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70 anos de estresse

Em 1936 o cientista Hans Selye publicou o artigo que popularizou o grande vilão do mundo moderno. Desde então, tentamos conviver com ele

Por José Eduardo Costa

Aos 28 anos, o canadense de origem austríaca Hans Selye era um jovem pesquisador do departamento de bioquímica da Universidade de McGill, em Montreal, no Canadá. Hans trabalhava em um experimento com ratos de laboratório para descobrir um novo hormônio. Os resultados de sua pesquisa, no entanto, o conduziram para um outro caminho: a descoberta do que chamou de Síndrome Geral da Adaptação. O nome estranho batizava o conjunto de reações do corpo diante de situações de risco. Em 1936, o jovem endocrinologista publicou as primeiras conclusões de seus estudos no jornal britânico Nature, uma espécie de bíblia da área médica. Para definir as reações que observou primeiro nos ratos de laboratório e, mais tarde, em seres humanos, ele pegou da física a palavra estresse. O termo significa o desgaste sofrido pelos materiais expostos a algum tipo de pressão ou força. Naquele momento, Hans deu a luz a um dos grandes vilões do mundo moderno: o estresse.

Na época, as idéias de Hans viraram assunto nas rodinhas científicas e acadêmicas. Setenta anos depois da publicação do pesquisador canadense, sua descoberta se tornou um assunto cotidiano. Sua popularização se deu à medida que homens e mulheres sentiam seus efeitos. Hoje, ninguém questiona, as pessoas vivem muito mais estressadas do que há 70 anos. A explicação para isso é a infinidade de agentes estressores que passaram a fazer parte do nosso dia-a-dia. O mundo se tornou mais complexo. A carreira profissional, antes administrada pela empresa, agora é problema de cada indivíduo. As companhias também mudaram. Quer um exemplo? Vamos pegar uma única indústria: as montadoras de automóveis. Há sete décadas, GM, Fiat e Ford figuravam entre os maiores empregadores do mundo. Hoje, depois de passar por reengenharia (mudança de processos), downsizing (redução de pessoal) e terceirização, elas continuam demitindo seus funcionários para equacionar o custo de produção.

Essa não é uma realidade somente das montadoras. As organizações de outros setores hoje estão mais enxutas. Não há espaço para o profissional mediano. Sobrevive no mercado de trabalho o profissional que tem empregabilidade. Outro fator que tem de ser levado em conta é a entrada massiva da mulher no mercado de trabalho. "Elas também querem ser gerentes, diretoras e presidentes", diz a psicóloga gaúcha Ana Maria Rossi, presidente no Brasil da International Stress Management Association. Elas, portanto, estão na disputa pelo crescimento profissional, outro estopim para o estresse. Por isso, marido e mulher dividem as mesmas angústias com relação à carreira.

Há ainda o fator velocidade. Vivemos num mundo mais rápido. Contribuiu muito para isso a tecnologia. Antes do e-mail, uma carta envi ponto final ada do Brasil para os Estados Unidos levava de dez a 14 dias para chegar ao destinatário. O correio eletrônico abreviou esse período para uma questão de segundos. "Após tantas mudanças no mundo moderno, a grande pergunta agora é: como lidar com o estresse de maneira saudável?", diz Ana Maria Rossi. O conselho da antropóloga americana Susan Andrews, estudiosa do estresse, é: aprenda a intercalar os períodos de tensão, que são essenciais para o desempenho, com pausas de relaxamento para se recuperar. Afinal, quem não se permite descansar acaba pifando.

ESTRESSE NA MENTE
Veja quem foram os cientistas que mais contribuíram para o entendimento do estresse no Brasil e no mundo:
1915
Walter Bradford Cannon, psicólogo e neurologista americano da Escola de Medicina da Universidade Harvard, cria a expressão "fight or flight" (algo como "lutar ou fugir") para definir o comportamento humano em situações de tensão. Na mesma época, Henry Ford experimenta as primeiras linhas de produção em suas fábricas. As linhas melhoraram as condições de trabalho, mas inseriram uma nova variável no ambiente profissional: a produtividade.
1935/1936
O cientista Hans Selye usa pela primeira vez a palavra estresse para definir as reações do corpo diante de situações de pressão. No mundo corporativo, os consultores são as estrelas em ascensão. Preocupadas em profissionalizar seus processos de gestão, as companhias pagam até 500 dólares por dia para profissionais como James McKinsey, professor da Universidade de Chicago e fundador da consultoria McKinsey (1926). A ordem é otimizar o tempo de trabalho.
1960/1970
O pesquisador Richard Lazarus, da Universidade de Berkeley, na Califórnia, publica o livro Psychological Stress in the Workplace. Richard traz a questão do uso da tecnologia como um fator gerador de estresse no ambiente de trabalho. Com a entrada da tecnologia nas grandes organizações, o mundo corporativo se torna mais veloz.
1980
O psicólogo James Quick, da Universidade do Texas, publica em 1984 o livro Organizational Stress and Preventive Management (ainda não traduzido para o português) e introduz a discussão sobre o estresse no universo corporativo. No final da década de 80, o professor Michael Hammer, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, cria o termo reengenharia. Na prática, a reengenharia fez com que as empresas reduzissem drasticamente o número de funcionários.
1990
Um grupo de cientistas da universidade americana Carnegie Mellon, liderados pelo psicólogo Sheldon Cohen, aponta os efeitos prejudiciais do estresse para a saúde. Em 1993, a psicóloga Marilda Lipp monta o primeiro laboratório de pesquisa de estresse no país. Os meados da década de 90 foram frenéticos para o antigo gerente, que fazia carreira em uma única empresa. O mercado passa a exigir executivos mais jovens, flexíveis e que pensem em carreiras globais.
2006
Os estudos mais recentes comprovam a importância das técnicas de relaxamento, respiração, massagem e meditação no combate aos efeitos nocivos do estresse. Segundo o psicólogo americano James Quick, a prevenção aos efeitos ruins do estresse foi uma das áreas em que mais se avançou desde a publicação do artigo de Hans Seley. "Dobramos nossa expectativa de vida nos últimos 70 anos. E isso considerando que vivemos num mundo mais complexo", disse James Quick à VOCÊ S/A.