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Régis Filho

O inferno das telecom

A remuneração é alta, mas a carreira em telecomunicações é dureza. Quem sobrevive ao estresse no setor enfrenta qualquer desafio

Por Anne Dias

Durante um ano e meio, o engenheiro de produção Wellington Moraes, de 32 anos, trabalhou na empresa de telefonia celular Vivo, de São Paulo. Wellington tinha um cargo bacana e atuava em uma área próspera: era gerente de internet. Tinha também cinco funcionários e uma empresa terceirizada sob seu comando. Era ele quem cuidava de produtos-chave da Vivo, como o site, a loja virtual e o atendimento aos clientes. As atividades eram desafiantes. Só que o clima era tenso. Cada falha no sistema e os clientes ligavam ou mandavam e-mail reclamando. Pior que isso acontecia todos os dias, o dia todo. A relação com os colegas também era complicada. Em busca de soluções rápidas, os executivos viviam na base da competição. "Era pesado", diz o engenheiro. "Telefonia é um setor muito nervoso." Para completar o cenário, Wellington conta que nem toda decisão da diretoria chegava ao conhecimento das equipes. Atualmente, o engenheiro é gerente de e-commerce do portal UOL. Foi para lá em meados de 2005. Procurado pela VOCÊ S/A, o RH da Vivo informou apenas que, "por questões estratégicas, preferia não participar da reportagem". A Vivo está passando por um período turbulento. O braço de telecomunicações do grupo português Sonae fez uma oferta para comprar a Portugal Telecom, que controla a Vivo no Brasil junto com a espanhola Telefônica. Se isso acontecer, a empresa de telefonia será vendida imediatamente -- daí a tensão da atual diretoria.

O nervosismo é bastante comum nesse mercado, que, aliás, é enorme. São 42 milhões de linhas fixas e 86 milhões de telefones celulares espalhados pelo país. Em tese, tem cliente para todo mundo. Mas fusões, novos competidores, tecnologias cada vez mais avançadas, demissões e consumidores que buscam alternativas para reduzir a conta de telefone tiram o sono dos profissionais que trabalham no setor. Dois exemplos concretos da tensão que agita o segmento:

1) No Procon de São Paulo, as empresas de telefonia foram responsáveis por 18% das 17 000 reclamações feitas em 2004, ano do último levantamento consolidado. Só perdem para os bancos, que ficaram com 19% das queixas.

2) No começo de fevereiro, a Brasil Telecom demitiu 800 de seus 6 700 funcionários. A razão foi o ganho de eficiência, principalmente depois que a empresa percebeu que os resultados com telefonia fixa estão caindo.

Agora, mais uma novidade está mexendo com os executivos que trabalham especificamente com telefonia fixa: a telefonia por internet, que pode reduzir drasticamente as contas de longa distância. Fora isso, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) aprovou em dezembro o regulamento do Acesso Individual Classe Especial (Aice). O Aice é um serviço pré-pago para uso residencial. A assinatura custará cerca de 16,50 reais, sem os impostos, enquanto a assinatura tradicional fica em torno de 35 reais. Não se sabe ao certo o impacto que a pré-paga trará para as operadoras. O fato é que as empresas têm visto sua rentabilidade cair nos últimos anos. A preocupação, portanto, é grande. "O problema é que as operadoras pararam de crescer", diz Jean-Claude Ramirez, sócio da consultoria Bain & Company, de São Paulo.

Em abril do ano passado, a Oi, operadora de celular que atende a 16 Estados (do Rio de Janeiro até Roraima), tinha 12% do mercado. Fechou dezembro com 10%. Ou seja, em oito meses a empresa perdeu dois pontos percentuais. Entre 2004 e 2005, a espanhola Telefônica, operadora de telefonia fixa com base em São Paulo, teve basicamente a mesma quantidade de linhas em serviço (12,4 milhões). Esses números indicam que mais pressão recairá sobre os executivos do setor. "As empresas poderão perder seu espaço do dia para a noite", diz Betania Tanure, professora da Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte. Nos últimos dois anos, Betania coordenou uma pesquisa patrocinada pelo Banco Real com profissionais de todo o Brasil. Foram feitas 300 entrevistas individuais e outras mil quantitativas (10% dos entrevistados eram de telefonia). O resultado foi estarrecedor. "Quem trabalha nas telecom está no pico do estresse", diz a professora.

Os profissionais da área trabalham facilmente 12 horas por dia, e há quem fique mais de 15 horas no escritório. Muitos têm o "benefício" de um celular gratuito, mas, em contrapartida, podem receber ligações da empresa a qualquer hora do dia, da noite e até nos fins de semana. "A alta competitividade deixou o setor com alto nível de estresse, o que mostra que ele ainda não encontrou seu eixo", afirma Betania. Nesse contexto de pressão, muitos executivos dizem que sua passagem pela telefonia é transitória. Tanto que a rotatividade média é de 10%. Ou seja, em um ano, de cada cem pessoas, dez trocam de emprego. Em qualquer outra indústria, 5% já é considerado um nível alarmante. A pressão é tanta que eles agüentam o estresse por um determinado período, geralmente ligado a uma meta de formação de poupança. Quando os bônus deixam de valer a pena, dão tchau para a empresa.

O setor de telecom tradicionalmente paga bem. Mas isso não mantém os talentos. Nos últimos meses, a Tim e a Vivo anunciaram vagas para executivos de marketing. Os salários variavam de 25 000 a 30 000 reais, sem contar os bônus. Mas os headhunters estão enfrentando dificuldade para preenchê-las. Qual explicação? "Os executivos não agüentam a pressão. A concorrência no setor é acirrada, as crises são intensas e muitas vezes as políticas internas das empresas são confusas", diz Francisco Britto, sócio diretor da Boyden, empresa de headhunting de São Paulo. Isso mostra que foi-se o tempo em que as pessoas olhavam apenas o contracheque para tomar a decisão de mudar de emprego. Por isso a rotatividade no setor de telefonia é alta, mesmo oferecendo bônus que variam de quatro a 18 salários num ano bom.

É claro que também existe quem goste do setor. Mas até esse pessoal torce o nariz, porque não é fácil crescer nas empresas. A psicóloga Derlene Santesso, de 43 anos, de São Paulo, ficou quase quatro anos na Telefônica. Foi chamada para o cargo de superintendente de RH e nele permaneceu durante todo esse período. "Eu ainda poderia crescer na Telefônica, mas não sei quanto tempo levaria. O convite para mudar de emprego chegou na hora certa", diz Derlene. Em maio de 2005, ela não hesitou em aceitar uma proposta da Medial Saúde para ocupar a diretoria executiva de recursos humanos, cargo que está ligado diretamente à presidência.

A Telefônica foi a única empresa do seu segmento que entrou no Guia EXAME-VOCÊ S/A ­ As Melhores Empresas para Você Trabalhar de 2005. A ressalva apontada pelo guia, que elege as 150 empresas com o melhor clima organizacional do país, foi a de que cada vice-presidência agia como se fosse uma empresa independente, o que estava gerando muitos conflitos internos. "Essa é uma situação que precisa ser melhorada na empresa. Estamos em um negócio em transformação e queremos mudar para melhor", diz João Roberto Modugno, diretor de desenvolvimento de RH da Telefônica no Brasil.

Mas que tipo de executivo se dá bem em telefonia, afinal? Os agressivos em primeiro lugar. Nesse caso, a família precisa ser avisada de que o profissional trabalhará muito, sacrificando horas de lazer, para ficar disponível sempre que a empresa precisar dele. E quem está no setor de telefonia fixa precisa ter uma mentalidade um pouco diferente de quem vai para a telefonia móvel. "Nas operadoras fixas, o planejamento ainda vale alguma coisa. Já nas empresas de celular,  é preciso ser dinâmico o tempo todo, ter sacadas rápidas", diz Marcelo Fernandes, gerente da empresa chinesa de telecom Huawei.

Durante os primeiros anos pós-privatização, as empresas buscavam seus executivos em outros setores, como varejo e bancos. Agora não é mais preciso. Segundo o responsável por mídia e alta tecnologia da consultoria Accenture, de São Paulo, Petrônio Nogueira, é preciso ter basicamente três características para se dar bem no setor: ser empreendedor, ser líder e ter um forte embasamento técnico. Pode até parecer que em telefonia a tecnologia conta mais para as empresas do que ter os melhores talentos. Não é bem assim. Gente eficiente faz diferença em qualquer lugar e mais ainda quando o cenário é altamente competitivo, como é o caso.

Equipamento sozinho não resolve nada. Tanto é que algumas operadoras já começaram a investir em seu pessoal. A Telemar, por exemplo, vai destinar 15 milhões de reais até o ano que vem para formar líderes. "As empresas precisam de gente para superar umas às outras", diz Luís Minoru Shibata, diretor para a América Latina da consultoria Yankee Group. Muitas companhias de tefefonia aprenderam isso na marra. Outras ainda acreditam que só a tecnologia pode torná-las mais fortes no mercado. Mas muitas das queixas feitas no Procon-SP poderiam ser resolvidas simplesmente com um bom atendimento da operadora. Se, apesar desse cenário, você ainda deseja trabalhar numa telecom, seja forte. É certo que você vai encontrar muito desafio pela frente -- e que, se superá-los, vai estar preparado para qualquer outra empreitada na carreira.   

LIGAÇÃO PERIGOSA
Nem todo executivo gosta ou se dá bem na telefonia. Veja o perfil de quem se adapta ao setor:

Os altamente competitivos e agressivos. Só assim o profissional consegue se acostumar com as tantas mudanças tecnológicas e societárias.

Os líderes que sabem guiar grandes equipes. E reconhecem quando uma batalha foi perdida.

Os flexíveis. Quem é sistemático não consegue acompanhar a velocidade do setor.

Os empreendedores. Como as mudanças tecnológicas são muito rápidas, os executivos precisam ser proativos, engajados nos projetos e conhecedores do mercado consumidor.

"NINGUÉM TEM TEMPO PARA TER ESTRESSE"
O presidente da Brasil Telecom, Ricardo Knoepfelmacher, simplificou o próprio nome para Ricardo K. Economista de 39 anos, ele é assim mesmo, muito prático. No começo de fevereiro, a empresa demitiu 800 de seus 6 700 funcionários, para ganhar eficiência. Quando concedeu esta entrevista à VOCÊ S/A, no dia 14 de fevereiro, Ricardo tinha chegado de Nova York naquele dia, numa viagem que durou pouco mais de um fim de semana. "Fui e voltei em classe executiva, porque cortamos a primeira classe para os executivos", explicou. Antes de chegar à presidência da Brasil Telecom, em setembro, Ricardo foi vice-presidente do Citibank, trabalhou na consultoria McKinsey, ajudou a reestruturar companhias como a Caloi, montou uma empresa de transmissão de dados corporativos e uma gestora de investimentos. Hoje, se declara totalmente apaixonado pelo setor e pela empresa. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

A TELEFONIA É O SETOR MAIS NERVOSO EM COMPARAÇÃO AOS OUTROS?
Há segmentos em que a previsibilidade é altíssima. Como consultor, trabalhei para uma empresa de elevadores. Lá, a tecnologia era a mesma e o crescimento estava ligado ao crescimento do PIB. Em telecom a tecnologia é muito rápida, ninguém sabe o que será do setor em dez anos. Tudo pode mudar e aí muda seu jeito de trabalhar. O executivo deve estar atualizado e responder rapidamente às novas ameaças.

COMO ESTA SEU NIVEL DE ESTRESSE?
Estou bem. Estamos com um megadesafio, em uma empresa com um histórico de conflitos societários que não nos interessa remoer. Nosso foco é na agenda positiva. O modelo de negócios no setor está mudando tão rápido que precisamos de agilidade e flexibilidade, características que eu desenvolvi ao longo da minha carreira. Mas estou me divertindo muito.

QUANTAS HORAS TRABALHA POR DIA?
Muito. Minha família mora em São Paulo e eu em Brasília. Então, não fico com a consciência pesada de chegar tarde em casa. Trabalho quase até as 11 horas da noite. Umas três vezes por semana temos uma reunião que começa nesse horário com os oito principais executivos para dizer como foi o dia.

E NESSAS HORAS OS EXECUTIVOS DIZEM QUE ESTÃO ESTRESSADOS?
Não tem isso não. Ninguém tem tempo para ter estresse. Se estiver, não pode trabalhar conosco. A adrenalina é alta. Isso é necessário nesse início, para a gente conseguir implementar grandes mudanças.

O QUE É MAIS IMPORTANTE: A TECNOLOGIA OU AS PESSOAS?
A tecnologia não resolve o problema de uma empresa. Tecnicamente temos muita capacidade e limitações regulatórias. Mas também temos uma equipe de engenharia que desenvolve inovações, como o telefone híbrido, uma mistura de fixo com celular, que vai atenuar a queda das ligações provocadas pelo VoIP -- chamadas via internet.

O QUE A EMPRESA FAZ PARA ATRAIR OS MELHORES TALENTOS?
Quando houve a privatização, os técnicos e engenheiros já eram muito bons. Hoje temos programas de mestrado com a Universidade de Brasília para nossos executivos e também vamos para Harvard, MIT e Standford, para atrair profissionais.

O QUE VOCÊ VISLUMBRA PARA A SUA CARREIRA?
A Brasil Telecom é a minha menina-dos-olhos. O meu grau de dedicação e de paixão pela empresa é tão grande que eu não estou fazendo nenhum plano para depois daqui.

Veja no site mais trechos da entrevista com o CEO da Brasil Telecom