A maldição do conhecimento

Recentemente meu colega de Você S/A, o Márcio Mussarela, escreveu aqui um texto sobre o despreparo dos CEOs na condução de algumas questões relacionadas à comunicação dentro das empresas. Sua análise recai sobre o tema da dificuldade que alguns profissionais sentem para interagir com suas equipes, independente do nível hierárquico que ocupem ou da direção que as mensagens devem tomar. Para ele, tais desatinos acabam provocando verdadeiros desastres corporativos, simplesmente por ruídos na comunicação interperssoal.

Sua oportuna discussão lembrou-me dois conceitos cujas abordagens podem ser bastante esclarecedoras:

O primeiro deriva de um termo cunhado por Elizabeth Newton em sua tese de doutorado e atende pelo singelo nome de “Maldição do Conhecimento“. Mas foi através de um artigo dos irmãos Chip e Dan Heath (autores de Made to stick) que acabei tendo contato com a interessante teoria. Para mostrar o quanto as pessoas se enganam sobre a forma como suas mensagens chegam ao seu destino, Newton bolou o seguinte experimento: um dos voluntários deveria pensar numa música bastante popular (como “Parabéns pra você”, por exemplo) e transmití-la ao seu interlocutor apenas através de palmas.

À primeira vista parece uma tarefa bastante simples e, possivelmente, com uma taxa de sucesso bastante alta, correto? Os resultados mostraram, contudo, um resultado desanimadoramente contrário: nas 120 tentativas apenas três pessoas acertaram. Três! Apenas 2,5%… Mesmo assim, os participantes do estudo estimavam seus acertos em 50%!

Você – que a essa altura deve estar batendo palmas pensando em alguma música enquanto seu colega da mesa ao lado te olha meio de lado – deve imaginar como a outra pessoa pode ter sido tão estúpida, não é? Mas você está esquecendo de um pequeno detalhe: a melodia da música na qual está pensando ecoa apenas na sua cabeça. Enquanto isso, seu amigo está ouvindo apenas o monocórdico som de suas mãos batendo uma contra a outra.

O problema, esclarecem os autores, é que quando você está de posse de algum conhecimento – algo tão singelo quanto uma melodia – fica difícil imaginar que o outro lado não compartilha da mesma informação. Desta maldição – saber algo que os outros não sabem – nascem os desentendimentos.

Mensagens aparentemente simples (para você!) tornam-se incompreensíveis emaranhados de palavras para seus interlocutores. Frases cristalinas (para você!) transformam-se em linguagem cifrada para quem te ouve. “Extrapolar as expectativas dos clientes”, “Tornar-se o mais eficiente produtor” ou “Aumentar o valor para o acionista” ecoam no vazio como acordes desafinados.

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Quando estamos entre pessoas mais próximas temos, até certo ponto, uma boa noção de quanto conhecimento compartilhamos. Mas quanto mais cresce o tamanho do grupo de ouvintes, menor é a certeza de que as pessoas realmente entendem o que estamos falando. Por isso é importante não nos apegarmos às nossas próprias crenças, nossos juízos particulares e convicções pessoais. Seu interlocutor pode não ter a menor idéia do que você está falando e, para piorar, dificilmente ele vai confessar este descompasso.

Uma das dicas que os autores dão é usar histórias simples de modo a transmitir conceitos mais complexos. O inspirador exemplo dado conta que, certa vez, um funcionário da FedEx terminava seu roteiro de entregas quando o seu veículo quebrou. Fiel ao lema da empresa – que garante a entrega das encomendas no prazo combinado – levou os primeiros pacotes à pé. Mas quando viu que não conseguiria concluir seu trabalho no tempo necessário, conseguiu convencer um entregador da empresa concorrente a dar-lhe uma carona.

Se a passagem acima é verdadeira, ou apenas uma fábula corporativa, confesso que não sei. Mas certamente quem a ouve – ou lê – entende perfeitamente até onde vai o comprometimento dos funcionários da FedEx com os valores da empresa. Palavras que, sem dúvida, valem mais do que mil imagens. Palmas para ela!

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No próximo texto veremos o segundo conceito, que explica por que as mensagens são convenientemente “filtradas” conforme sobem a escada hierárquica das empresas. Até lá!

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O Líder competente

Fechando a série a respeito da influência do Líder sobre seus subordinados, chegamos àqueles cuja Competência é seu maior trunfo. Apesar de a capacidade técnica e intelectual de uma pessoa parecerem motivos óbvios e suficientes para que uma equipe siga seu chefe, os textos anteriores mostraram que esta talvez não seja a única razão. Autoridade, Carisma, Controle sobre Recompensas e Punições também representam importantes formas de Liderança.

Quando um Líder domina determinada área, significa que ele reúne um conjunto de habilidades que o torna capaz de realizar certas tarefas de modo particularmente eficiente. Uma equipe que reconheça tal aptidão em quem a lidera terá, na maioria das vezes, uma grande confiança em seguir aquilo que lhes é determinado. O time já percebeu, pelos exemplos passados, que a pessoa no comando sabe o que está fazendo.

Russell Crowe em Gladiador

Russell Crowe em Gladiador

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Numa das memoráveis cenas de Gladiador (Gladiator, 2000), que pretendia reencenar a lendária batalha de Cartago, Maximus é reconhecido na arena por alguns dos outros gladiadores como sendo o general que os conduziu em inúmeras vitórias em batalhas anteriores.

Junto com seus companheiros, Maximus lidera-os na arena e conduz a horda de bárbaros a uma inesperada e espetacular vitória contra o grupo inimigo.

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Competência também está atrelada a uma determinada área, pois cada conjunto de conhecimentos específicos serão mais ou menos importantes dependendo da situação. Imagine, por exemplo, que você e sua equipe se percam naquele evento motivacional que seu departamento de RH inventou para a sua empresa, bem no meio da Floresta da Tijuca. Quem você prefere seguir: o seu Diretor Financeiro ou aquele estagiário da sua área que é escoteiro?

Um equívoco comum, no entanto, é confundir competência com arrogância ou estrelismo. O líder competente não precisa ficar lembrando a seus subordinados o quão sábio ele é. Quem está ao seu redor percebe quando a pessoa silenciosamente exala conhecimento por todos os poros. Ou quando alguém está apenas se gabando por alguma trivial peripécia.

Via de regra, o líder competente mescla habilmente a segurança de quem sabe o que está fazendo, com a humildade de quem reconhece que aqueles ao seu redor nem sempre acompanham o seu raciocínio. Entendem que uma equipe equilibrada é a mescla de competências, onde ele contribui com sua destacada habilidade técnica fazendo um encaixe perfeito com a secretária super eficiente, o analista bem informado e até o outro gerente meio devagar, mas muito bem relacionado.

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Agora que fechamos essa série de textos sobre as forma de poder que permeiam as relações corporativas, aceito sugestões para os próximos temas. Que tipos de assuntos relacionados à Liderança você considera mais relevantes? Quais são as dúvidas sobre o comportamento do seu chefe que mais te deixam intrigado(a)? Como você acha que seu relacionamento no trabalho poderia melhorar? Aguardo os comentários e sugestões.

Um abraço, Rodolfo.

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