
Ficar livre completamente do pagamento de juros é essencial para quem sente que está perdendo o controle dos gastos pessoais e quer trocar as dívidas por investimentos. E é também a primeira providência de uma lista de cuidados recomendada pelos especialistas para quem pretende conseguir uma economia de 3 000 em seis meses. Parece difícil, mas não é. Os analistas garantem que as despesas com encargos de cheque especial e cartão de crédito são os principais vilões de uma economia pessoal e familiar saudável. Não é à toa.
Em junho, o juro médio do cheque especial foi de 8,73% ao mês, de acordo com levantamento do Procon de São Paulo com dez bancos. Os cartões de crédito cobravam cerca de 11% ao mês. O empréstimo pessoal tinha taxa menor de juros, de 5,61%, em média. Ainda assim essas taxas são bem altas quando comparadas à taxa básica de juros da economia, que serve de referência para todas as operações financeiras e está em 13% ao ano, ou quando comparadas ao rendimento da poupança, que fica em aproximadamente 0,5% ao mês.

Um débito médio de 1 000 reais ao mês no cheque especial custa mensalmente 87,30 reais só com o pagamento de juros. Em seis meses são 523,80 reais. As dicas dos especialistas para economizar 3 000 reais em um semestre não se resumem ao controle dos gastos com juros. Além de prestar atenção nos pequenos gastos do dia-a-dia, é necessário cortar as despesas
supérfl uas. Também é recomendável controlar com mais critério os gastos feitos nas horas de lazer. Os sacrifícios não são grandes e a recompensa é signifi cativa. Segundo Caio Torralvo, consultor e professor auxiliar de fi nanças da Fundação Instituto de Administração (FIA), um depósito de 3 000 reais a cada seis meses na caderneta de poupança transforma-se em 63 000 em dez anos.
Um valor que pode ser usado para dar entrada na casa própria, por exemplo. Um gasto comum, mas que muitas vezes pode ser considerado supérfl uo, na vida de quem mora em grandes cidades é o uso de táxi, segundo os especialistas em fi nanças pessoais. Uma corrida média consome pelo menos 30 reais. Ou seja, são 60 reais em um dia se o táxi estiver sendo usado para ir e voltar do trabalho. “Para tentar economizar de um jeito racional, compare quanto você gasta com coisas que podem ser consideradas desnecessárias com quanto você ganha por um dia de trabalho”, diz Walter Franco, professor de fi nanças pessoais da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid). Se você recebe 5 000 reais por mês, divida esse valor por 30, que é o total de dias trabalhados referentes ao seu salário mensal. O resultado, 166 reais, dá uma idéia de quantos dias de trabalho serão necessários para você comprar uma calça, camisa ou aquele sapato de salto alto que nunca vai sair do armário. Controlar os gastos com lazer — sem sacrifícios e sem deixar de fazer o que gosta — também é importante para ter uma reserva fi nanceira e poder ter mais grana para fazer investimentos fi nanceiros.
Nas grandes capitais, uma noite de curtição, sem limite para o consumo de bebidas, pode facilmente ultrapassar os 100 reais. A mesma quantia fi ca em uma mesa de restaurante, em um jantar para dois. Se a refeição for completa, com entrada, prato principal, sobremesa e vinho para acompanhar o jantar, a conta será ainda mais alta. Se antes do jantar houver um cinema ou uma peça de teatro, você desembolsa por volta de 200 reais. Falando em alimentação, um hábito diário de muitos brasileiros, que é tomar café da manhã na padaria, pode ser tão caro ao fi - nal de seis meses que já é considerado um luxo. Faça as contas. São cerca de 5 reais por dia por um café com leite e pão com manteiga, que somam 150 reais ao mês e 900 reais em seis meses.
pessoa avalie se aquele gasto é necessário, se vai realmente garantir momentos de prazer ou se por trás da despesa está uma busca por auto-afi rmação”, diz Walter. Nesse caso, é melhor pensar duas vezes antes de fazer uma compra, porque contrair um fi nanciamento só para trocar um celular ou um televisor que estão funcionando bem por outros modelos mais novos pode até caber no seu orçamento, mas não será um bom negócio. “Você vai perder dinheiro e, do ponto de vista fi nanceiro, é sempre melhor pagar à vista”, diz Walter.
CORTOU A BALADA E JUNTOU 10.000 EM UM ANO

Em 2002, com 24 anos, Thiago Moherdaui já tinha um bom emprego e um salário que pagava todas as suas despesas e seus caprichos. Ele só colocava dinheiro em uma aplicação fi nanceira se depois de toda a diversão sobrassem alguns trocados. Thiago gastava 1 000 reais por mês em jantares fora de casa e 600 reais por semana em baladas. A farra não durou muito. Consciente de que precisava planejar o seu futuro desde cedo, Thiago resolveu controlar seus gastos e a fazer uma poupança. “Fiz uma planilha com gastos fi xos e na lista de obrigatoriedades inclui o valor para as aplicações fi nanceiras.
Passei a gastar com lazer só o que sobrava, depois de ter feito meus investimentos”, diz. O dinheiro que ia para a renda fi xa saía direto do salário. Thiago demorou para acostumar-se com a mudança, mas houve compensações. Um ano depois já tinha economizado 10 000 reais. Hoje, aos 30 anos, ele é gerente de performance e desenvolvimento de negócios da Ticket, em São Paulo, tem imóvel próprio e estabilidade fi nanceira. A dica dele para usar cartão de crédito é evitar o parcelamento e o crédito rotativo. Thiago tem dois cartões com vencimentos próximos às duas datas de seu pagamento. Agora, suas economias estão divididas em dois tipos de aplicação fi nanceira: 50% em um fundo de renda fi xa e os outros 50% em um clube de investimentos em ações.

MOMENTO PARA DIVERSIFICAR
Se os 3 000 economizados em seis meses podem transformar-se em 63 000 em dez anos quando são aplicados na poupança, que tem uma das menores taxas de remuneração do mercado fi nanceiro, como calculou o consultor Caio, você pode ter um valor ainda maior no seu bolso se diversificar suas aplicações.
“Para compor um portfólio, consideramos cada vez menos a quantia inicial da aplicação, pois há produtos fi nanceiros para todos os valores. Ficou mais importante conhecer o perfi l do investidor e o destino que será dado ao dinheiro”, diz Aquiles Mosca, estrategista de investimentos pessoais do Banco Real Asset Management, de São Paulo. Na instituição, é possível investir em um fundo de ações com apenas 100 reais. Ainda assim, Aquiles recomenda a quem quer começar a investir em ações fazer um pequeno teste. “Destine 10% de suas aplicações para um fundo de ações e permaneça nele por um período entre 12 e 18 meses. Se ao fi nal desse tempo você concluir que está confortável com a renda variável, aumente o percentual para 20% e adote a bolsa de valores como uma das suas aplicações fi nanceiras. Caso contrário, se você fi cou noites sem dormir com o sobe-e-desce das ações, o ideal é reduzir a participação do seu investimento na bolsa para 5%, ou até mesmo abandonar esse mercado”, diz Aquiles. Para quem conseguiu juntar 3 000 reais em um semestre e procura rentabilidade superior à do Certificado de Depósito Interfi - nanceiro (CDI), mas com risco menor que o da bolsa de valores, uma alternativa são os fundos multimercado.
Esse tipo de fundo é composto por títulos públicos e Certificado de Depósito Bancário (CDB), mas também inclue ações e até derivativos. A rentabilidade dos multimercados pode ser bastante volátil, principalmente em momentos em que o cenário macroeconômico é de incertezas. Mas os especialistas garantem que, para aplicações fi nanceiras de médio e longo prazos, os fundos multimercado tendem a ser uma opção vantajosa. No acumulado deste ano até o fi - nal de junho, os fundos multimercado renderam, em média, entre 80% e 90% do CDI. Ou seja, ainda em um momento ruim e volátil da economia, eles acompanharam de perto a renda fi xa e os CDBs. Independentemente da opção de investimento que você escolher, o importante é consumir com consciência e não deixar nunca de poupar.

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