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De olhos bem abertos

Noites maldormidas ou sem dormir são sinal de insônia, um distúrbio que pode destruir sua carreira

Por Gustavo Poloni

Stock Photos

São quatro horas da madrugada e você ainda não pregou os olhos. O despertador no criado-mudo lembra que, em apenas algumas horas, você terá um dia cheio de compromissos importantes e precisa estar inteiro. Mesmo assim, o sono não vem. Não importa o que faça -- contar carneirinhos, ler um livro, assistir à programação modorrenta da TV, tomar leite quente ou um banho morno --, seus olhos continuam abertos. Você pode não saber ainda, mas sofre de insônia, um distúrbio que pode arruinar sua vida pessoal e profissional. O problema, que se caracteriza por dificuldade para dormir e se manter dormindo, além da sensação de acordar cansado, é a mais comum das 81 doenças registradas na literatura dos distúrbios do sono. Nada menos que 44% dos brasileiros têm dificuldades para dormir, segundo pesquisa realizada pelo neurologista Geraldo Rizzo, especialista em medicina do sono, de São Paulo. Mulheres e idosos são os que mais sofrem com a doença, que é considerada crônica quando a pessoa fica mais de 30 noites seguidas sem dormir bem. A paulista Rosana da Silva, de 38 anos, trabalha na área de vendas da Vibrasom, fabricante de equipamentos médicos em São Paulo, e sabe bem o que é virar de um lado para o outro da cama durante a madrugada. Em 2003, sua filha, que na época tinha apenas 15 anos, engravidou do namorado. Somou-se a esse drama familiar um período difícil na empresa. Um problema com os fornecedores resultou no atraso da entrega de novas máquinas. "Comecei a levar as preocupações para a cama", revela. Rosana até conseguia pegar no sono com facilidade. O problema era continuar dormindo. Invariavelmente, acordava por volta das duas e meia da manhã. E não dormia mais até as 7 horas, quando tinha de levantar para trabalhar.

O marido foi o primeiro a sentir as conseqüências das noites em claro de Rosana. Para não atrapalhar o sono dela, passou a dormir num colchão ao lado da cama. Não resolveu. Ela mergulhou na internet em busca de informações sobre o problema. Trocou o colchão e o travesseiro e apelou para sedativos. Tudo em vão. O relacionamento com a família ficou difícil e a vida profissional virou um inferno. Era complicado disfarçar a cara de sono ao chegar ao trabalho. Logo na recepção, alguém sempre perguntava: "Você não dormiu hoje, né?". A insônia resultava em dores no corpo, na cabeça e, principalmente, na falta de concentração. O auge dos problemas profissionais aconteceu quando ela trocou os códigos dos produtos que deveria mandar para Salvador, na Bahia. "Tive de pagar o frete para trazer os produtos de volta a São Paulo e enviar o pedido correto para o cliente", conta Rosana, que levou um puxão de orelha do chefe.

PESCANDO NO TRABALHO
Situações constrangedoras como essa são típicas na rotina de quem leva o sono para o escritório. "Não são raros os casos de pessoas que dormem no banheiro ou na frente do computador durante o expediente", afirma Maria Laura Pires, pesquisadora dos distúrbios do sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "Pior: tem gente que dorme em salas de reunião, durante o fechamento do balanço anual da empresa." Já os trabalhadores de chão de fábrica podem se envolver em acidentes por causa da insônia. Um estudo da Unifesp mostra que 20% dos acidentes com motoristas profissionais acontecem em decorrência da sonolência.

Via de regra, a insônia é sintoma de um problema maior. Algumas pessoas passam a ter dificuldades para dormir por causa de problemas econômicos, da perda de um parente ou de um trauma, como um seqüestro relâmpago. "Pessoas muito ansiosas, que ficam preocupadas quando têm uma reunião importante, também podem ter dificuldades para dormir" diz Sonia Ancoli-Israel, diretora do departamento de doenças do sono da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Nesse caso, a insônia é transitória e pode ser resolvida sem medicamentos. Segundo os especialistas, quanto maior o grau de responsabilidade de um profissional, maiores as chances de sofrer de insônia. "Executivos que trabalham muitas horas tendem a ter mais dificuldades com o sono. Para eles, dormir é uma perda de tempo", diz a neurologista Dalva Poyares, do Instituto do Sono, em São Paulo. E cochilar durante o trabalho pode ser fatal para a carreira de um executivo. As conseqüências vão desde uma bronca até a perda do emprego. A sobrevida dos negócios também corre risco. Uma pesquisa realizada pela Fundação Nacional do Sono nos Estados Unidos -- onde 82 milhões de pessoas sofrem de insônia, 40% da população -- mostra que os custos indiretos com perda de produtividade, danos ao patrimônio, acidentes e assistência médica chegam a 45 bilhões de dólares.

Dormir é um processo orgânico vital. "As pessoas precisam, em média, de oito horas de sono por noite para que, além do descanso físico e mental, o corpo realize vários processos metabólicos", diz Lia Bittencourt, presidente da Sociedade Brasileira do Sono e professora de medicina e biologia do sono da Unifesp. Acontece que muitas pessoas (e ponto final aí os executivos estão no topo da lista) trapaceiam o sono. Acreditam que basta dormir poucas horas por dia, mesmo quando o corpo pede mais. Isso favorece o aumento do estresse, das doenças cardiovasculares e imunológicas.

Para garantir uma noite bem-dormida, os médicos aconselham uma lista de dez mandamentos (veja o quadro Boa Noite!). São hábitos como evitar bebidas estimulantes, como o café, pouco antes de deitar-se. "Pode parecer pouco, mas resolve a maioria dos casos", explica Lia. Quando isso não traz resultados, o Instituto do Sono recomenda técnicas de relaxamento, como ioga e meditação. Só os casos extremos são tratados com medicamentos. Foi assim com Rosana. Depois de dois anos e meio de sofrimento e um tratamento de três meses, ela não se queixa mais de insônia. "Mas, assim como ex-usuários de drogas e ex-alcoólatras, sei que não há cura para o meu problema. Qualquer coisa que mude a minha vida de repente pode trazê-lo de volta." No trabalho, Rosana está mais atenta e nunca mais cometeu um erro. A relação com os familiares também melhorou muito. Um deles está especialmente radiante: o marido, que, depois de tantas noites no colchão, voltou para a cama.

BOA NOITE!
Saiba como prevenir ou minimizar a insônia:

1. Siga horários regulares para deitar e acordar.

2. Mantenha a tranqüilidade do local onde você dorme, evitando utilizá-lo para outras atividades.

3. Se ler um livro ou assistir a um filme antes de dormir, evite os que possuem conteúdo estimulante.

4. Os sons, a luminosidade e a temperatura interferem na qualidade do sono. Crie um ambiente relaxante.

5. Não vá dormir com fome ou depois de comer muito.

6. À noite, evite tomar café, chá preto e bebidas do tipo cola ou guaraná.

7. Evite o consumo de bebidas alcoólicas à noite. Elas comprometem a qualidade do sono.

8. Evite fumar à noite, a nicotina pode ser estimulante.

9. Durma apenas o tempo suficiente para sentir-se bem (sem comprometer o sono do dia seguinte).

10. Evite "brigar" com a cama. Se tentar e não conseguir dormir, levante-se e faça algo enfadonho ou repetitivo. Ouvir música suave também pode ajudar.
Fonte: Roche

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