Em apenas uma semana fui consultado por dois amigos sobre a mesma dúvida envolvendo questões relacionadas às suas remunerações. De empresas diferentes, ambos experimentavam insatisfações semelhantes:
Daniel descobriu acidentalmente – depois contou-me que não foi tão acidentalmente assim – que uma pessoa recém-contratada na sua área ganhava mais do que ele, mesmo tendo menos experiência profissional;
Marcela soube que seu par tinha, tal como no caso anterior, um salário maior do que o seu. Mas no caso dela, foi o próprio colega sem noção que lhe fez a indiscreta confidência. (Com que objetivo? Deixo para a imaginação da leitora responder…)
Não sei quanto cada um deles ganha – esse tipo de informação não deve ser dividida entre amigos – mas algo me diz que somam mais de seis dÃgitos no fim do ano e nenhum dos dois tem problemas financeiros. Como veremos adiante, porém, essa informação não faz a menor diferença nesse caso.
A grande e única insatisfação vinha, em ambas as situações, do fato de o colega ganhar mais, mesmo com menos tempo de casa. Curiosamente, o quanto mais também não importa. No caso de Daniel, a diferença anualizada daria para comprar uma scooter; já o colega de Marcela pode comprar um carro popular no fim do ano.
A verdade nua e crua em ambos os casos – e bem simplificada – é que meus amigos negociaram mal seus salários e aumentos. Os que chegaram depois – provavelmente porque tiveram seus passes comprados – tiveram a oportunidade (ou a habilidade) de pedir mais. Oportunidade esta, aliás, que eles também tiveram, no momento em que entraram em suas respectivas empresas.
Mas vejo aqui duas lições fundamentais que podemos tirar:
Em primeiro lugar, nenhum dos dois estava insatisfeito com o seu salário até descobrir que o vizinho ganhava mais. E tal como me responderam, não passaram a achar que ganhavam pouco porque o outro ganhava menos. Nenhum dos dois tem problema de dinheiro. Então qual o problema de o outro ganhar mais?
Em The Upside of Irrationality, Dan Ariely fala de uma interessante variação do Jogo do Ultimato. Neste famoso experimento, um dos participantes recebe uma quantia de dinheiro – digamos, R$ 50,00 – que terá que dividir com o outro voluntário. Ele fará ao outro uma proposta de divisão do dinheiro que, se aceita, determinará a parte que cabe a cada um. Se a oferta for recusada, nenhum dos dois leva nada. Por exemplo, se o primeiro diz que a divisão será R$ 35,00/R$ 15,00, o segundo pode recusar e nenhum dos dois leva nada. Ou aceitar.
Nas inúmeras vezes em que este experimento foi realizado, o segundo jogador tende a rejeitar ofertas menores do que 30% do que está em jogo. Segundo a Economia Tradicional, no entanto, o participante deveria aceitar qualquer quantia que lhe fosse oferecida – uma vez que ganhar R$ 1,00 é melhor do que não ganhar nada. Mas este prefere perder dinheiro para punir o outro participante.
Na variação comentada por Dan Ariely, contudo, o primeiro voluntário tinha uma série de ofertas pré-estabelecidas dentre as quais deveria escolher uma. Caso o outro recusasse a menor oferta existente – por exemplo, R$ 35,00/R$15,00 – ele poderia escolher a alternativa R$ 10,00/R$ 10,00, que seria o prêmio final de cada um. O curioso era notar que vários participantes escolhiam essa divisão, mesmo sabendo que ambos levariam uma quantia menor.
Trazendo este conceito para os casos de Daniel e Marcela, percebemos que as pessoas preferem ganhar menos, desde que seu colega não ganhe mais. Noutras palavras, ficamos mais satisfeitos se ganharmos R$ 10.000,00 e nosso vizinho R$ 9.000,00 do que se tivermos um salário de R$ 12.000,00 e o outro R$ 13.000,00. O valor relativo parece ter mais importância do que o absoluto.
Em segundo lugar, nossa remuneração não tem o caráter motivacional que todos são levados a acreditar. Ao menos não em termos absolutos. Ficamos satisfeitos com nossos aumentos até sabermos que alguém recebeu algo a mais. Um salário que parecia bom transforma-se, de uma hora para outra, em injusto.
Em Recompensas: a ciência e o mundo real explorei as idéias de Daniel Pink sobre o papel do dinheiro na motivação e ficou claro que o salário pode representar um fator motivacional limitado e, muitas vezes, efêmero. Daà que motivação não é algo que o dinheiro paga uma vez e resolve. Não é algo que você compra. No máximo, aluga.
Para o gestor fica, ainda, uma terceira lição: Daniel trabalha numa empresa de grande porte, com regras salariais muito bem estabelecidas e, por isso, a diferença entre as duas remunerações não chega a ser gritante. A variação explica-se pelo que o RH comumente chama de bandas salariais – o instrumento que permite tais oscilações sem fugir das polÃticas de cargos e salários. Mas quanto mais cresce a desigualdade, maiores as chances de insatisfação e de se criar uma equipe de insatisfeito com um satisfeito ilhado – que, aliás, não tem culpa alguma dos rancores alheios.
Já no caso de Marcela, sua empresa está num estágio inicial e algumas polÃticas – especialmente as salariais – ainda não estão bem definidas. Faltaram ao seu gestor tato e habilidade para prever que tipo de consequências sua decisão poderia trazer para o restante da empresa. Ao solucionar o problema da sua área, ele criou outro para a empresa inteira. Provavelmente esse gestor não merece o salário que ganha…
A propósito: eu já passei por isso e me senti exatamente como Daniel e Marcela… E você, já teve essa experiência? Como se sentiu? E como resolveu?
Um abraço, Rodolfo.
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