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| Problema seu
- Dezembro/2000 |
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Ética não se bota no currículo. Mas pode ser sua qualidade mais importante Por David Cohen Faz parte da ideologia dos nossos tempos dizer que uma pessoa vale por aquilo que ela faz. Que você é você pelo conjunto dos seus atos. O próprio nome desta revista sugere isto, que você é o seu projeto. É óbvio que essa não é toda a verdade, mas apenas aquilo que a revista quer frisar dentro da realidade. Porque, claro, você vale também pela sua origem, pelas verdades em que acredita, pelo lugar que ocupa, pelo que pensa, sente, fala, aprende, enfim, por tudo o que acontece com você e por tudo o que faz acontecer. E você vale também pelo que não faz. Muitas vezes, é isso o que define uma pessoa: aquilo que ela não está disposta a fazer. Os limites que ela se impõe, as fronteiras que respeita. Essa é, basicamente, a discussão ética. As linhas que você traça em vários planos, como se dissesse: daqui não passo. Há um terreno cinza, está certo, mas quando esse cinza começa a ficar mais escuro você vai desacelerando, depois freando, e finalmente voltando para o lado branco o mais rápido possível. (Ou vira Darth Vader e sucumbe ao lado negro da Força). O não define uma pessoa tanto quanto o sim. A diferença é que o sim - as coisas que você faz - é assertivo, impõe-se. Tem resultados concretos quase imediatos. É visível. O não, nem sempre. Não se determina que uma pessoa é honesta porque ela diz que é, mas porque, numa situação da qual poderia tirar proveito de forma desleal, ela se abstém. Oproblema é que esses limites éticos só costumam ser valorizados nas grandes crises (quando se demonstra algum senso de abnegação ou sacrifício) ou, considerando-se uma vida normal, depois de muito tempo. Às vezes, a vida inteira. Porque a recompensa da pessoa ética é sua reputação, uma reputação construída quando se passa de cabeça erguida pela série de problemas e dificuldades que todo mundo tem. Quando se diz não a comportamentos duvidosos, sempre. Um único ato destoante pode estragar a imagem construída ao longo de vários anos. A ética apresenta um paradoxo: sua recompensa é alta - em estima da sociedade, oportunidades provenientes da sua reputação, admiração dos pares. Mas, se você faz esse cálculo, de que vale a pena ser ético porque o pagamento é bom, já não está sendo muito ético. É por isso também que a propaganda não funciona muito quando se trata de colher as vantagens de ser ético. Ninguém estranha que as pessoas se gabem de ser inteligentes, fortes, bonitas, de terem feito um projeto que deu certo ou saberem negociar como ninguém. Mas soa muito estranho que alguém fique propalando ser humilde, honesto, íntegro. Seria ridículo colocar essas qualidades no seu currículo. Faz parte da imagem de integridade e humildade que ela seja reconhecida pelos outros sem a sua ajuda, até contra a sua vontade. Nos dias de hoje, quando todos os manuais de progresso na carreira aconselham a gritar para Deus e o mundo as suas realizações, é natural que pouca gente preste atenção no único valor que não é gritado com toda a força dos pulmões. Não tem importância. Em primeiro lugar, porque alçar a ética a uma atitude que pode ajudá-lo no mercado de trabalho é na verdade rebaixá-la a um toma-lá-dá-cá. (No fundo, ética é um toma-lá-dá-cá, mas feito com mecanismos inconscientes e de longo prazo, o que o torna nobre.) Em segundo lugar - e eis aí mais um paradoxo do comportamento ético -, porque, em termos de ética, quanto menos a imagem é propagada, mais nítida ela se torna.
David Cohen (dcohen@abril.com.br) é editor de Exame
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