Luciana Cavalcanti

Paulo Celso Freitas, o PC, diretor do grupo de contas da Talent: "O ambiente de uma agência é muito criativo e também um pouco caótico"
GENTE FELIZ DÁ LUCRO
Na verdade, o que acontece na Talent é um movimento que está tomando conta das agências de propaganda em geral. Porque, no fim das contas, elas são como qualquer outra empresa, com direito a prazos, orçamentos e clientes cada vez mais exigentes. "Se não estiver satisfeito o cliente pode, por exemplo, pedir a cabeça do executivo de contas da agência que o atende", diz a headhunter Cristina Almeida, sócia da Neo Consulting, em São Paulo. Segundo ela, a demanda por um RH mais estruturado é relativamente recente entre as agências de publicidade. Antes, elas buscavam na concorrência os profissionais de que precisavam. E muitas vezes ofereciam um aumento de 30%, 40% de salário. "Não dá mais para inflacionar o mercado desse jeito. Por isso, questões ligadas à gestão de pessoas como treinamento, coaching e retenção entraram na pauta dos publicitários", diz Cristina.
A preocupação com o ambiente de trabalho se tornou estratégica. "O bem-estar das pessoas é premissa para um trabalho em que a criatividade é essencial", diz Cláudio Carvalho, sócio da Morya, agência baiana que também tem escritórios em São Paulo, Belo Horizonte e Recife. Na Morya há desde aulas de meditação a discussões para ajudar as pessoas a traçar seu plano de carreira e de vida. Em um programa, chamado Conhecimento sem Fronteiras, o funcionário faz um projeto e indica qualquer lugar do mundo onde poderia adquirir aquele conhecimento. "O vencedor ganha uma viagem para tal lugar e depois repassa sua experiência para os colegas", diz Cláudio. Se essas iniciativas vêm dando certo? Pelo jeito, sim. Há sete anos, eram 40 funcionários em Salvador. "Hoje, a Morya tem mais três escritórios e 150 funcionários. A contratação de um diretor de RH, aliás, está nos nossos planos de curtíssimo prazo", diz Cláudio, que até então vinha fazendo esse papel. Na Lew, Lara, agência paulistana que tem a TIM entre seus clientes, isso já aconteceu há um ano. Eliana Azevedo, que já trabalhou na empreiteira Camargo Corrêa, na Sadia e no Centro Universitário Nove de Julho (Uninove), em São Paulo, topou o desafio. Este ano, por exemplo, os funcionários vão passar por sua primeira avaliação 360 graus e, além de se auto-avaliar, serão analisados pelo chefe, colegas, subordinados, clientes internos e externos. "Quanto maior a transparência, melhor o clima, mas é preciso cuidado para não formalizar as coisas e torná-las burocráticas ", diz Márcio Oliveira, vice-presidente de operações da Lew, Lara.
Ordem na casa sem engessar as pessoas também é uma preocupação no NewComm, um dos maiores grupos de comunicação do país. "Estamos preocupados com a parte intangível da gestão de pessoas", diz Marcos Quintela, vice-presidente de atendimento e operações da Y&R, uma das agências do grupo. Para ele, isso quer dizer transcender questões como o pagamento de salários ou o controle das férias. Planejamento de carreira e avaliação de desempenho fazem parte do dia-a-dia do NewComm. Kit de boas-vindas para recém-contratados e entrevista de desligamento também. E, entre outras coisas, sessões de massagem diárias e frutas frescas duas vezes por dia -- com isso, a hora do lanche fica mais leve -- compõem o pacote para promover o bem-estar das pessoas. Assim, como diz Marcos,o intangível acaba virando algo muito tangível. Para bom entendedor: a produtividade do time aumenta.
ORDEM NO CAOS
O publicitário Paulo Celso Freitas, o PC, diretor de grupo de contas da agência paulistana Talent, está lá há seis anos. Isso significa que conhece a agência antes e depois da estruturação do RH. Segundo ele, até 2004, um departamento pessoal tratava de coisas mais burocráticas, como plano de saúde e lista de aniversariantes. "De dois anos para cá, porém, tudo mudou. Agora, temos alguém que trabalha exclusivamente com gestão de pessoas", diz ele. O que mudou na rotina de PC? Muita coisa. "O ambiente de uma agência é muito criativo e, por isso mesmo,um pouco caótico. Mas, se você considerar, por exemplo, que uma campanha custa milhões de reais, não há espaço para desorganização", afirma. E é justamente a organização, que tornou o ambiente melhor e as pessoas mais conscientes de seus papéis, a grande contribuição do RH para a Talent. "Conhecer o impacto de seu trabalho e o das outras pessoas dá uma clareza muito maior do papel de cada um no processo", diz.
Leia o Manifesto da Talent
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