
Administre suas idéias
Para o economista
José Cláudio Terra, cada vez mais, o que vai determinar o sucesso da sua carreira e do
seu negócio é a gestão do conhecimento
Por Márcia Rocha
Na era da informação, você precisa ter mais do que boas idéias:
precisa largar na frente. Deve divulgá-las rapidamente em todas as áreas da empresa,
descobrindo - e aprimorando - o que a concorrência ainda não conhece. Para transformar
conhecimento (individual e coletivo) num ativo, é necessário administrar o binômio
tempo e produção de maneira cada vez mais afiada. É esse o tema do livro Gestão do
Conhecimento - O Grande Desafio Empresarial (Ed. Negócio), fruto da tese de doutorado em
engenharia de produção do economista e engenheiro paulistano José Cláudio Terra, que
também é mestre em administração de empresas. Atualmente, Terra vive com a mulher
Janine em Toronto, no Canadá. Enquanto ela faz seu MBA, ele trabalha no projeto de um
novo livro. Vai escrever sobre portais corporativos de conhecimento - uma tendência
recente entre as empresas de ponta que estão usando a Internet para disponibilizar seus
bancos de dados a todos os funcionários, estimulando assima comunicação entre eles.
Nesta entrevista a VOCE s.a., o economista conta por que, daqui para frente, o
conhecimento será um fator ainda mais decisivo para o sucesso das empresas e dos
profissionais modernos.
O senhor diz que
conhecimento e competitividade andam juntos. Que tipo de conhecimento é esse?
O conhecimento que é de domínio público não oferece nenhuma vantagem competitiva. A
indústria aeronáutica, a farmacêutica e a de microeletrônica são estritamente
baseadas em conhecimento. Elas têm maior potencial de crescimento e de gerar bons
empregos, além de dar mais retorno para os acionistas e para a sociedade. É por isso que
o Brasil e o Canadá vivem brigando por causa da Embraer e da Bombardier. Nos países
ricos, a agricultura e o setor manufatureiro, em que predomina o trabalho físico, estão
perdendo espaço na economia.
Quanto mais escasso um
produto, maior o seu valor. Com o conhecimento acontece o mesmo?
Sim. Pessoas que tenham competências específicas deverão ser cada vez
mais valorizadas. Por outro lado, toda a sociedade se beneficia com a divulgação do
conhecimento. O saber tem uma propriedade interessante: mais conhecimento para você não
significa menos conhecimento para mim.
O que deve mudar,
então, na relação que o homem tem com o conhecimento?
Atualmente, parece haver uma convicção geral de que, com o tempo, tudo
será possível. Não sei se devemos esquecer esse otimismo, mas o fato é que o
conhecimento em si não é neutro. Ele afeta profundamente nossa relação com o meio
ambiente, com nossos semelhantes, com o poder etc. Acho que estamos um pouco hipnotizados
pela evolução proporcionada por ciências como a física, a biologia e a matemática. É
preciso que as ciências sociais, que representam o lado crítico, também recebam o mesmo
destaque e apoio. Empresas que se deixam levar por seus engenheiros e técnicos de
informática acabam esquecendo a razão final de seus projetos. Eles agregam mesmo valor
para a organização? O consumidor vai achá-los úteis?
Em seu livro, o senhor
fala que existem sete dimensões na gestão do conhecimento. Quais são elas?
Cheguei a essa conclusão depois de uma pesquisa realizada com cerca de
600 gerentes e diretores de médias e grandes empresas que estão no Brasil. As
organizações que são capazes de gerir conhecimento atuam nas seguintes dimensões:
1 Estratégia - há um consenso sobre os pontos fortes
e as áreas de conhecimento a ser melhoradas. Além disso, todos os níveis
organizacionais conhecem a estratégia da empresa.
2 Cultura organizacional - o aprendizado constante, os
riscos calculados e o compartilhamento de informações são altamente valorizados.
3 Estrutura organizacional - cargos são menos
importantes do que as competências individuais. A estrutura básica da empresa é formada
por equipes de trabalho.
4 Gestão de RH - os processos de seleção são muito
mais rigorosos do que em outras empresas do mesmo setor, o investimento em treinamento é
alto e os salários estão mais vinculados às competências do que aos cargos.
5 Sistemas de informação - o foco da organização
de dados não é o controle, mas o compartilhamento das informações.
6 Mensuração de resultados - as realizações são
medidas sob várias perspectivas (financeira, operacional e estratégica) e amplamente
divulgadas entre os funcionários.
7 Aprendizado com o ambiente - empresas líderes
aprendem constantemente com os clientes e buscam fontes alternativas de conhecimento, como
as universidades e os institutos de pesquisa.
Estamos vivendo a
transição da era industrial para a era da informação. O que a Internet tem a ver com
isso?
A humanidade deu saltos importantes quando foram criadas novas maneiras de
ampliar nossa capacidade de comunicação. Foi assim com a escrita, com a impressão, com
a televisão etc. A Internet aumentou de maneira significativa a comunicação e o acesso
à informação. O conhecimento sempre existiu, mas antes tinha um caráter extremamente
elitista. Com a Internet, esse cenário está mudando.
Como a era da
informação vai afetar o trabalho?
Na era industrial era preciso trabalhar em sincronia total com os outros.
Na era do conhecimento, cada um poderá encontrar o seu padrão de produtividade. Não se
pode exigir que um trabalhador da era do conhecimento tenha suas melhores idéias das 9
às 18 horas. O segredo não é trabalhar muitas horas por dia, mas saber se o que estamos
fazendo agrega valor para nós e para a empresa. Em inglês há uma expressão ótima para
isso: work smart. No Brasil, a era industrial e a da informação coexistem - e isso
representa grandes desafios gerenciais.
Por que o senhor diz
que, atualmente, o foco das empresas não deve ser produzir mais e melhor, mas produzir
algo novo?
É claro que as empresas precisam aumentar e melhorar sua produção, mas o grande desafio
é inovar continuamente. Imagine o que aconteceria se a General Motors aprimorasse o Opala
em vez de lançar outro modelo. Não daria certo, porque o conceito de automóvel mudou e
o mercado precisa ser abastecido com novidades. No fim dos anos 70, as montadoras
demoravam de cinco a sete anos para lançar um produto. Hoje, todas têm planos para fazer
lançamentos em até dois anos. Já se fala até em reduzir esse prazo para um ano e meio.
No Brasil, existem
muitas empresas que colocam em prática a gestão do conhecimento?
As organizações hierárquico-burocráticas ainda são maioria. Isso
porque boa parte das empresas foi criada em uma época em que esse era o único modelo que
existia. Na década de 70 era normal uma grande organização ter 15 níveis
hierárquicos. Mas isso está mudando rapidamente. No Brasil, por exemplo, existe, sim,
uma clara distinção entre as práticas gerenciais das empresas que atuam em áreas ricas
em conhecimento (indústria aeronáutica, farmacêutica, de informática e de
telecomunicações) e as daquelas de setores tradicionais (de papel e celulose,
siderúrgica, de mineração etc.).
Como manter a tensão
criativa para estabelecer um ambiente que favoreça o contínuo aparecimento de idéias?
Eu resumiria essa questão em alguns pontos:
Definir um objetivo difícil, mas não impossível de ser atingido.
Ajudar os funcionários a se manter motivados.
Lembrar a equipe da importância de alcançar essas metas.
Estimular a troca de idéias entre as pessoas, que têm maneiras diferentes de ver
as coisas.
Permitir que todos aprendam com seus próprios erros.
Reconhecer as realizações de cada um.
Ou seja, é preciso colocar o conhecimento tácito, aquele
essencialmente individual, em ação. Para estimulá-lo, as empresas precisam facilitar a
conectividade entre os funcionários - o que não é uma tarefa fácil. Normalmente, elas
criam um banco de dados e pedem aos empregados que coloquem suas idéias ali. Mas qual é
o incentivo que eles têm para fazer isso? Na 3M e na WEG, fabricante catarinense de
motores elétricos, a saída para manter a criatividade dos funcionários em alta é
recompensá-la. Não apenas com dinheiro, mas com prêmios. A recompensa precisa mexer com
o psicológico.
O que uma empresa
precisa fazer para acelerar esse processo de aprendizado, transformando idéias em
conhecimento?
É preciso começar pela alta administração, porque é lá que se formam os valores da
organização e se estabelecem as políticas que vão governar todas as funções da
companhia. É papel fundamental da alta administração valorizar o aprendizado individual
e coletivo, estimular o compartilhamento do conhecimento e manter o foco no cliente. O
grande desafio é preservar a coerência entre o discurso e a prática nas várias
dimensões da gestão do conhecimento. O investimento em ferramentas de informática
também deve fazer parte dessa estratégia. Gerir o conhecimento significa, cada vez mais,
gerir a própria empresa, e isso afeta todas as suas áreas.
Foto: Stephanie Lake/Canadian Press
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