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Problema, sim. Desespero, não

Todo mundo enfrenta dificuldades fora da empresa. O grande desafio é impedir que elas também prejudiquem sua carreira

Por Fernanda Medeiros

Heudes Régis

Mônica Bianchi, da Sab Company, entre suas assistentes, Daniele Landgraf (à esq.) e Karoline de Souza: o apoio da equipe foi essencial diante de um problema de saúde na família

Ah, se houvesse como deixar os problemas pessoais em casa... Já pensou? "Fique aqui, problema que, tão logo eu termine meus compromissos, prometo voltar a sofrer com toda a intensidade merecida." Infelizmente a realidade é outra: pesquisa realizada pela Health Promotion and Substance Abuse Prevention, agência governamental norte-americana dedicada à prevenção da saúde mental, mostra que 70% dos funcionários que enfrentam problemas pessoais não conseguem deixá-los em casa quando saem para trabalhar. Se esse é o seu caso, saiba que nem tudo está perdido. Especialistas em trabalho e comportamento sugerem algumas atitudes que podem ajudá-lo a conciliar a vida dentro e fora da empresa, sem permitir que as dificuldades pessoais façam estragos na carreira. O primeiro é assumir que você não é super-herói. "Pouquíssimas pessoas não deixam que nada abale o seu trabalho", diz Nivaldo Dutra, diretor de recursos humanos da Unitech, empresa de tecnologia da informação com cerca de 1 200 funcionários e sede em Salvador (BA). O melhor, segundo ele, é criar uma relação do tipo "conta corrente" com a organização em que você trabalha. Quando o funcionário está bem e a empresa precisa, ele trabalha algumas horas a mais. Quando é ele que precisa de mais tempo para seus problemas pessoais, o chefe trata de liberá-lo. "Não há outra saída. É uma estrada de mão dupla e imprevistos sempre acontecem, tanto de um lado quando de outro." Ponto pacífico para diretores de RH, consultores e psicólogos é que a organização precisa saber que o funcionário está enfrentando uma dificuldade pessoal. Tanto para ajudá-lo quanto para impedir que a situação prejudique a companhia. "O funcionário precisa entender que seu superior vai ser cobrado caso as metas não sejam atingidas. Ele precisa dividir o problema, para que o chefe monte uma estratégia para cobrir sua ausência ou queda na produtividade, mesmo que seja eventual", diz o consultor Wilson Mileris, que atua há 23 anos na área de motivação e liderança. Foi exatamente o que fez a paulista Mônica Bianchi, de 38 anos, coordenadora de marketing da Sab Company, em São Paulo. Há cerca de dois anos, ela descobriu que a mãe sofria da Doença de Graves, disfunção na tireóide, que, com o passar do tempo, afetou a visão, o coração e o sistema motor. A radioterapia e os medicamentos acabaram enfraquecendo o sistema imunológico e, com isso, surgiram novos problemas de saúde, como pneumonia.

Quando tudo isso aconteceu, Mônica tinha acabado de trocar de área e ocupava o cargo de analista de marketing. "Íamos constantemente ao médico e havia também as internações. Várias vezes tive de adiar compromissos, desmarcar reuniões, cancelar a apresentação de projetos", lembra. "Mas contei logo no início o que se passava comigo e tive sorte. Aqui na empresa, trabalhamos o tempo todo em conjunto, tem sempre alguém que participa do que estou fazendo e pode me representar. Desde o começo, foi isso que me amparou." Mônica teve apoio, mas também fez a parte dela. Quando precisava se ausentar, acompanhava o trabalho por meio de telefonemas e, quando necessário, acessava a internet no hospital, para dar andamento a algum projeto. "Eu me sentia comprometida e não queria deixar ninguém na mão." Ao voltar ela encontrava um acúmulo natural de trabalho, mas a empresa nunca exigiu que compensasse os dias em que se ausentou.

Antes de dividir o problema com o chefe e os colegas, como fez Mônica, é preciso pesar algumas coisas. Em primeiro lugar, tente deixar a emoção de lado por alguns momentos e responda: a situação é mesmo séria? Nem pense em se lamentar na sala do chefe toda vez que discutir com o marido ou a esposa. "Quem vive pelos cantos chorando suas pitangas acaba taxado de funcionário-problema e corre o risco de ser escanteado na hora da formação de grupos de trabalho", diz Wilson Mileris. Caso a dificuldade que você enfrenta seja realmente grave, avalie se pode confiar no seu superior antes de pedir a colaboração dele. "Em algumas empresas, ainda há aqueles que vêem os problemas pessoais do funcionário com um certo preconceito. Quem não confia no chefe não deve falar com ele", diz a psicóloga Júnia Ferreira, especialista em medicina comportamental da Escola Paulista de Medicina (Unifesp). "Em casos assim, o superior só deve ser comunicado se for necessário alterar a rotina de trabalho." Seja qual for a postura da empresa, é importante que você também busque apoio fora do escritório. "Dependendo do caso, o ideal é contar com acompanhamento médico ou psicológico", diz Júnia. Ela recomenda, ainda, que você procure o apoio dos amigos e pratique um esporte ou uma atividade como meditação ou ioga. Isso não vai resolver o problema, mas vai ajudá-lo a recarregar as energias e enxergar as coisas sob outra perspectiva. "Esse afastamento ajuda a ver a situação com mais clareza e, quem sabe, encontrar uma solução", diz Nivaldo Dutra ponto final .

MANTENHA O CONTROLE
Veja como lidar com seus problemas pessoais na empresa:
* Evite falar demais e fazer-se de "coitadinho". Divida seus problemas com o menor número possível de pessoas no trabalho.
* Se possível, receba e faça telefonemas pessoais no celular, no horário do almoço ou nos intervalos para o café.
* Salvo em casos como morte, tenha um plano B: conte com alguém que possa ajudá-lo em tarefas domésticas ou que leve seu filho ao médico no dia em que você não puder.
* Comunique ao chefe se precisar alterar sua rotina de trabalho, para que ele não interprete sua ausência ou falta de concentração como falta de comprometimento.
* Verifique se a empresa oferece algum tipo de auxílio paraos funcionários com problemas pessoais e busque ajuda.
* Se você não está conseguindo lidar sozinho com seus problemas, uma ajuda profissional sempre é bem-vinda.
* Doenças e morte de parentes devem ser comunicadas ao chefe, para que a empresa possa se organizar durante sua ausência. 
  

No site outros profissionais contam como enfrentaram o desafio de conciliar o trabalho e os problemas pessoais

 

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