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A publicidade descobre o RH

Agências de publicidade buscam nas empresas tradicionais as técnicas para treinar, remunerar e reter seus profissionais mais talentosos

Por Márcia Rocha

Luciana Cavalcanti

Paulo Celso Freitas, o PC, diretor do grupo de contas da Talent: "O ambiente de uma agência é muito criativo e também um pouco caótico"

Se trabalhasse em uma empresa tradicional e tivesse um cargo de direção como o que tem hoje, o publicitário paulistano Paulo Celso Freitas, o PC, de 42 anos, certamente já teria participado de um programa de coaching. Mas foi apenas no fim do ano passado que ele foi escalado para um processo desses. "Só aí consegui ter uma idéia mais clara do meu papel como gestor", diz ele, que é diretor de grupo de contas da Talent, agência de publicidade paulistana responsável, entre outros anúncios, pela nova campanha do jornal O Estado de S. Paulo. PC trabalha na Talent desde 2000, mas somente em 2004 o RH da agência começou a ser estruturado. Por quê? Para melhorar a vida dos funcionários. "Quero gente feliz trabalhando aqui", diz o publicitário Julio Cesar Ribeiro, fundador e presidente. Felicidade, aliás, faz parte de um manifesto que traduz a filosofia de trabalho da Talent. "Para mim, o modelo das escolas de samba é perfeito, porque alia capacidade de realização com prazer e alegria", diz Julio. Para melhorar ainda mais o ambiente e deixar os funcionários mais satisfeitos, ele contratou, em 2004, a psicóloga Karla Baratto, que já trabalhava com o assunto. "No começo, as pessoas resistiram um pouco. Mas agora já estão completamente adaptadas ao trabalho que faço aqui", diz Karla, que é diretora de gestão e desenvolvimento profissional da Talent. E as ações dela incluem desde promoção de sessão pipoca para mostrar em primeira mão as novas campanhas para os funcionários até o estabelecimento de regras claras para a concessão de bônus, que agora é atrelado a resultados. "Antes, o Julio pagava o mesmo valor para todo mundo", diz. Karla instituiu também uma avaliação formal de desempenho com alterações propostas pelos próprios funcionários. "Os publicitários são muito criativos. Não fazia o menor sentido deixar de ouvi-los." Por causa dessa experiência, está finalizando uma avaliação de desempenho específica para o pessoal de criação, que deve começar a ser aplicada no fim do ano. E, enquanto Karla cuida do que se passa entre as pouquíssimas paredes da agência, a administradora de empresas Luiza Siffert Porto, diretora de relações com o mercado, se encarrega de replicar para o mundo exterior o jeito Talent de lidar com as pessoas. Uma de suas ações, por exemplo, foi mandar para alguns clientes um exemplar de Blink ­ A Decisão num Piscar de Olhos, o best-seller do jornalista inglês Malcolm Gladwell, com uma orelha escrita pelo próprio Julio. "Ele adorou o livro, que trata da importância da intuição na vida da gente. Por isso, propus que desse um exemplar de presente para algumas pessoas", conta Luiza.

GENTE FELIZ DÁ LUCRO
Na verdade, o que acontece na Talent é um movimento que está tomando conta das agências de propaganda em geral. Porque, no fim das contas, elas são como qualquer outra empresa, com direito a prazos, orçamentos e clientes cada vez mais exigentes. "Se não estiver satisfeito o cliente pode, por exemplo, pedir a cabeça do executivo de contas da agência que o atende", diz a headhunter Cristina Almeida, sócia da Neo Consulting, em São Paulo. Segundo ela, a demanda por um RH mais estruturado é relativamente recente entre as agências de publicidade. Antes, elas buscavam na concorrência os profissionais de que precisavam. E muitas vezes ofereciam um aumento de 30%, 40% de salário. "Não dá mais para inflacionar o mercado desse jeito. Por isso, questões ligadas à gestão de pessoas como treinamento, coaching e retenção entraram na pauta dos publicitários", diz Cristina.

A preocupação com o ambiente de trabalho se tornou estratégica. "O bem-estar das pessoas é premissa para um trabalho em que a criatividade é essencial", diz Cláudio Carvalho, sócio da Morya, agência baiana que também tem escritórios em São Paulo, Belo Horizonte e Recife. Na Morya há desde aulas de meditação a discussões para ajudar as pessoas a traçar seu plano de carreira e de vida. Em um programa, chamado Conhecimento sem Fronteiras, o funcionário faz um projeto e indica qualquer lugar do mundo onde poderia adquirir aquele conhecimento. "O vencedor ganha uma viagem para tal lugar e depois repassa sua experiência para os colegas", diz Cláudio. Se essas iniciativas vêm dando certo? Pelo jeito, sim. Há sete anos, eram 40 funcionários em Salvador. "Hoje, a Morya tem mais três escritórios e 150 funcionários. A contratação de um diretor de RH, aliás, está nos nossos planos de curtíssimo prazo", diz Cláudio, que até então vinha fazendo esse papel. Na Lew, Lara, agência paulistana que tem a TIM entre seus clientes, isso já aconteceu há um ano. Eliana Azevedo, que já trabalhou na empreiteira Camargo Corrêa, na Sadia e no Centro Universitário Nove de Julho (Uninove), em São Paulo, topou o desafio. Este ano, por exemplo, os funcionários vão passar por sua primeira avaliação 360 graus e, além de se auto-avaliar, serão analisados pelo chefe, colegas, subordinados, clientes internos e externos. "Quanto maior a transparência, melhor o clima, mas é preciso cuidado para não formalizar as coisas e torná-las burocráticas ", diz Márcio Oliveira, vice-presidente de operações da Lew, Lara.

Ordem na casa sem engessar as pessoas também é uma preocupação no NewComm, um dos maiores grupos de comunicação do país. "Estamos preocupados com a parte intangível da gestão de pessoas", diz Marcos Quintela, vice-presidente de atendimento e operações da Y&R, uma das agências do grupo. Para ele, isso quer dizer transcender questões como o pagamento de salários ou o controle das férias. Planejamento de carreira e avaliação de desempenho fazem parte do dia-a-dia do NewComm. Kit de boas-vindas para recém-contratados e entrevista de desligamento também. E, entre outras coisas, sessões de massagem diárias e frutas frescas duas vezes por dia -- com isso, a hora do lanche fica mais leve -- compõem o pacote para promover o bem-estar das pessoas. Assim, como diz Marcos,o intangível acaba virando algo muito tangível. Para bom entendedor: a produtividade do time aumenta. ponto final 

ORDEM NO CAOS
O publicitário Paulo Celso Freitas, o PC, diretor de grupo de contas da agência paulistana Talent, está lá há seis anos. Isso significa que conhece a agência antes e depois da estruturação do RH. Segundo ele, até 2004, um departamento pessoal tratava de coisas mais burocráticas, como plano de saúde e lista de aniversariantes. "De dois anos para cá, porém, tudo mudou. Agora, temos alguém que trabalha exclusivamente com gestão de pessoas", diz ele. O que mudou na rotina de PC? Muita coisa. "O ambiente de uma agência é muito criativo e, por isso mesmo,um pouco caótico. Mas, se você considerar, por exemplo, que uma campanha custa milhões de reais, não há espaço para desorganização", afirma. E é justamente a organização, que tornou o ambiente melhor e as pessoas mais conscientes de seus papéis, a grande contribuição do RH para a Talent. "Conhecer o impacto de seu trabalho e o das outras pessoas dá uma clareza muito maior do papel de cada um no processo", diz.

Leia o Manifesto da Talent