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Rosana Silva observa o marido, Cleber, e o filho, Leonardo:
gastos com TV nova, carro novo e viagem de férias ficam para depois
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A última palavra é dela

Na casa da família Silva, é o marido quem gasta demais e as dívidas só crescem. A solução é entregar o orçamento para Rosana cuidar

Por Lilian Cunha

Os paulistanos Rosana de Jesus Silva e Cleber Roberto Silva são um casal atípico. Cleber, de 28 anos, é analista financeiro terceirizado de uma multinacional e Rosana, três anos mais nova, gerente de um banco estatal. Ela ganha mais que o marido. E, dos dois, o mais gastador é Cleber, que adora um cartão de crédito. "Ele não tem controle, é muito impulsivo. Sou mais controlada, gosto de planejar e pesquisar antes de comprar", diz Rosana. Em comum, além de muito amor, o casal tem um filho, Leonardo, de 6 anos, e um grande saldo devedor. Estão negativos no cheque especial e no cartão. Têm empréstimos a pagar e uma dívida de 10 500 reais com a faculdade de Cleber. "Mas o caso tem solução", garante Luís Carlos Ewald, professor de economia da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro e autor do livro Sobrou Dinheiro!: Lições de Economia Doméstica (editora Bertrand Brasil). "A austeridade de Rosana e algum dinheiro que o casal tem a receber irão ajudar a família a tirar o pé da lama", diz o consultor.

A história do saldo negativo dos dois começou há seis anos, quando se casaram às pressas porque Rosana ficou grávida. "Naquele mesmo período, eu havia entrado na faculdade e fui demitido", recorda Cleber. Com a ajuda da família, os dois conseguiram contornar a situação. E, como logo após o nascimento do bebê Rosana foi admitida pelo banco onde trabalha (hoje com salário de 2 300 reais, mais benefícios), os dias tornaram-se mais brandos. Ordem no orçamento doméstico, entretanto, o casal nunca teve. "Sempre estivemos com alguma pendência", lembra a bancária.

No começo deste ano, porém, as coisas pioraram. Cleber, que em dezembro terminou a faculdade de administração de empresas, teve de arcar com as despesas da formatura. Rosana passou no vestibular, também para administração. Aí vieram a matrícula, as mensalidades, os livros... e o carro quebrou. Leonardo ficou doente e, por causa do convênio que não cobre os remédios, a conta da farmácia estourou. Como os Silva não tinham -- e continuam sem -- uma poupança para emergência, recorreram a empréstimo bancário, ao cartão de crédito e ao cheque especial. Resultado: mais 10 846 reais na lista de dívidas de Cleber e Rosana.

Fora isso, o casal tem um gasto mensal de 3 961 reais, incluindo as mensalidades da escola de Leonardo e da faculdade de Rosana. "Até dezembro, a escola me dá um desconto de 30%, senão pagaria 808 reais", diz Rosana. O banco onde ela trabalha poderia financiar 60% das prestações se obtivesse boa avaliação de desempenho. "Por três pontos não consegui. Mas haverá uma nova avaliação e tenho chances."

Ataque às dívidas
Nem tudo está perdido. O casal tem dinheiro a receber, além da renda líquida mensal conjunta de 4 050 reais. Em setembro, eles venderam um terreno e receberão 12 parcelas de 853 reais a partir deste mês. Em novembro, Rosana espera receber 900 reais de restituição do imposto de renda. Antes, ganhará 2 200 reais como participação nos lucros da empresa. Em dezembro, virão os 1 430 reais de 13o salário (parte dele os dois já receberam em julho -- e gastaram).

Ewald diz que a recuperação financeira depende de uma postura severa. "Rosana deve tomar as rédeas da situação. Ir ao supermercado com Cleber, por exemplo, nem pensar", diz. Eles devem evitar gastar a renda extra e não criar dívidas. A regra é simples: "Não tem dinheiro? Não compre", afirma o economista, lembrando que a família deve controlar a euforia natalina.

A primeira pendência a ser atacada, segundo Ewald, é o cheque especial. Para isso, marido e mulher devem usar a primeira parcela do pagamento do terreno e a participação nos lucros de Rosana. Em seguida, vêm os empréstimos bancários, que serão amortizados com as prestações do imóvel vendido. "Os juros devem ser descontados das parcelas pagas com antecedência", diz o consultor.

Para a dívida do cartão de crédito e da faculdade, Ewald recomenda uma estratégia que pode parecer radical: não pagar e ter paciência para negociar. "Antes que os credores batam à sua porta, procure-os para negociar. Diga que quer resolver a questão, mas que está em má situação e não aceite nenhum acordo enquanto todos os juros não forem descontados", aconselha. Parece difícil? O professor garante que essa é uma tática possível. "O credor quer é receber a dívida e não os juros."

Previdência é uma boa
Uma medida para acelerar o saneamento das dívidas é a bolsa para a faculdade que o banco de Rosana oferece. Os Silva também devem estar atentos na hora de escolher uma nova escola para Leonardo, já que no ano que vem ele deixa a pré-escola para iniciar o Ensino Básico. "Além da mensalidade, eles devem levar em conta o gasto com transporte. O valor atual, de 35 reais, é uma quantia aceitável."

Quanto ao desejo de ter uma poupança, Ewald diz que Rosana e Cleber estão com a faca e o queijo na mão, pois ela pode investir no fundo de pensão do banco onde trabalha. Por meio dele, ela contribuiria com 7% do salário bruto, algo em torno de 190 reais. A instituição financeira entraria com a mesma quantia todo mês. "Nenhuma outra aplicação rende 100% ao mês", diz Ewald, acrescentando que a previdência é uma poupança compulsória, descontada em folha.

Os planos
Rosana e Cleber pretendem ter um segundo filho somente depois que ela se formar, o que na opinião do economista é louvável. Os dois moram em um apartamento de dois quartos em Jandira, na Grande São Paulo. O imóvel é financiado por um sistema chamado PAR, da Caixa Econômica Federal, que funciona como uma espécie de leasing. Só que o casal não pode vender o apartamento, quitar nem antecipar parcelas. Já pagaram 14 meses da dívida, restando 166. Segundo o casal, é possível fazer um contrato de gaveta e passar o apartamento para outra pessoa. "Vizinhos fizeram isso", diz Cleber, que gostaria de mudar para uma casa. Ewald desaconselha o negócio e diz que não vale a pena sair de um financiamento tão bom, com baixa correção e valor de prestação. O sonho de uma casa maior deve ficar para quando o casal estiver com as finanças mais bem estruturadas e com uma renda melhor. "Eles são jovens e com certeza irão progredir em pouco tempo", prevê Ewald.

Outros sonhos que devem ser adiados é o carro novo e a viagem de férias. "Parece duro dar esse tipo de conselho, mas o casal tem de ter como meta a quitação de todos os papagaios." Alguns outros planos, como colocar Leandro numa academia de natação e as aulas de inglês que Cleber gostaria de fazer, são investimentos recomendados que não prejudicarão as contas da família. "Cleber é formado e se tiver inglês fluente terá chances de progredir na carreira e ganhar mais", explica Ewald.

Economia no dia-a-dia
Os Silva não têm hábitos caros. Gostam de fazer churrasco de vez em quando e de passar os fins de semana em casa, assistindo a filmes. Cleber faz jiu-jítsu duas vezes por semana, o que, segundo Ewald, é um gasto bom porque ajuda a aliviar o estresse. Também vão ao supermercado uma vez por mês, onde gastam o vale de 450 reais que Rosana recebe. No decorrer das semanas, complementam os gastos com açougue e padaria. Essa quantia, no entanto, poderia ser poupada se a esposa (sem o marido, lembre-se!) fosse ao mercado uma vez por semana, e ali também comprasse a carne e os pães, já que os preços são melhores. "Com uma lista de compras, ela desfrutaria das ofertas que os mercados sempre fazem", diz o consultor. Essa prática gera uma economia de 20% e libera algum dinheiro para outras despesas. Com medidas simples, e Rosana no comando, a família colocará a vida em ordem.

PATRIMÔNIO
Ativos e passivos do casal — em reais
ATIVOS
Carro
2 000
Terreno vendido
10 236
Total de ativos
12 236
PASSIVOS
Financiamento de imóvel
27 772
Empréstimos
3 151
Cheque especial
3 100
Cartão de crédito
4 595
Dívida com faculdade
10 500
Total de passivos
49 118
Patrimônio líquido
- 36 882

ORÇAMENTO
A situação financeira do casal — em reais
RECEITA
Salário líquido do casal
3 600
Vale-supermercado
450
Total
4 050
DESPESAS
Educação
675
Transporte
285
Academia
63
Farmácia
70
Financiamento de imóvel
167
Condomínio
65
Luz
70
Gás
6
Telefone
55
Celular
150
Aluguel de vídeo
30
Empregada doméstica
250
Supermercado
600
Açougue/padaria
80
Taxas bancárias
60
Vestuário
100
Despesas pessoais
50
Crediários
609
Pagamento de empréstimos parcelados
576
Total
3 961
Superávit mensal
89