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Presidindo a PRÓPRIA VIDA

Quatro presidentes revelam como administram os compromissos e a cobrança por resultados sem virar escravo da empresa

 19/07/2009

Crédito: Gabriel Rinaldi
André Coutinho, 44 anos, presidente da Omint: mudou de estilo de vida depois de passar mal diante da filha - Crédito: Gabriel Rinaldi
André Coutinho, 44 anos, presidente da Omint: mudou de estilo de vida depois de passar mal diante da filha

Eles são os responsáveis pela qualidade dos produtos e serviços oferecidos pelas empresas que administram e pelos resultados — bons ou ruins — das companhias que presidem. De suas decisões, depende o destino de centenas ou milhares de colaboradores.

No mundo dos negócios, marcado pelos altos níveis de competitividade, uma administração menos do que excelente pode significar perda de mercado para a concorrência e redução dos lucros. Diante da pressão constante por resultados, difícil é se desligar do escritório e reservar o escasso tempo para cuidar da família, da saúde e do lazer.

Nesta reportagem, quatro presidentes de diferentes segmentos, idades e estilos falam sobre as lições que aprenderam para conciliar trabalho e vida particular. Em comum, a constatação de todos eles de que a produtividade e a qualidade de vida aumentaram com a determinação de administrar melhor o tempo dedicado à empresa.

MAIS ATENÇÃO PARA A SAÚDE
André Coutinho, de 44 anos, presidente da Omint, empresa líder no segmento de planos de saúde para as classes A e B, divide a administração de seu tempo em antes e depois de um problema de saúde. O marco que separa sua trajetória aconteceu há dez anos, quando o executivo passou mal na frente da filha de 4 anos. "Pensei que estava tendo um infarto", recorda. A partir dali, ele decidiu que era hora de mudar de vida pelo bem da saúde e da família.

"Quem diz não ter tempo para nada tem preguiça de mudar"

Na época, André trabalhava 16 horas por dia, levava uma vida sedentária e descuidava da alimentação. "Tinha enxaquecas horríveis." Uma rotina que em nada se parece com a vida atual do executivo, que acorda diariamente às 5h da manhã e, antes de ir para o escritório, pratica corrida, musculação e natação em dias alternados. Ele não sai do trabalho depois das 19h e, em alguns dias, ainda encara uma segunda rodada de atividades físicas depois do expediente.

Vinte quilos mais magro, André tem hoje um índice de gordura corporal de 10%, próximo ao de um atleta. A decisão de voltar a praticar esportes o forçou a realizar muitas mudanças na forma de administrar o tempo. A primeira delas foi aprender a delegar. "Não dá para colocar o dedo em tudo. Procuro investir no capital humano e deixar que pessoas mais competentes que eu, cada uma em sua área técnica, tenham liberdade para trabalhar." As reuniões também ficaram mais curtas.

"Monitoro o trabalho e cobro os resultados ao longo da semana. As reuniões são só para bater o martelo." Mas a principal mudança feita por André está na forma de enxergar a profissão. "Não ponho trabalho em primeiro lugar. Ele está lá no alto, mas ao lado da família e da vida pessoal. O que faço é alternar a quantidade de energia que dedico a cada um, conforme o momento." No ano passado, por causa da crise econômica, pela primeira vez o executivo cancelou suas férias. O esforço para garantir os resultados valeu a pena.

A Omint fechou 2009 com faturamento de 478 milhões de reais e uma expansão de 9% em relação ao ano anterior. "Precisei sacrificar um pouco o esporte, mas foi só uma fase", garante ele, que hoje se considera muito mais produtivo, mesmo trabalhando seis horas a menos do que no passado. "Quem diz não ter tempo para nada na realidade tem preguiça de mudar. Para mudar, é preciso esforço e perseverança."

A ARTE DE DIVIDIR PARA MULTIPLICAR

Nos anos 1980, quando criou a Microsiga, primeira empresa do grupo Totvs, Laércio Cosentino tinha de ser polivalente. Ele desenvolvia os softwares que a companhia comercializa, viajava pelo país divulgando o pioneiro sistema de franquias para serviços de informática, administrava a empresa e acompanhava pessoalmente a entrega de serviços aos clientes. "Queria participar de tudo", recorda Laércio. Resultado: trabalhava cerca de 15 horas diárias e não sobrava tempo para nenhuma atividade física.

Laércio Cosentino, 49 anos, presidente do grupo Totvs: delegando tarefas, ele tem mais tempo livre

"Minha única ginástica era subir e descer escadas correndo e entrar e sair de aviões", diz. Em 1994 ele percebeu que isso tinha de mudar e tomou uma decisão: ia parar de programar. "Precisava me concentrar no crescimento da companhia." A partir dali, começou a aplicar o lema "Dividir para multiplicar", ou seja, compartilhar tarefas e responsabilidades para atingir resultados maiores. Para conseguir isso, o executivo implementou um sistema de rotação de postos.

"É preciso compartilhar tarefas para atingir resultados"

De tempos em tempos, vice-presidentes e diretores têm de mudar de área para aprender a administrar uma parte diferente da empresa. "Com o tempo, todos passam a conhecê-la como um todo e o grupo ficamenos dependente de um único líder. Fico mais confiante para delegar", ensina. "Se não pudesse fazer isso, a Totvs não estaria em 23 países e não conseguiríamos atender no prazo e com qualidade 24 800 clientes." A mudança no modelo de gestão valeu a pena.

Hoje a Totvs é a maior empresa de softwares de gestão corporativa com sede na América Latina e a sétima no mundo, com receita líquida de quase 1 bilhão de reais. E Laércio Cosentino conseguiu cortar quase cinco horas de trabalho de sua rotina diária.

Sobra tempo para praticar musculação quatro vezes por semana e cultivar hobbies, como cozinhar. Outra lição aprendida foi separar totalmente a vida pessoal da profissional. "Nos meus momentos de folga não vou a coquetéis de trabalho, não janto com clientes, não saio com colegas para falar da empresa", diz.

Ele também não mistura os problemas das duas áreas. "Acredito que nunca se deve justificar a ausência na vida pessoal com os problemas da companhia, e nunca se deve justificar o desempenho profissional com os problemas pessoais. Para isso, é preciso estar de bem com a vida."

TECNOLOGIA A SERVIÇO DO TEMPO

Olívio Barbosa teve de aprender na raça a reservar um espaço na agenda para a vida pessoal. Para galgar o posto de presidente, no começo da carreira ele encarava jornadas de até 16 horas de trabalho.

Olívio Barbosa, 34 anos, presidente da Vale Card: ele joga futebol duas vezes por semana

Nessa época, chegou a sofrer uma estafa e, por descuidar das idas ao médico, deixou que uma pequena infecção se transformasse numa inflamação no pulmão, o que comprometeu sua capacidade respiratória.

"Precisei de cirurgia e foram dois meses para me recuperar", lembra Olívio. A falta de tempo também custou o fim do primeiro casamento do executivo. "O excesso de trabalho foi um dos principais motivos", recorda. Hoje, no comando da Vale Card, empresa especializada em cartões de benefícios corporativos, ele diz tratar os compromissos profissionais e pessoais com igual atenção.

" O tempo gasto a mais no trabalho tem um custo no futuro"

Prova disso é que inclui na agenda tanto os eventos de trabalho quanto os momentos de lazer. "Se marco de ir ao cinema com minha mulher, coloco na agenda como qualquer compromisso profissional." Para organizar as atividades, Olívio recorre a ferramentas tecnológicas que substituíram a tradicional secretária. "Criei uma planilha eletrônica que vou alimentando com os horários dos compromissos, tarefas e prazos durante as reuniões.

Se decidimos uma viagem, envio na mesma hora um e-mail para o setor responsável pela compra das passagens", diz ele. Um programa de computador dispara avisos quando o prazo de cada atividade está perto de vencer, o que facilita o monitoramento das tarefas repassadas. Olívio afirma que, graças ao uso dessas ferramentas, consegue ganhar pelo menos uma hora por dia. "Não perco aquele tempo diário de verificar o que tenho de fazer ou quem tenho de cobrar."

Outra ferramenta muito utilizada é um processo que estabelece a frequência com que ele deve receber relatórios sobre as operações em andamento, gráficos com indicadores e prestação de contas. "Assim, nunca sou pego de surpresa e tomo medidas preventivas se algo começa a atrasar."

Com esse planejamento, Olívio tem hora para sair do trabalho e fazer coisas que gosta, como correr cinco quilômetros e jogar futebol duas vezes por semana. "A internet mudou nossa forma de trabalhar, reduziu os prazos e aumentou as demandas. O grande desafio hoje é administrar o relógio", afirma. E deixa o conselho para outros executivos: "O tempo gasto a mais no trabalho tem um custo que você saca do seu futuro. Só você tem a perder".

INVESTIMENTO EM PROJETOS PESSOAIS

No ano passado, Raul Randon, de 80 anos, passou a David Abramo, seu filho, a direção executiva do grupo Randon, especializado na fabricação de veículos de carga e autopeças. O processo de desligamento da linha de frente da companhia, que em 2009 teve receita bruta de 3,7 bilhões de reais, vinha sendo preparado por Raul havia dez anos.

Raul Random, 80 anos, presidente do conselho de administração do grupo Randon: seu hobby é produzir queijos

Foi criado um conselho de administração, formado por diretores experientes, e a gestão da empresa foi dividida em áreas, a cargo de diferentes times. Medidas que profissionalizaram a Randon, de origem familiar. "A família tem o capital, mas não chega e manda. As decisões têm de passar pelo conselho, que aprova ou não", diz Raul. Ele afi rma que muita gente acha que liderar é mandar.

Liderar é cercar-se de pessoas competentes que te ajudam

"Liderar é cercar-se de pessoas competentes, que te ajudam a avaliar riscos e oportunidades. Não dá para tomar decisões sozinho, porque erros custam muito caro." Esse modelo de gestão deu tranquilidade ao empresário para se afastar progressivamente do comando da empresa e dedicar-se cada vez mais a projetos pessoais. Na cidade de Vacaria, no Rio Grande do Sul, Raul Randon toca hoje a Rasip. No local, são cultivadas 200 toneladas de uvas das variedades Merlot, Cabernet Sauvignon e Pinot Noir.

A Vinícola Miolo fabrica e engarrafa o vinho RAR, que leva as iniciais Raul Anselmo Randon. A Rasip também é líder nacional no mercado brasileiro na produção do queijo tipo grana. Processa 28 000 litros de leite e produz 650 toneladas de queijo. A empresa também é uma das maiores produtoras de maçãs do Brasil e, por meio de uma parceria, atua na engorda de suínos da Perdigão.

Tocando um projeto que lhe dá prazer, Raul deve fechar 2010 com receita líquida de 65 milhões de reais. E ainda sobra tempo para nadar quatro vezes por semana e jogar cartas com os amigos nos momentos de lazer. "Me sinto um passarinho livre", diz. Para ele, a principal lição aprendida em 60 anos no mundo dos negócios é a importância de investir nas pessoas.

"Nos momentos de crise, foi graças ao empenho dos colaboradores que levantamos a empresa", conta Raul. Para ele, não adianta só cortar. "Quando você demite um funcionário, perde junto toda a experiência adquirida e o investimento na formação dele. Imagine quanto custa formar novamente todo o pessoal que você demitiu num corte?"

 

 

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Sérgio de la Orden - Se tem alguém que admiro, esse alguém é Raul Randon.Poderia estar tranquilo, curtindo sua aposentadoria, mas saiu da Randon e foi cuidar de suas uvas, de suas vacas, da suas maças, vinho e queijos.Esse só para quando se for. Tomara que demore muito. - 04/05/2012 00:04:43

Robson Rodrigues de Lima - Simplismente mais uma fantastica reportagem. - 07/04/2012 16:59:09



    
    
    
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