Jayme Leão

COMO FUNCIONA SUA AULA?
Há cerca de 90 estudantes na sala e cada aula dura duas horas. Nós costumamos ler um livro a cada semana. Com base nele, conduzo uma discussão sobre tópicos levantados pelos estudantes ou sobre temas que renderam bons debates em aulas passadas. Os estudantes também lêem e discutem resumos de obras clássicas sobre filosofia moral.
QUAIS LIVROS E AUTORES INSPIRAM SUAS AULAS? Lemos Enduring Love, de Ian McEwan (Amor para Sempre, Editora Rocco); A Man For All Seasons, de Robert Bolt; The Secret Sharer, de Joseph Conrad; The Remains of the Day, de Kazuo Ishiguro [livro que deu origem ao filme Vestígios dos Dias, sem tradução no Brasil], e O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, são alguns deles. Todos são bons, mas os dois últimos, em particular, são excelentes.
COM EXCEÇÃO DOS LIVROS DE NEGOCIOS, OS EXECUTIVOS EM GERAL LEEM POUCO?
Acho que muitos executivos são excelentes leitores. O problema é que eles não têm muito tempo para ler.
O QUE OS HOMENS DE NEGOCIO PODEM APRENDER COM A LITERATURA CLASSICA?
Com base em trabalhos de ficção, os alunos se perguntam: "Tenho um bom sonho?", "Quão flexível é o meu código de ética?", "Ocupo o cargo adequado?", "Sou realmente responsável em meu trabalho?". Um exemplo: o livro The Remains of the Day conta a história de um mordomo inglês que olha para trás e faz uma reflexão sobre o preço que pagou para ser um excelente profissional. Ao longo da vida, é bom que o executivo faça isso várias vezes. É importante que ele se questione, em diversos momentos, se suas opções profissionais valem a pena. Assim, caso se arrependa do caminho que sua vida tomou, ainda dá tempo de mudar o rumo.
COMO TIRAR LIÇÕES DE ÉTICA DE OBRAS CLASSICAS?
Numa das aulas, discutimos, com base na filosofia, a atuação de Truman [ex-presidente dos Estados Unidos] na Segunda Guerra Mundial, quando ele decidiu usar a arma nuclear em Hiroshima, no Japão. Lemos parte do livro de John Hersey, Hiroshima, sobre as conseqüências da bomba atômica na cidade, e parte das memórias de Henry Stimson, secretário de Guerra de Truman, que descreve como Truman e seus conselheiros tomaram a decisão de lançar a bomba atômica no Japão. Finalmente, lemos as obras dos filósofos John Stuart Mill e Immanuel Kant, que desenvolveram importantes julgamentos filosóficos sobre as obrigações éticas dos seres humanos. A partir daí, entendemos como e por que os líderes precisam prestar contas uns para os outros.
E O QUE OS CLASSICOS ENSINAM SOBRE LIDERANÇA?
A literatura fornece perfis convincentes de líderes, com uma forte dose de realismo. Várias histórias que lemos são baseadas em experiências reais, dos próprios autores. É mais fácil aprender com pessoas que se parecem conosco -- complicadas e com falhas -- do que com uma galeria de heróis e santos. A ficção fornece uma visão de dentro e nos faz ver líderes preocupados, hesitantes, reflexivos, arrependidos, envergonhados...
QUAL A DIFERENÇA ENTRE ESTUDAR LIDERANÇA A PARTIR DA LITERATURA CLASSICA E COM BASE EM UM LIVRO DE NEGOCIOS?
Dá mais trabalho aprender por meio da literatura clássica, porque esses livros não oferecem uma lista do que fazer. Mas a tentativa vale a pena. A ficção estimula a imaginação. E as lições da literatura podem ser muito poderosas no dia-a-dia.
NÓS TEMOS MACHADO DE ASSIS
O consultor Renato Guimarães Ferreira, professor da FGV, dá aulas de gestão baseadas em contos da literatura brasileira
Gestão com Pessoas e Literatura. Esse é o nome da disciplina;criada há três anos pelo professor Renato Guimarães Ferreira para os cursos de graduação da Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo. Leitor voraz desde a infância, o consultor mineiro já dava aulas de administração de recursos humanos na FGV e resolveu ampliar o universo dos alunos com a nova disciplina. As aulas são eletivas e, mesmo assim, os estudantes lotam a sala. O objetivo do programa é fazer com que os alunos reflitam sobre seus valores e a relação entre vida pessoal e profissional. "A literatura faz com que você viva várias vidas numa só", diz Renato, que aos 25 anos escreveu uma carta para Carlos Drummond de Andrade, um dos seus autores preferidos. E obteve resposta. "Era uma resposta simples, dizendo para eu seguir em frente na idéia de viajar. Mas era uma resposta de Drummond!", conta. Assim como o professor Joseph L. Badaracco Jr., de Harvard, Renato lidera discussões baseadas em clássicos da literatura. A diferença é que, aqui, os autores são brasileiros. Entre eles estão Machado de Assis, Raduan Nassar e Graciliano Ramos. "Os alunos apresentam suas impressões sobre o que leram, fazendo um paralelo entre trabalho e vida pessoal", diz. Os contos tratam de conflitos sobre tomada de decisão, rotina profissional, dilemas existenciais... "Os estudantes sempre lêem material técnico. É um alívio ler uma boa história e refletir sobre a vida."
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