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O trabalho aterroriza a saúde

A vida profissional nunca fez tanta gente adoecer. Confira os males mais comuns e previna-se

Por Tatiana Schibuola

Eduardo Guedes, de 35 anos, gerente de marketing do laboratório EMS-Sigma Pharma, foi parar na UTI por causa de problemas cardíacos. Rosana Xavier Bazaglia, de 40 anos, gerente nacional de vendas da Editora Atlas, sofre com constantes dores de cabeça, insônia, falta de apetite, dores na coluna e tendinite. Nos dois casos (veja quadros a seguir), o trabalho é o grande vilão por trás dos problemas de saúde. Num cenário marcado por alta competitividade, redução da força de trabalho, contratos temporários e aumento da mão-de-obra terceirizada, o corpo humano padece. "Em 33 anos de carreira, nunca vi tanta gente adoecendo por causa do trabalho, direta ou indiretamente", diz René Mendes, presidente da Associação Nacional de Medicina do Trabalho, com sede em Belo Horizonte (MG). Não é difícil entender por quê. Jornadas de dez, 12, 15 horas por dia somam-se ao acúmulo de funções, forte pressão por resultados, pouca estabilidade e hiperestimulação do cérebro. Em condições tão desfavoráveis, a taxa de incidência do estresse cresce 1,5% ao ano. E aí é que está o perigo.

No Brasil, nada menos que 70% dos profissionais apresentam sintomas negativos do estresse. A lista de males inclui desde tensão muscular e taquicardia até casos mais graves, que resultam em esgotamento físico e mental. "Algumas pessoas são mais fortes. Outras têm mais risco por causa de sua história psicológica e biológica. Elas tendem a ficar doentes com mais facilidade", explica o consultor norte-americano James Campbell Quick, especialista em estresse e diretor da academia de liderança da Universidade do Texas, nos Estados Unidos. O certo é que ninguém está imune. Cada vez que somos submetidos a uma situação adversa ou desafiadora, nosso corpo se prepara para reagir. Quando esses estímulos são muito freqüentes, o organismo não consegue eliminar seus efeitos. E o estresse vira uma ameaça. Confira, a seguir, algumas das principais doenças associadas ao trabalho e ao estresse que ele provoca.

DOENÇAS CARDIOVASCULARES
Você sai de casa atrasado, sem tomar café-da-manhã. Almoça um sanduíche gorduroso na mesa do escritório. Passa a tarde em reunião, tomando café. Belisca uma coxinha no fim da tarde. Chega em casa supercansado e, mais uma vez, deixa a ginástica para depois. E, como os filhos já estão dormindo, não tem nem sequer um momento para relaxar com eles. Sem se dar conta, em um só dia você reuniu uma série de fatores de risco para doenças como hipertensão, arteriosclerose (acúmulo de placas que entopem as artérias), arritmia cardíaca e até mesmo infarto. E aí está o problema do trabalho no escritório: ele pode se transformar no maior fator de risco para as doenças cardiovasculares, porque favorece a má alimentação (que causa obesidade e acúmulo de colesterol) e também a falta de lazer e de momentos de relaxamento (que ajudam a balancear os efeitos do estresse).

"Uma pesquisa mostrou que o estresse prolongado aumenta a reatividade do sistema nervoso simpático, levando à liberação de maiores quantidades de adrenalina", explica Alex Botsaris, médico e autor de O Complexo de Atlas ­ E Outras Síndromes do Estresse Contemporâneo (Editora Atlas). A adrenalina é o neurotransmissor responsável, entre outras coisas, pelo aumento da função cardíaca e respiratória, além da elevação da glicemia. A conseqüência de doses exageradas é uma maior predisposição a palpitações, crises hipertensivas, dilatação crônica dos brônquios e, em casos mais graves, acidente vascular cerebral e infarto do miocárdio.

Outro fator preocupante: já existem estudos que associam uma maior incidência de doenças coronarianas a um indivíduo muito comum nos escritórios, apelidado de tipo A -- em sua maioria homens, competitivos e ávidos por ascensão social. "Esse tipo de comportamento levaria a um fluxo constante de adrenalina e noradrenalina, que, associado ou não a outros fatores de risco, seria o principal culpado pelas doenças coronarianas", afirma Paul J. Rosch, presidente do American Institute of Stress, em Nova York, no livro Stress e Qualidade de Vida no Trabalho ­ Perspectivas Atuais da Saúde Ocupacional (Editora Atlas), que assina em parceria com Ana Maria Rossi, presidente nacional da International Stress Management Association (Isma), e Steven L. Sauter, do Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional (Niosh), nos Estados Unidos.

MENTE EM PERIGO
Conviver com a constante sensação de que não há tempo suficiente para realizar as tarefas do jeito certo, de que o presidente não vai com a sua cara ou de que é impossível alcançar as metas propostas pelo cliente pode ser um gatilho para desenvolver a depressão em quem já tem predisposição genética. "Muita tensão mental causa uma redução do estoque de neurotransmissores no cérebro, especialmente a serotonina, o que resulta em depressão", explica o médico Alex Botsaris. Ela pode ser leve -- como no caso do profissional que vive cansado, queixando-se da vida e pensando que todo mundo está contra ele -- até tornar-se incapacitante: a pessoa não tem vontade de sair da cama, chora, pensa na morte e, em casos extremos, comete o suicídio.

A depressão também pode manifestar-se sob a forma de síndrome do pânico. "Há 30 anos, ela era praticamente desconhecida. Hoje, tornou-se uma epidemia", diz Alex Botsaris. Não é à toa que atinge em cheio quem trabalha em grandes organizações. Estudo da University Graduate School of Medicine, do Hospital Municipal de Toyonaka e da Konan Women's University, no Japão, mostrou que o risco de um ataque de pânico é cinco vezes maior nos executivos com antecedentes de depressão e três vezes maior naqueles que passaram por uma situação de estresse recente. Quem sofre dessa síndrome tem expectativas altas, necessidade de controlar a situação e quase sempre carrega a competência extrema como atributo comum. De uma hora para outra, a pessoa se sente incapaz de dirigir, passear no shopping, andar de elevador... Em determinados momentos, tem taquicardia, falta de ar e acha até que vai morrer.

Outra manifestação típica de quem está no mercado de trabalho é a Síndrome do Burnout, que já atinge 30% dos profissionais que sofrem de estresse e representa o nível mais alto da doença. Trata-se de uma espécie de apagão emocional, que ocorre, por exemplo, quando a pessoa está sobrecarregada, não tem controle sobre o trabalho, não recebe recompensas ou perde a promoção para um colega que considera menos capaz. Os sintomas são fadiga, irritabilidade, cinismo, sarcasmo, agressividade verbal, ansiedade e queda da auto-estima. Se a doença não é identificada, pode resultar em demissões injustas. "Não devemos confundir os workaholics com pacientes com Burnout. Os primeiros são realistas com relação à competitividade. Os outros não compreendem que o insucesso nem sempre é questão de incompetência", compara o psiquiatra Elko Perissinotti, chefe da equipe de psiquiatria do Hospital e Maternidade São Luiz, em São Paulo.

DORT
Nos Estados Unidos, são gastos anualmente 117 bilhões de dólares em custos diretos e indiretos do tratamento de doenças osteoarticulares e osteomusculares relacionadas ao trabalho (Dort) -- conjunto de doenças degenerativas que atacam os nervos, os músculos e os tendões. "As lombalgias e cervicalgias, ou dores de coluna crônicas, são responsáveis por 80% das queixas de Dort nas empresas", diz Evelin Goldenberg, professora-coordenadora de pós-graduação em reumatologia com ênfase ocupacional do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Depois, vêm a síndrome do túnel do carpo (que tem como principal sintoma o formigamento da mão), a tenossinovite (inflamação e degeneração do tendão e da bainha do punho e do antebraço), a epicondilite (inflamação do cotovelo) e tendinoses (degenerações do tendão) dos ombros. A maioria dessas doenças tem relação direta com a ergonomia. E, principalmente, com o estresse. Evelin cita um estudo realizado no Japão, que comparou dois grupos. Um deles trabalhava com mobília adequada, porém com um chefe tirano. O outro, em condições físicas precárias, mas com maior controle sobre os resultados e com um chefe compreensivo. "Depois de algum tempo, era o primeiro grupo que apresentava mais casos de Dort", conta Evelin.

CEFALÉIA TENSIONAL
Imagine a sensação de ter uma faixa apertada, comprimindo toda a sua cabeça. É o que ocorre quando você sofre de cefaléia tensional, contração da musculatura da cabeça. Um estudo dinamarquês publicado este ano no European Journal of Epidemiology (publicação médica européia especializada em estudos epidemiológicos) mostrou que, nos últimos 12 anos, esse tipo de dor de cabeça tornou-se cada vez mais comum, enquanto a enxaqueca, causada por fatores hereditários, mantém-se estável. A culpa, mais uma vez, é do estresse, um dos principais responsáveis pelo crescimento da doença.

SINDROME METABOLICA
Há indícios de que o estresse relacionado ao trabalho seja um fator determinante dessa síndrome, uma espécie de círculo vicioso, com acúmulo de gordura na barriga, diminuição da sensibilidade das células à insulina, aumento dos níveis de triglicérides e colesterol ruim, diminuição do colesterol bom e hipertensão. Tudo isso favoreceria o aparecimento de doenças do coração e de diabetes tipo 2. Os dados são do Departamento de Psicologia da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, e foram apresentados no V Congresso de Stress da Isma Brasil, realizado em Porto Alegre, em junho.

PROFISSIONAIS EM PERIGO
Nada menos que 58% dos profissionais atribuem o estresse ao trabalho. Pesquisa realizada pela Isma Brasil com 752 profissionais de São Paulo, Belém e Porto Alegre identificou os principais sintomas do estresse ocupacional. Confira:

SINTOMAS FISICOS
86% têm dores musculares (incluindo a cefaléia tensional)
69% têm cansaço crônico
35% têm insônia
23% têm distúrbios gastrointestinais

SINTOMAS EMOCIONAIS
81% relatam ansiedade
78% relatam angústia
71% relatam irritação
52% relatam raiva

SINTOMAS COMPORTAMENTAIS
46% relatam consumo exagerado de álcool e cigarros, e ainda praticam automedicação
43% ficam mais agressivos
28% têm distúrbios do apetite
21% sofrem de mudanças da libido

FAÇA A SUA PARTE
Não dá para jogar toda a culpa na empresa. A seguir, algumas dicas para tornar o dia-a-dia menos estressante:
- Faça atividade física pelo menos três vezes por semana ou, se possível, diariamente.
- Invista em meditação ou artes marciais, que ajudam a suportar as pressões cotidianas.
- Procure válvulas de escape para a pressão da rotina diária. Pode ser uma massagem ou uma sessão de acupuntura.
- Se as conferences call com executivos espanhóis são fonte de preocupação, inscreva-se num curso de espanhol. Quanto mais capacitado você estiver para cumprir suas funções, mais autonomia terá e menos vai sofrer com o estresse.
- Se sua atividade permitir, negocie flexibilidade de horários com seu chefe. Quem fica um caco pela manhã pode sugerir uma jornada que comece mais tarde e acabe mais tarde também.
- Tenha um acompanhamento médico anual para diagnosticar doenças o mais cedo possível.
- Reconheça que o estresse é inevitável e essencial. O importante é aprender a lidar com ele.
- Aprenda a identificar os sinais de estresse (como respiração mais rápida, músculos mais tensos, pensamentos negativos, mãos suadas ou frias). "Em alguns momentos, é bom trabalhar estressado. Mas você precisa saber até onde agüenta ir e em que momento é essencial parar e recarregar as energias", avisa Ana Maria Rossi, presidente da Isma Brasil.

DE INSONIA A DORES NA COLUNA: O PREÇO DO ESTRESSE
A matemática paulista Rosana Xavier Bazaglia, de 40 anos, é gerente nacional de vendas da Editora Atlas e trabalha na empresa há 22 anos. É a única mulher da organização em cargo de chefia. E sofre por causa disso. "Para mim, ser mulher é um fator estressante. A diferença de salário é brutal. Sem falar que me sinto muito mais pressionada a provar minha competência", afirma. Por conta do estresse e do mobiliário inadequado, ela convive com dores de cabeça, insônia, falta de apetite, dores de coluna e tendinite. Já fez dez sessões de fisioterapia, mas deixou o tratamento de lado porque não tinha tempo. Agora, encontra um certo alívio nas sessões de ginástica laboral realizadas na empresa, duas vezes por semana. "Sinto falta quando a professora não vem", diz. Mãe de dois filhos, Rosana cumpre jornada dupla e não tem tempo para relaxar e cuidar de si mesma nem no fim de semana. "Gostaria de fazer pelo menos uma caminhada."

O CORAÇÃO RECLAMOU E ELE FOI PARAR NA UTI
Há um ano e dez meses como gerente de marketing da linha de genéricos do laboratório EMS-Sigma Pharma, o paulista Eduardo Guedes, de 35 anos, viu seu departamento aumentar consideravelmente. De dois funcionários (incluindo ele mesmo), o time passou para 15. Ele administra uma equipe de altos resultados: está ajudando a fazer a empresa crescer 60% ao ano e responde diretamente para o presidente da companhia. Jura que não leva trabalho para casa nem faz hora extra no fim de semana. Ainda assim, passou por um susto há cerca de dois meses. Sentiu-se mal no escritório e correu para o ambulatório, onde o médico da empresa constatou arritmia cardíaca. Foi levado para o hospital, internado na Unidade de Terapia Intensiva e, como o coração continuava fora do ritmo, levou até choques com desfibrilador para estabilizá-lo. Teve alta dois dias depois. O diagnóstico: estresse, excesso de cigarro e de cafezinhos ao longo do dia, combinados com uma dose extra de perfeccionismo. "Sou muito exigente comigo mesmo, e isso acaba gerando ansiedade", afirma. O problema de saúde deu uma chacoalhada na rotina de Eduardo. Ele largou o cigarro, voltou a caminhar diariamente e passou a fazer ginástica laboral junto com sua equipe. "Eu era o único que ficava sentado", lembra. Também promete retomar seus hobbies: andar de moto e pintar telas com tinta a óleo.