
Entrar na Deloitte não é fácil. Entre as grandes auditorias, ela é a que mais emprega gente no Brasil: 3 500 pessoas. Mas vale o investimento na carreira. Os profissionais formados por ela e suas irmãs — KPMG, PricewaterhouseCoopers e Ernst & Young (as Big Four, como são chamadas as quatro maiores firmas de auditoria do mundo) — andam supervalorizados pelo mercado.
Isso se deve ao maior número de empresas abrindo capital e às regras de governança corporativa, que vêm sendo adotadas por um número crescente de organizações. Não é só o salário que conta. Afinal, é um investimento de longo prazo. Um gerente ganha entre 6 000 e 8 000 reais, enquanto em outras multinacionais o valor chega a 15 000, sem falar dos bônus.
O que atrai 30 000 candidatos por ano para seu programa de trainees e faz brilhar os olhos do departamento financeiro de outras companhias, ao avistar um profissional vindo das Big Four, é a formação que recebem em seu dia-a-dia. “As grandes auditorias são excelentes celeiros de formação profissional, em que o funcionário vai sendo treinado para enfrentar cada passo da carreira”, diz o professor Nelson Carvalho, diretor de pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), de São Paulo. “Além disso, é uma carreira que não permite estagnação. Ou você é promovido ou está na rua”, diz Nelson. De fato, a rotatividade desse mercado é alta, entre 15% e 20%.
Na indústria petroquímica, por exemplo, esse número fica em torno de 8%. Entre os fatores que levam os auditores a deixarem as empresas estão baixa remuneração e a elevada carga de trabalho. Por outro, a alta rotatividade é um indicador de que a procura por gente que é formada em uma empresa como a Deloitte é alta. “É um profissional de ótimo nível técnico, muito ligado ao que está acontecendo e extremamente preparado”, diz Fernando Mantovani, diretor da Robert Half, empresa de busca de executivos com sede em São Paulo.
O melhor que os profissionais que passam por essa peneira ganham é uma parte do bolo de vários milhões de reais investidos anualmente em treinamento. Nos últimos 12 meses foram 35 milhões de reais, valor que está crescendo por causa do preparo para lidar com a nova legislação contábil brasileira, em vigor desde o início do ano. “O volume de treinamento aumentou quase 50%”, diz Cláudia Bronzoni, gerente de recursos humanos da Deloitte. “Neste ano, cada executivo da empresa, inclusive os sócios, vai passar pelo menos 100 horas em sala de aula.”
DISPOSIÇÃO E PLANEJAMENTO
Os auditores passam a maior parte do tempo dentro das empresas auditadas, têm contato com os funcionários do alto escalão e conhecem a fundo as finanças da cliente. Cada um tem direito a um conselheiro à sua disposição, que o ajuda a fazer o planejamento de carreira. Os profissionais, na temporada de fechamento de balanços — entre janeiro e abril —, chegam a pular de um cliente para outro em menos de uma semana (e a carga de trabalho passa de 15 horas diárias). A empresa atrela 15% do bônus dos seus gestores ao número de horas dedicadas à educação, recrutamento e avaliação de desempenho.
A Deloitte também envia todo ano 23 gerentes para trabalhar por um período de 18 a 24 meses em seus escritórios espalhados por 140 países. “Conta desenvolver a capacidade de liderança, bom relacionamento com o mercado e conhecimento do negócio”, diz Luís Maluf, de 36 anos, recém-promovido a gerente sênior da Deloitte, em São Paulo.
Ao assumir o cargo gerencial, o auditor passa a administrar uma carteira de clientes e é preparado para combinar atribuições operacionais, gerenciais e comerciais. Essa experiência já formou alguns presidentes, como Luiz Delfim, presidente da Coca-Cola Guararapes (PE), que trabalhou por cinco anos na Deloitte do Rio de Janeiro. “A carreira proporciona grande exposição em um curto espaço de tempo, o que gera um rápido amadurecimento profissional”, diz Luiz Delfim.
SALÁRIO EM DOBRO
Esse desenvolvimento acelerado faz com que aqueles que se identificam com a cultura da Deloitte permaneçam na organização, apesar do assédio de clientes e concorrentes. “Já recebi dois convites de empresas neste ano, mas estabeleci uma meta de não sair antes de virar gerente”, diz o auditor sênior Bruno Ifanger, de 25 anos. “Com o mercado aquecido como está, os especialistas conseguem até dobrar o salário ao sair”, diz Fernando Mantovani, da Robert Half. Mas, no fim das contas, o que alimenta mesmo as expectativas desses jovens é a possibilidade de se tornarem sócios do negócio sem tirar dinheiro do bolso. Quem atinge o topo da carreira em uma Big Four ganha um aumento de 100% na remuneração total.
Essa promoção não depende somente do desempenho individual, mas também do crescimento dos negócios. A boa notícia para Luís Maluf e seus colegas é que, na Deloitte, o número de sócios só vem aumentando, numa média de 12 por ano, abrindo oportunidades para quem se aproxima do melhor momento da carreira na companhia.
Copyright© 2007, Editora Abril S.A.
Todos os direitos reservados. All rights reserved
[anuncie] [quem somos] [fale conosco]