Outro dia recebi uma pesquisa sobre as leitoras do meu blog pessoal que dizia que metade do meu público era composto de gente burra. Aliás, não, desculpem, me enganei! A pesquisa dizia, na verdade, que metade do meu público era composto de gente inteligente.
Ficou melhor agora, não ficou? Mas, grosso modo, eu disse exatamente a mesma coisa. Este é apenas um exemplo que mostra como o modo como transmitimos informações idênticas pode gerar efeitos, sensações e até mesmo interpretações completamente distintas. Essa variação na roupagem representa o que se convencionou chamar de framing – algo como enquadramento em Português ou, nem tão literal mas talvez mais adequado, perspectiva.
Ah, e a pesquisa jamais existiu. Se existisse certamente traria uma proporção bem mais alta…
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Do mesmo modo que um vinho barato numa garrafa chique torna-se mais saboroso, a forma pode ter influência direta no conteúdo. Isso acontece todos os dias, o tempo todo. Quando precisamos disfarçar uma notÃcia procuramos mostrá-la de um outro ângulo. Mais ou menos assim:

A leitora atenta já percebeu que as duas frases significam basicamente a mesma coisa. A da esquerda desperta, no entanto, uma sensação de que há algo de errado na concessão de crédito, no planejamento financeiro das pessoas ou na saúde da economia como um todo. Já a da direita faz-nos crer que vivemos num paÃs próspero onde todos honram seus compromissos (porque têm dinheiro para tal) e que tudo vai bem. Só lembrando: ambas têm origem no mesmo número.
O resultado prático disso é que com a mesma informação – e, portanto, dizendo a verdade – a pessoa que escreve pode escolher o tipo de sentimento que haverá de despertar em seu público: se quiser que pensem que a economia vai mal, falará em dÃvida; se quiser dar um tom mais otimista, usará pagamentos em dia como tema.
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Como se não bastasse escolher a forma como alguém vai interpretar o que diz, o framing ainda pode influenciar uma resposta, de acordo com o tipo de pergunta feita.
Daniel Kahneman e Amos Tversky demonstram como isso é feito no seminal artigo Choices, Frames and Values, escrito nos idos de 1984. Imagine que, na iminência de uma epidemia mortal, espera-se que 600 pessoas morram da dita doença. Então o governo prepara duas alternativas para combater este trágico desfecho:
1. Se o Programa A for adotado, 200 pessoas serão salvas;
2. Se o Programa B for adotado, há 1/3 de chances de as 600 pessoas serem salvas e 2/3 de chances de ninguém ser salvo.
Qual dos dois Programas você escolheria?
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Será que a moldura (frame) faz tanta diferença assim?
As respostas dadas pelos voluntários mostram que a maioria deles é avessa ao risco, pois 72% preferem a primeira alternativa, isto é, não conseguem encarar os 2/3 de chances de ninguém ser salvo, mesmo que restem 1/3 de chances de todos sobreviverem. Mas imaginemos, agora, que existam mais duas outras alternativas:
3. Se o Programa C for adotado, 400 pessoas morrerão;
4. Se o Programa D for adotado, há 1/3 de chances de ninguém morrer e 2/3 de chances de todos morrerem.
E agora, com qual dos dois você ficaria?
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Antes de passarmos à s respostas finais, perceba que todas as quatro alternativas são rigorosamente iguais no que diz respeito aos seus prováveis desfechos (200 mortes em cada). Mas por que será que as preferências se inverteram dessa vez, com 78% das pessoas preferindo o Programa D – que é o que involve algum grau de incerteza?
A resposta está na forma como as opções são oferecidas. Nas duas primeiras alternativas, fala-se em pessoas salvas. Nas duas seguintes fala-se em morte. Quando opostas, as duas têm o mesmo significado (pessoa não-salva = pessoa morta). No entanto, uma tem uma conotação positiva, enquanto que a outra é negativa – mesmo que em ambas o coraçãozinho da pessoa pare de bater.
Assim, a aversão a risco manifesta-se da seguinte forma: ao optar entre A e B escolhe-se a que certamente salvará vidas (Programa A), rejeitando aquela onde há (grandes) chances de todos morrerem (Programa B); mas para decidir entre C e D, a possibilidade de algumas pessoas não morrerem (Programa D) parece mais atraente do que a certeza de outras tantas morrerem (Programa C).
Em outras palavras, não gostamos de arriscar um ganho certo, mas diante de uma perda iminente, preferimos tentar a sorte.
Mas o que é realmente notável aqui é que dependendo do tom que você escolha para as perguntas, você inapelavelmente direciona as respostas. O exemplo acima mostra como diferentes perguntas – mas com a mesma essência – gerou respostas diametralmente opostas.

Se não faz diferença, por que você escolhe tanto?
Claro que isso não representa um maléfico e absoluto poder de influenciar as pessoas e fazê-las sempre dizer o que você espera e agir como deseja. Mas algumas sutilezas podem direcionar determinados desfechos.
Comece a reparar, por exemplo, se algumas notÃcias de jornal não poderiam ser dadas de outro jeito. E, ainda, se elas fossem dadas de outro jeito, você tiraria conclusões diferentes? E será que há algum interesse por trás da forma como as coisas são ditas?
E o seu chefe, costuma dar notÃcias de forma positiva ou negativa? Ou ele varia conforme a notÃcia? As coisas que lhe são perguntadas ou pedidas, poderiam ser feitas de outra forma? Ou será que se fossem de outra forma você responderia de outro jeito?
Você seria capaz de identificar uma situação em que foi influenciado pelo modo como a pergunta foi colocada?
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