Semana passada publiquei no meu blog um texto falando sobre a recente malcriação de Neymar, o craque do Santos. Em Geração neYmar, analiso por que o jogador simboliza tão bem alguns traços da Geração Y: “Vive as delÃcias de ser um astro, mas recusa-se a encarar suas dores. Gosta da fama e da fortuna, mas evita as responsabilidades. Quer ser tratado como adulto, mas sem a obrigação de comportar-se como tal”.
Também na semana passada um articulista da Harvard Business Review escreveu algo semelhante. Em Gen Y’s Most Perilous Trait (ou “O traço mais perigoso da Geração Y”) Andrew McAfee toma seus alunos como exemplos. Professor do MIT, McAfee começou a reparar como cada vez mais os estudantes falavam de si mesmos, exaltando seus feitos ainda que suas peripécias tivessem pouco ou nada a ver com o tema da aula.
Narcisismo, sabemos, tem a ver com um elevado senso de autoestima que, por outro lado, tende a refletir-se em exagerada autoconfiança. Mas de acordo com Christopher Chabris e Daniel Simons – autores do excelente The Invisible Gorilla - autoconfiança tem pouco a ver com competência. O problema, segundo eles, é que muita gente confunde um com o outro mas, conforme esclarecem, autoconfiança é um traço de personalidade e não um indicador de capacidade pessoal.
Chabris e Simons detalham em seu livro várias das ilusões que nos afetam diariamente e dedicam um capÃtulo inteiro à ilusão da confiança. Para eles, “Enxergamos a confiança como um claro sinal de habilidade profissional, memória acurada ou conhecimento especializado. Mas a confiança que a pessoa projeta é, na maioria das vezes, ilusória”.
Neymar tem um inegável talento para o futebol e, desde criança, já era festejado como tal. Sua chegada ao time profissional aumentou ainda mais a atenção que recebia da mÃdia e dos fãs, que passaram a celebrá-lo como uma estrela, quase um mito. Neste patamar, a celebração acelera o narcisismo que engrossa o manto de autoconfiança com que o atleta se veste.
Pois é com essa sensação de invencibilidade que o jogador entra em campo, minutos antes de atrasar a bola à s mãos do goleiro numa pÃfia cobrança de pênalti. Mesmo assim, depois de um lance patético desses, o atleta continua com a mesma visão positiva de si. Cultiva, ainda, a imagem do herói que carrega o time nas costas e resolve todos os problemas dentro e fora de campo.
Mas o resto do time não vê as coisas da mesma forma – tampouco o técnico. Aà nascem os conflitos.
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Fora dos gramados, a onda de narcisismo inunda universidades e almas de estagiários, que enxergam em seus umbigos a salvação do mundo – mesmo que não tenham a menor idéia de por onde começar.
Claro que uma dose de autoconfiança é importante, especialmente para que você sinta a motivação de ser capaz de completar uma tarefa ou superar um obstáculo. O problema começa quando isso é exagerado. Quando você acha que pode curar o câncer enquanto dorme, ou que vai encontrar uma forma limpa e barata de energia durante o seu banho. E, além disso, quer receber os aplausos antecipadamente.
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Sei que muitos dos meus leitores fazem parte da Geração Y e que boa parte de vocês já está torcendo o nariz a esta altura. Por outro lado, deve haver algum motivo para você continuar lendo o texto até aqui. Seria por que alguma coisa no texto realmente faz sentido? Por que algumas partes soaram incomodamente familiares?
Seja qual for o motivo, é importante termos a medida exata – ou a mais aproximada possÃvel – de nossas possibilidades. Os elogios desmedidos que pais fazem a seus filhos* – incentivados por alguma onda motivacional nonsense – são responsáveis por parte desta tendência narcisista.
Outra parte vem do crescente culto à celebridade e uma sociedade que precisa de Ãdolos – com suas inesquecÃveis realizações e seus inevitáveis escândalos. Todos querem ser os Ãdolos e todos se acham capazes de tal, preparados para tal e, last but not least, merecedores de tal. Mas, obviamente, não há espaços para todos. E também não há problema nenhum nisso. Há muitas outras coisas maravilhosas para serem feitas. Você não precisa ser o melhor, ser o primeiro, nem ser o único.
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E, para finalizar este choque de gerações, deixo vocês com um Ãdolo da minha geração chamando a atenção do próprio filho. Com uma dose racionada de elogios, Rocky Balboa diz ao menino que ele precisa mostrar o seu valor mas que, durante o caminho, ainda vai apanhar um bocado.
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* Você sabe qual a diferença entre dizer a uma criança que ela é inteligente ou que é esforçada? Veja em Dicas de um pai que nunca foi.
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