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Eles deixaram sua marca
Os vencedores do prêmio A MARCA VOCÊ S/A 2004 encontraram sentido para o trabalho
Por José Eduardo costa
Encontrar pessoas comuns com histórias extraordinárias não é uma tarefa fácil. O brasileiro tende a subestimar seus feitos. Como bem observou certa vez o professor da Universidade de São Paulo (USP) Stephen Kanitz: "Os brasileiros acreditam piamente que nunca darão certo. Os americanos, por outro lado, acham-se o máximo, o centro do mundo. Os argentinos, então, são impecáveis". As cinco histórias que aparecem nas próximas páginas contrariam esse postulado. Em comum, o designer Allysson Lucca, o empresário Brasilino Brunel e sua esposa Tina, o biólogo Cláudio Padua, a analista de qualidade Renata Ventura e a médica Silvia Araújo têm o fato de ter encontrado um sentido especial para o trabalho. E por isso são os vencedores da edição 2004 do prêmio A MARCA VOCÊ S/A. Este ano, 179 profissionais inscreveram suas histórias ante 150, em 2003. São Paulo é o Estado que teve o maior número de inscritos, com 60 histórias. Apenas os Estados do Acre, Alagoas, Amapá, Piauí e Roraima não registraram candidatos. Duas inscrições vieram de países estrangeiros. Uma de Luanda, na África, e outra da Itália. Os homens são a maioria, com 57% dos casos enviados. Das 179 histórias, 40 foram pré-selecionadas e submetidas à avaliação de um júri formado por cinco profissionais reconhecidos em suas respectivas áreas de atuação (veja quadro ao lado). Os critérios que balizaram a seleção foram a relevância das realizações, o impacto da ação na vida pessoal e/ou de terceiros, a capacidade de assumir responsabilidades e liderar, e ainda a inovação do projeto ou história apresentada. Inspire-se a seguir nos cincos profissionais que tomaram as rédeas da situação e encontraram uma razão especial para crescer e se desenvolver.
CONHEÇA OS JURADOS
JAIR PIANUCCI
Diretor de recursos humanos da Hewlett Packard do Brasil, é responsável pelo desenvolvimento e gerenciamento de pessoal da HP há 14 anos
JOSÉ FERNANDO PEREZ
Diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). É professor titular da Universidade de São Paulo
OZIRES SILVA
Presidente da Pele Nova Biotecnologia. Engenheiro pelo Instituto de Tecnologia de Aeronáutica. Foi fundador e presidente da Embraer
CLAUDIO LINS DE VASCONCELOS
Gerente jurídico da Fundação Roberto Marinho, é mestre em Direito Internacional pela Universidade de Notredame, nos Estados Unidos
LUÍS ALBERTO PIEMONTE
Presidente da IDS Scheer no Brasil. Piemonte conhece bem os fatores humanos e culturais envolvidos nas reformulações organizacionais Paity
DESCUBRA SUA FORÇA PESSOAL
Veja quatro dicas do psicólogo americano Martin Seligman
para construir sua marca pessoal:
* Identifique suas forças (competências) pessoais.
* Escolha um trabalho que lhe permita utilizá-las todos os dias.
* Recrie seu trabalho atual de modo a utilizar mais suas forças pessoais.
* Se você é um gerente, ofereça condições para que os funcionários recriem o trabalho dentro dos limites de suas metas.
Sucesso em terra estrangeira
Allysson Lucca
Designer, produz documentários para internet em Milão (Itália)
Aos 29 anos, o paranaense Allysson Lucca conquistou uma carreira e padrão de vida de causar inveja a muita gente.
É dono do próprio negócio, trabalha em seu escritório em casa e, no final, ganha em euro e dólar. Sem mencionar o fato de poder gozar de todos esses benefícios vivendo num país como a Itália, que combina qualidade de vida européia com cultura efervescente. Allysson é uma espécie de remanescente do período da bolha da internet. Formado em desenho industrial, teve a primeira experiência profissional em uma grande empresa, em Curitiba. Mas não estava satisfeito. Sabia que podia ir além. "Eu tinha o grande sonho de trabalhar fora do Brasil", diz. Aproveitando a dupla cidadania, em 1998 pediu demissão, vendeu o carro, reuniu as economias e foi para a Itália. O começo foi desgastante. "Liguei para mais de cem empresas. Tive resposta de oito. Mas a minha felicidade acabava quando ouvia do entrevistador: 'Estava apenas curioso para ver o trabalho de um brasileiro'." Como não arrumava nada, teve de fazer ilustrações para uma agência de publicidade em troca de alguns euros. Veio, então, a onda da internet. "Aproveitei e comecei a trabalhar por conta própria com filmes para a web." Seu primeiro projeto, chamado A Terra em Miniatura, um documentário online que fala sobre as desigualdades sociais no mundo, teve milhões de acessos nos primeiros meses. Logo, seus vídeos eram recomendados em publicações do Japão e jornais americanos. Hoje seus trabalhos podem ser vistos nos sites da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da Universidade de Parma e da Organização das Nações Unidas (ONU), alguns dos seus principais clientes. "Agora o desafio é conseguir dar solidez para meu negócio. Tenho grandes clientes, estou fechando novas propostas, mas ainda falta estrutura."
"Estamos usando a internet para mostrar que existe um mundo doente que pode ser melhorado"
Allysson Lucca, sobre os filmes que produz
Casamento Lucrativo
Brasilino Brunel Alves
Empresário em Capivari de Baixo (SC)
Deixar a estabilidade do setor público para abrir uma confecção de roupas de couro - sem conhecer a área - é, de certa forma, um passo arriscado. Mas as incertezas não impediram que o casal catarinense Brasilino, de 52 anos,
e Tina Brunel, de 50 anos, fosse atrás do seu sonho. Com o incentivo do plano de demissão voluntária no início do governo Collor, a contadora Tina deixou o emprego numa estatal de energia elétrica e com o dinheiro o casal investiu 11 000 cruzeiros no próprio negócio. "Tivemos de aprender do zero. Apostamos no couro porque é um produto nobre e que nunca sai de moda", diz o engenheiro Brasilino. Depois de dois anos, ele também pediu demissão da prefeitura de Tubarão e se juntou à mulher na confecção, então uma pequena fábrica com meia dúzia de máquinas e costureiras. O empreendimento patinou nos cinco primeiros anos. "Trabalhávamos para pagar as dívidas. Para dar conta dos pedidos, muitas vezes, eu amanhecia em cima da máquina de costura", conta Tina.
A grande virada veio quando eles começaram a expor seus produtos em grandes feiras. Vendiam jaquetas de couro - carro-chefe do negócio - mesmo nos meses mais quentes. A fábrica começou a funcionar o ano inteiro. De um antigo casarão, passaram a ocupar um galpão de 550 metros quadrados. Atualmente, são cem funcionários trabalhando em dois turnos. No início, a produção média era de cinco jaquetas por dia, hoje são 300. As oito lojas da confecção Tina Brunelli respondem por um faturamento anual de 10 milhões de reais. Para evitar brigas, o casal divide as funções na empresa. Tina cuida da produção e criação dos produtos. Brasilino coordena o administrativo e a implantação de novas tecnologias.
"É gratificante ver que sobrevivemos. Hoje damos emprego e renda para muita gente"
Brasilino Brunel, falando dos primeiros anos de sua empresa
O mico que deu certo
Cláudio Padua
Biólogo, fundador do Instituto de Pesquisas Ecológicas,
em Nazaré Paulista (SP)
O carioca Cláudio Valadares Padua, de 56 anos, nasceu em berço de ouro. Neto de políticos mineiros, passava as férias na fazenda da família. Sonhava ser um executivo de sucesso. Formou-se em administração de empresas e em dez anos ocupou um cargo executivo numa empresa da indústria farmacêutica. Casou e teve três filhos. A família mantinha uma vida de classe média alta no Rio de Janeiro. Só havia um porém: "Eu não era feliz", diz. Aos 30 anos, Cláudio jogou tudo para o alto e foi buscar oportunidades na área
de preservação do meio ambiente. Tentou emprego até no zoológico de São Paulo, mas não deu certo. Na época, sua mulher teve duas reações. A primeira foi pedir o divórcio e a segunda, mandá-lo consultar um psiquiatra. Em pouco tempo, estava falido. Chegou a ter a energia elétrica
de casa cortada. "Ninguém acreditava em mim." Ele então voltou para a faculdade para estudar biologia. O casal vivia graças ao emprego da mulher e com uns bicos que ele fazia como administrador. Depois de formado, em 1983, foi trabalhar como técnico de um centro de estudos de primatas. Lá estudou o mico-leão-preto, espécie da Mata Atlântica. O animal foi tema de mestrado e doutorado defendidos por ele na Universidade da Flórida, nos Estados Unidos. Quando voltou ao Brasil, Cláudio foi dar aula na Universidade de Brasília. Mas não abandonou a paixão pelo mico-leão-preto. Em 1992, fundou o Instituto de Pesquisas Ecológicas, ONG com sede em Nazaré Paulista, interior paulista, que luta pela preservação de espécies em extinção. A entidade conta com 60 colaboradores, parte deles mestres e doutores. Tem reconhecimento público e acadêmico. Hoje, a mulher, Suzana, preside o instituto do qual Cláudio é diretor científico.
"O próximo passo é inaugurar cursos de mestrado e doutorado"
Cláudio Padua, ao anunciar que pretende montar até 2006
programas para passar adiante a experiência da ONG
Sem medo de errar
Renata Ventura
Analista de qualidade na Intelig Telecom, no Rio de Janeiro (RJ)
A carioca Renata Ventura, de 28 anos, é o tipo de funcionária inquieta, que todo empregador quer ter por perto. Há quatro anos, ela começou a trabalhar como operadora de telemarketing na Intelig Telecom. Depois de sete meses, o gerente de sua área sugeriu seu nome para participar de um processo seletivo para a área de qualidade - responsável pelo treinamento e desenvolvimento
de pessoal. Havia 49 inscritos. Renata foi a escolhida e, portanto, promovida - seu salário chegou a quadruplicar.
O maior desafio da jovem era reverter o alto grau de desmotivação dos funcionários e colocar o departamento de qualidade no eixo. Ou seja, apagar a imagem negativa que a área tinha perante o restante dos times.
O pessoal da qualidade, área da qual Renata passou a fazer parte, era considerado excessivamente crítico e passivo em relação à apresentação de soluções. Renata desenvolveu, então, uma série de programas para estreitar a comunicação entre as diversas áreas da empresa. Sugeriu a criação de uma "sala de descompressão", com mesas de leitura, computador com acesso à internet, sala de música e TV, e até um local para dormir. Passou a organizar excursões a espetáculos de teatro e de dança, com direito a visita guiada ao Teatro Municipal, para os funcionários com boa avaliação de desempenho. "É muito gratificante saber que hoje as pessoas confiam em meus projetos. E vêem a qualidade como parceira no treinamento e desenvolvimento profissionais."
"É muito bom ver que as pessoas reconhecem o meu esforço e percebem que o clima da empresa mudou"
Renata Ventura, comentando os resultados das mudanças implementadas por ela
O anjo do hospital
Silvia Araújo
Médica no Rio de Janeiro (RJ)
Há quatro anos, a médica Silvia Helena de Araújo, de 40 anos, foi chamada para fazer uma avaliação do Hospital da Polícia Civil José da Costa Moreira (HPC). Localizado no centro do Rio de Janeiro, o hospital estava à beira de encerrar as atividades. Para ter uma idéia, a equipe realizava apenas cinco atendimentos por dia. O golpe de misericórdia foi dado em 1996, quando o delegado Hélio Luz, então chefe de Polícia Civil, remanejou os policiais médicos e enfermeiros que faziam parte do quadro de saúde do hospital para outras atividades. Sobraram apenas
23 funcionários. Para piorar, no mesmo prédio do hospital funcionavam duas delegacias. "Não era possível chamar aquilo de hospital", lembra Silvia. Feito o diagnóstico, a carioca foi convidada a assumir a diretoria do centro médico. Silvia decidiu aceitar o desafio. O primeiro passo foi fazer uma pesquisa com os próprios clientes. O levantamento ouviu 533 policiais de 35 delegacias do Estado do Rio de Janeiro. As principais reivindicações eram por profissionais qualificados, rapidez no atendimento e melhora nas condições de higiene. Silvia reuniu também os funcionários do hospital. "Queria saber o que poderia ser feito para melhorar as condições de trabalho", conta. Os que não se alinharam à nova proposta foram remanejados para outro centro médico. E, assim, colocou a mão na massa.
As consultas passaram a ser agendadas por telefone. Os problemas imediatos de falta de pessoal foram solucionados com a realização de um concurso público. Atualmente, o hospital conta com farmácia, laboratório, dá atendimento
em domicílio e atua em mais de 40 especialidades. O atendimento foi estendido para os dependentes dos policiais, pensionistas e funcionários do Detran do Rio de Janeiro. Hoje, passam diariamente pelo HPC 200 pessoas.
"Quero fazer do hospital um modelo de atendimento em saúde pública"
Silvia Araújo, explicando quais são os planos para o futuro do HPC
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