
O ARTICULADOR Allan Cury Martins, 27 anos, gerente de produto da Braskem, conseguiu fazer com que construtoras e mineradoras comprassem um produto plástico para revestir caminhões, e aumentou as vendas em 15%
No ano passado, Allan Cury Martins, de 27 anos, gerente de produto da companhia petroquímica Braskem, recebeu a missão de encontrar novos mercados para uma resina ultra-resistente da companhia. Allan imaginou instalar o plástico em caçambas de caminhões, para protegê-las do impacto da carga. O executivo negociou com a transformadora da resina e com o fabricante das caçambas. Falou ainda com as construtoras e mineradoras, as donas dos caminhões, que seriam beneficiadas com uma redução nos custos de manutenção de suas frotas. Conseguiu convencer a todos. Em seis meses, as vendas do produto cresceram 15%. Às vezes é preciso mais coragem do que análise para as idéias vingarem, diz Allan, que recebeu o prêmio de destaque do ano da empresa e foi promovido a gerente comercial para Europa e América Latina.
Na Braskem, os funcionários têm autonomia para tomar decisões sem pedir autorização para os chefes. A companhia acredita que isso aumenta o grau de envolvimento das pessoas no negócio. Essa prática visa estimular quem tem veia empreendedora, como Allan, que foi premiado pela sua iniciativa. Outras empresas, como 3M, Algar e Votorantim, também valorizam essa qualidade. Na Vale, o perfil empreendedor é pré-requisito para recrutar os 150 jovens que vão participar neste ano do programa global de trainee. Essas organizações buscam pessoas capazes de identificar oportunidades de crescimento como um nicho novo de mercado, um produto inédito, uma tecnologia inovadora ou melhoria de processos para reduzir custos. E estimulam o chamado empreendedorismo interno. Há pouco tempo, o destino desse tipo de profissional era sair da corporação e abrir o próprio negócio. Mas, hoje, ele encontra mais espaço no meio corporativo, pois muitas companhias descobriram que podem aproveitar a vocação dos funcionários em benefício próprio.
Uma pesquisa da consultoria DBM, de São Paulo, especializada em recolocação de executivos, apontou essa tendência em 2006. Segundo entrevistas e testes feitos com 4 500 profissionais das 500 maiores empresas com sede no Brasil, das três habilidades comportamentais mais valorizadas adaptação, independência e comunicação , as duas primeiras são típicas do empreendedor corporativo. É o jogo de cintura e a liberdade de ação, características comuns e obrigatórias a todos os empreendedores, diz Marcos Hashimoto, consultor e coordenador do Centro de Empreendedorismo do Ibmec, em São Paulo.
TRANSFORME SEU PERFIL
Mesmo quem não é empreendedor nato pode absorver as características de um para se desenvolver profissionalmente. Em primeiro lugar, é preciso ter idéias e estar preparado para defendê-las com veemência. O consultor americano Giff ord Pinchot, que cunhou o termo intra-empreendedorismo no final da década de 1970, diz que o profissional deveria ir ao trabalho todo dia preparado para ser demitido. Pode parecer um exagero, porém o empreendedor corporativo muitas vezes tem de quebrar regras ou, pelo menos, questioná-las para levar adiante um projeto. Ele está sempre negociando, seja com alguém de outro departamento, um colega ou o chefe, diz José Dornelas, consultor de empresas e professor de empreendedorismo na USP, que vai lançar neste ano seu segundo livro sobre o tema.
Por isso, é importante construir bons relacionamentos e manter o networking interno ativo. Aproximar-se do chefe é fundamental, pois ele pode ser o primeiro a barrar sua iniciativa. Se for um sujeito pouco amistoso, não desanime. Tente conquistar padrinhos para suas idéias, de preferência profissionais que tenham influência na organização. Mas lembre-se de que nada vai funcionar se você não tiver uma proposta bem embasada e alinhada com a estratégia da empresa. Para isso, muitas vezes é necessário uma dose extra de dedicação leia-se aqui trabalhar além do horário e do escritório para elaborar um projeto e colocá-lo em prática. Uma oportunidade é mais do que uma idéia, ela tem de ter um potencial econômico real, diz José Dornelas. Para identificá-la, ter conhecimento do negócio é fundamental. O engenheiro Marcelo Cicconi, de 35 anos, gerente da Vega, empresa de limpeza pública do grupo Solví, presente em dez estados do país, sabe bem disso.
No ano passado, quando trabalhava para a prefeitura de São Carlos, no interior de São Paulo, Marcelo soube que a unidade da TAM na cidade necessitava de serviços de gerenciamento de lixo. Eleaproveitou o seu relacionamento com funcionários da companhia aérea para marcar uma reunião com os gerentes da GRI, outra empresa do grupo especializada em resíduos industriais. O encontro rendeu dois novos contratos para o grupo. O empreendedor tem de se conhecer, acreditar em si mesmo e tocar as idéias adiante, diz Marcelo.
ENFRENTE A BUROCRACIA
Porém, muitas vezes, a vontade do empreendedor esbarrará na burocracia e na rigidez das organizações. Por isso, é importante conhecer o terreno em que se está pisando. Em empresas conservadoras, a mudança nem sempre será bem vista e um único não pode ser o bastante para enterrar um projeto. O número de níveis hierárquicos, o ritmo de inovação dos produtos e a tolerância ao erro também são bons indicadores para avaliar o grau de autonomia em uma empresa. Você pode usá-los para saber se uma determinada cultura corporativa é compatível com seus objetivos. Foi o que fez o engenheiro paulistano Marcelo Queiroz, de 39 anos, quando deixou o cargo de gerente de contas-chave para a América Latina da Johnson & Johnson, em junho de 2005. Percebi que minha atuação teria pouco impacto sobre os negócios, diz. Marcelo assumiu a direção comercial da Gold Nutrition, fábrica de adoçantes e alimentos em São Bernardo do Campo, São Paulo, que na época passava por uma reestruturação. Com liberdade para executar suas idéias, ajudou a reconstruir uma empresa que hoje, por ano, cresce 40% e lança 40 novos itens no mercado.
1 - Faça o que for necessário para que seu projeto dê certo, independentemente de sua função ou cargo.
2 - Compartilhe os créditos do sucesso.
3 - Lembre-se: é mais fácil pedir perdão do que permissão.
4 - Vá trabalhar todo dia preparado para ser demitido.
5 - Peça conselho antes de pedir recursos.
6 - Siga a sua intuição em relação às pessoas e escolha as melhores.
7 - Prepare-se antes de divulgar sua idéia.
8 - Nunca aposte uma corrida da qual não esteja participando.
9 - Seja verdadeiro com suas metas e realista sobre como atingi-las.
10 - Honre seus superiores, a empresa, seus patrocinadores.
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