas cidades, mas como arquiteto. Tenho trabalhado em cidades do México, estive em Seul para uma consultoria. Agora, vou para Honolulu, no Havaí.

Alguma cidade no Brasil?
No Brasil, tenho evitado. Não quero criar uma confusão entre o arquiteto e o político. Quando há uma relação profissional, ela tem de ser a mais desarmada possível.




Ontem e hoje
Confira os números de alguns dos serviços oferecidos em Curitiba hoje e há dez anos:
Ano
Restaurantes
Hotéis
Cafeterias
Apart-hotel
1994
541
467
18
5
2004
2 811
533
202
44

Retrato da cidade
A Grande Curitiba em números:
Habitantes 2,8 milhões
Pib R$ 18,2 bi
PIB per capita R$ 7 500
Escolaridade 44,8% com mais
de 11 anos de estudo
Área verde 55,5 m2 por habitante
Fonte: Censo IBGE 2000 e Prefeitura de Curitiba