O CAMINHO DA EXPEDIÇÃO
O roteiro: a expedição saiu de São Paulo em direção a Cuiabá, de onde partiu para a Bolívia. De lá, foram para o Peru, onde fica a nascente do Rio Amazonas. Na volta, passaram pelo Chile, Bolívia de novo e voltaram para o Brasil

OS EXPEDICIONARIOS
James Lynch - 50 anos, sócio da consultoria Phoenix Stratagic Financial Advisors
René Delmotte - 52 anos, dono do centro automotivo Avant Motors
João Amaro - 62 anos, executivo da TAM
Toninho Ausenka - 38 anos, dono da gráfica União
Domingos Guerreiro - 50 anos, dono da Auto Peças Domingos
Paulo Demenato - 47 anos, médico oftalmologista, especializado em problemas causados pela altitude
Roberto Liesegang - 38 anos, sócio do escritório de advocacia Xavier, Bernardes e Bragança
Claus Herzog - 41 anos, executivo da MTU, multinacional do setor de aviação
Rick LaRocca - 32 anos, produtor de cinema
1 - TRANSFORME DESAFIOS EM OBJETIVOS
Os Yungas, como são conhecidos os altiplanos bolivianos, estavam na rota. Para atravessá-los, anda-se por uma estrada sem asfalto e com espaço para apenas um carro. Não sem motivos, o local registra o maior número de acidentes fatais por metro linear do planeta. "Andamos ao lado de um precipício de 2 000 metros debaixo de neblina e chuva. Era assustador", lembra João Amaro. Os viajantes não esperavam menos do que isso. O alpinista paranaense Waldemar Niclevicz, que já escalou seis dos maiores picos do mundo e caminhou a pé para a nascente do Amazonas, foi incisivo ao dizer que a viagem de carro seria impossível. Guias locais reforçaram o coro. Em vez de acreditar na voz da experiência, os integrantes da expedição tomaram para si o desafio do pioneirismo. "O resultado serve para mostrar que devemos escolher objetivos além da nossa zona de conforto, planejar bem e nunca perder a fé", afirma James. Suas palavras não precisam de tradução para os jargões corporativos. Quem tem medo e não se reinventa, como reza o guru do mundo dos negócios Tom Peters, não chega ao final da viagem.
2 - PLANEJAR É PRECISO
Além da paixão por desafios pouco ortodoxos, os dois comandantes são metódicos planejadores. Só assim conseguem o que a maioria das pessoas considera impossível. "O cara tem uma precisão milimétrica e tem todas as respostas na ponta da língua", diz João Amaro, sobre James, que traçou, antes da partida, cada metro a ser percorrido. Planejou as paradas, para que o grupo precisasse levar pouca água, comida ou combustível extra, e contou com René para consertar carros e equipamentos em situações extremas. Como em qualquer trajetória profissional, a equipe só chegou lá porque planejou bem e soube lidar com os imprevistos.
3 - ESCOLHA AS PESSOAS CERTAS
Toda vez que a expedição atingia grandes altitudes, Toninho precisava recorrer ao balão de oxigênio. Seu carro, curiosamente, sofria do mesmo mal. Quando subia a grandes altitudes, a embreagem parava. René identificou o problema, mas não conseguiu resolvê-lo por falta de peças de reposição. Pela primeira vez, um imprevisto sem saída imediata. Nesse momento, o espírito de equipe falou mais alto. Ninguém se importou em desempenhar funções que iam além de seu papel na equipe para remendar o carro do jeito que dava. "Todos estavam prontos para resolver o problema", conta Toninho. Se dentro de uma empresa escolher as pessoas certas é o primeiro grande passo para atingir bons resultados, nessa expedição a máxima também foi válida. "Escolhemos pessoas que arregaçaram as mangas na hora da dificuldade", explica James.
4 - ADMINISTRE O ESTRESSE
Os problemas começaram cedo na expedição: logo que os aventureiros cruzaram a fronteira do Brasil com a Bolívia. Os expedicionários não contavam com a folga da administração aduaneira no carnaval -- quando passaram pela fronteira.
Com o serviço alfandegário fora de funcionamento, eles não conseguiram os documentos necessários para rodar de carro pelo país e corriam o risco de ser deportados e ter os veículos apreendidos pela polícia local. Depois de andar mais de 600 quilômetros ilegalmente, muitos pensaram em desistir. "Foi o dia de maior estresse porque a decisão de um só participante mudaria a história do grupo todo", avalia James. Só depois de muita conversa todos chegaram ao consenso de que deveriam seguir viagem mesmo sem os vistos exigidos. "A capacidade de contornar situações que não estavam no plano multiplica suas chances de ser bem-sucedido", diz James.
Para isso, é essencial manter a calma e lembrar que a solução aparece quando os envolvidos têm serenidade para enxergá-la. O desfecho da situação prova a tese. A expedição conseguiu legalizar sua situação quando, ao fazer uma parada e tranqüilizar os ânimos, James começou a conversar com um habitante local. Descobriu que ele tinha conhecidos na delegacia e conseguiu o visto. Ele é o exemplo do líder que soube contornar os conflitos. Teve tranqüilidade para buscar uma saída alternativa e evitou que a desistência de um participante colocasse em risco o sucesso da aventura.
5 - O LIDER TEM QUE OUVIR
Criterioso, metódico, preciso e organizado são alguns dos muitos adjetivos que sempre acompanham James Lynch. O dia 9 de fevereiro serviu para adicionar mais um a essa lista: flexível. A expedição havia andado mais de 300 quilômetros em condições extremas, precisava de mais 40 para cumprir a meta, mas estava com as forças esgotadas. "Naquele momento, desisti do meu planejamento em nome da equipe", afirma James. "Não existia uma hierarquia rígida dentro do grupo e precisávamos decidir tudo de maneira diplomática." Saber parar no momento certo deu ao líder a confiança irrestrita dos outros membros da equipe. Se precisassem refazer todo percurso, não teriam dúvidas. Elegeriam James novamente para organizar a expedição. Precisa dizer mais? Farol baixo: a equipe mostrou cansaço depois de quase 23 horas na estrada no dia em que chegou à nascente do Rio Amazonas
DETALHES DA AVENTURA
A primeira expedição a chegar de carro à nascente do Amazonas...
... durou 25 dias
... levou dezenas de mapas com escala de 1 por 50 000. Os mapas comuns têm escala de 1 por 4 milhões
... percorreu 7 853 quilômetros
... usou três carros: Toyota Hi-Lux, Toyota Bandeirantes e Land Rover
... levou uma caixa de ferramentas com 70 quilos
... documentou a viagem com 40 horas de vídeo e 1 800 fotos
... enfrentou uma variação de altitude de 300 para 4 800 metros acima do nível do mar em um único dia
... lidou com temperaturas de 38 graus à sombra (um ovo colocado sobre o capô do carro de René Delmotte fritou em 9 minutos)
... subiu a Cordilheira de Chiva, no Peru, onde fica a nascente do rio e atingiu 5 219 metros de altitude
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Desafio: ao lado, a subida dos Yungas. Basta o motorista errar a freada e o carro cai de um desfiladeiro onde quase não se enxerga o fim. Lá de cima, vê-se inúmeros destroços de carros e caminhões engolidos pelo penhasco | |||
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Tecnologia: a foto do GPS foi tirada na hora em que os expedicionários chegaram à nascente do Amazonas. O aparelho mostra que eles estavam a 5 219 metros acima do nível do mar. | |||
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Ao lado, a última travessia de balsa que o grupo fez na Bolívia, antes de entrar nos Yungas | |||
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Companheirismo: quando um carro apresentava algum problema todos paravam para ajudar. | |||
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João Amaro respira com a ajuda do balão de oxigênio ao chegar à nascente do Rio Amazonas | |||
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Dura jornada: à esquerda dois momentos de grande dificuldade. Acima, a equipe passa por um vale onde nenhum carro esteve antes, na subida para a nascente. | |||
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Ao lado, os aventureiros na Bolívia, onde andaram mais de 600 quilômetros ilegalmente | |||
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Farol baixo: a equipe mostrou cansaço depois de quase 23 horas na estrada no dia em que chegou à nascente do Rio Amazonas | |||
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Triunfo: (da esq. para a dir.) Paulo Demenato, Carlos Zarate (guia local) e Roberto Liesegang colocam sua marca na nascente do Rio Amazonas | |||
Para ser os primeiros a chegar na nascente do Rio Amazonas de carro, os aventureiros passaram por três países: Bolívia, Peru e Chile. No meio do caminho, se depararam com índios e povos locais com línguas e costumes muito diferentes. A primeira questão que chamou a atenção do grupo foi a pobreza do povo. A segunda, a riqueza cultural. "Em pleno carnaval, as pessoas que moram na fronteira do Peru com a Bolívia fazem uma mistura de festa católica com costumes locais muito rica", lembra James Lynch, o líder da expedição. Paulistano da Vila Mariana e filho de americanos, James cansou de ouvir os locais querendo conversar com ele em inglês. "Faziam questão de nos tratar da melhor maneira possível e isso incluía falar conosco na nossa língua."
Riqueza cultural: os povos peruanos andam com seus vestidos típicos e impressionam os aventureiros pelo quanto conhecem da história do seu país.
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