Gladys Zrncevich presenciou uma situação parecida. Em uma seleção para o cargo de vice-presidente de uma multinacional americana, ela havia indicado, como um dos finalistas, um profissional de 31 anos, com cerca de 40 quilos acima do peso ideal. Para Gladys, o jovem executivo era o candidato mais bem preparado. Mas não foi o escolhido. "Ele estava ofegante durante a entrevista e, segundo a empresa, passou a impressão de que sua saúde não suportaria o estresse associado à posição oferecida. Sua contratação foi considerada um risco", lembra Gladys. Nem sempre os argumentos são tão explícitos. O consultor Silvio Bugelli, sócio da TCA Consultores, em São Paulo, conta que já testemunhou a desclassificação de um obeso sob o argumento de que o candidato parecia ser "meio mole". "As pessoas não costumam externar o preconceito, mas ele existe, sim", diz.
BOMBA-RELOGIO
Mole, preguiçoso, mentiroso, desleixado... Esses são alguns dos adjetivos nada simpáticos que costumam ser associados aos obesos. Tem mais. "Em geral, eles são rotulados como pessoas que não têm vergonha na cara", diz o endocrinologista Alfredo Halpern, criador da Dieta dos Pontos e chefe do Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital das Clínicas da USP, em São Paulo. Nem sempre, no entanto, o problema é uma questão de desleixo. A obesidade é uma doença de fundo genético, que é estimulada pelo ritmo alucinante do dia-a-dia profissional, pela falta de tempo para refeições saudáveis e atividades físicas.
São considerados obesos aqueles que apresentam índice de massa corporal superior a 30 (veja como calcular essa taxa no quadro Você É Obeso?). Quem está nesse grupo muitas vezes sofre com pressão alta e taxas elevadas de colesterol e triglicérides, que podem levar a enfarte, derrame cerebral, gangrena e, no caso masculino, impotência. E a lista de perigos não fica por aí. "Estudo divulgado nos Estados Unidos indica que, em termos de qualidade de vida, a obesidade significa um envelhecimento de 30 anos", afirma o consultor Ricardo De Marchi, diretor da CPH Health Solutions, consultoria especializada em saúde corporativa, localizada em São Paulo.
Por essas e outras, a obesidade é sinônimo de dor de cabeça para as empresas. A doença significa perda de produtividade associada à falta de motivação e ao absenteísmo, conseqüências dos problemas de saúde enfrentados pelos obesos. Dados da conceituada publicação norte-americana American Journal Health Promotion, especializada em saúde, revelam que, entre os funcionários obesos, há um aumento de 74% nas faltas acima de sete dias e de 61% nos afastamentos de três a seis dias. Essa instituição revela que o sobrepeso e a obesidade representam um acréscimo de 44% nos custos de assistência médica.
A EMPRESA CONTRA-ATACA
Para combater o excesso de peso entre seus colaboradores as organizações lançam mão dos mais diversos artifícios. Nos Estados Unidos, a empresa de telecomunicações Sprint, por exemplo, encomendou um design "antigordura" para seu edifício-sede, no Estado de Kansas. O estacionamento fica a 10 minutos de distância do escritório, os elevadores são pequenos e lentos, enquanto as escadas são espaçosas e agradáveis. Aqui no Brasil, o mais comum são programas que estimulam a perda de peso por meio de tratamentos com nutricionistas e prática de atividades físicas. Foi por conta de uma dessas iniciativas que o publicitário paulista Marcos Gianotti, de 38 anos, gerente de marketing do BankBoston, perdeu 16 quilos em apenas quatro meses, em 2003. Com 1,79 de altura e 91 quilos, ele foi aconselhado pelo médico, num exame de rotina, a iniciar uma dieta. A necessidade coincidiu com a oportunidade. Na época, o banco estava formando uma nova turma de funcionários para participar do programa de emagrecimento do Vigilantes do Peso -- que desde 1996 promove encontros para os funcionários do BankBoston, em São Paulo.
A organização paga 30% do tratamento e divide o restante em até três parcelas, descontadas do salário dos colaboradores. O BankBoston também oferece um plantão telefônico, por meio do qual os funcionários e familiares podem tirar dúvidas referentes à nutrição. "Dificilmente eu teria procurado o grupo se não contasse com a facilidade de freqüentar as reuniões na própria empresa", diz o publicitário. Ele não achava que o excesso de peso atrapalhava sua vida profissional, mas hoje percebe a diferença. Afirma que se sente muito mais motivado para trabalhar e que o fato de ter emagrecido melhorou sua imagem no escritório. "Atitudes como essa inspiram outras pessoas e fazem com que você se torne uma referência de perseverança e disciplina", afirma.
O designer Renato Dantas também se considera uma pessoa melhor agora que veste dez números a menos. Ele lembra que, quando estava obeso, tinha dificuldades para dormir, sofria de falta de ar, ficava sonolento e se cansava rapidamente. Hoje, recuperou o ânimo para trabalhar e tem um ótimo rendimento. Dono do próprio negócio, ele está sempre visitando os clientes, seja para apresentar um novo projeto ou avaliar as ações desenvolvidas. Também executa todo o trabalho de design da empresa e mantém uma rede de contatos para futuros negócios. "Venho conseguindo mais contratos e produzo bastante, sem perder a qualidade", diz Renato. "Se não tivesse emagrecido, não teria sucesso. Tanto pelo meu ritmo de vida como pela aceitação dos clientes ao vender o meu trabalho."
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ELE PERDEU 102 QUILOS! | ||
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Quando vestia manequim 66, o designer Renato Dantas tinha dificuldade para conseguir trabalho. Depois de uma cirurgia para redução do estômago, ele pesa 78 quilos, é dono de sua própria empresa e faz questão de cuidar do cardápio. Confira: | |
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ANTES |
DEPOIS | |
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PESO: 180 |
PESO: 78 | |
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MANEQUIM: 66 |
MANEQUIM: 48 | |
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REFEIÇÃO TIPICA: * No McDonald's: 2 Big Macs + 2 porções de batata frita + 2 copos médios de refrigerante + sorvete |
REFEIÇÃO TIPICA: * No McDonald's: 1 Big Mac + 1 refrigerante pequeno | |
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* No cinema: 1 pacote grande de pipoca + 1 copo grande de refrigerante |
* No cinema: 1 pacote pequeno de pipoca + 1 água | |
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* Na pizzaria: 1 pizza inteira |
* Na pizzaria: 1,5 fatia de pizza | |
ROTINA SAUDÁVEL
Dicas práticas para perder peso no próprio ambiente de trabalho.
Mesmo que sua empresa não ofereça um programa de emagrecimento, você pode desenvolver alguns hábitos que ajudam a perder peso. Foi o que fez um grupo de 30 funcionários da unidade brasileira da Lexmark, multinacional norte-americana do setor de tecnologia. Todo mês eles fazem uma "vaquinha" para comprar frutas frescas, que são entregues diariamente na empresa. Assim, eles garantem um lanche saudável e nutritivo, duas vezes por dia.
Entre os participantes está o presidente da empresa, o mineiro Leonel Costa, de 42 anos. Há quatro anos, ele tinha 12 quilos acima do ideal echegou a perder uma reunião com o CEO da companhia, nos Estados Unidos, por causa de uma crise lombar provocada pelo excesso de peso. "Hoje, eu incentivo todo mundo a manter a forma. E pego no pé de quem não se cuida", brinca. Confira abaixo algumas dicas para combater os quilinhos extras:
1. O ideal é praticar 30 minutos diários de atividades físicas. Você pode dividir esse tempo em três sessões de 10 minutos ou duas de 15.
2. Participe das atividades físicas promovidas pela empresa, como grupos de corrida e caminhada.
3. Sempre que possível, procure usar as escadas em vez do elevador.
4. Estacione o carro um pouco mais longe do trabalho e percorra o resto do caminho a pé.
5. Tente fazer pequenas paradas durante o dia e ande pelo escritório.
6. Evite se sentar logo após o almoço. Faça uma pequena caminhada antes de voltar ao trabalho.
7. Beba água durante o dia em vez de refrigerante ou café.
8. Sempre que possível fale ao telefone de pé.
9. Evite conversar com os colegas de escritório por e-mail. Vá até eles pessoalmente.
FONTES: DOUGLAS ANDRADE, MEMBRO DO CENTRO DE ESTUDOS DO LABORATORIO DE APTIDÃO FISICA DE SÃO CAETANO DO SUL (CELAFISCS), E AMERICAN COLLEGE OF OCUPATIONAL AND ENVIRONMENTAL MEDICINE
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