De que vale a Geração Y?

Não entendo este estardalhaço todo que fazem em torno da Geração Y. Dizem que são antenados com as novidades tecnológicas, criam maravilhas em seus quartos e garagens, são culturalmente proativos  e têm especial talento para questionar o status quo.

Pois os Baby Boomers também se adaptaram rapidamente à TV em cores, levaram o homem à Lua, celebraram a paz e o amor em Woodstock e chacoalharam países inteiros com suas revoluções estudantis.

Depois veio a Geração X que dominava o play e o stop do videocassete e do walkman, desenvolveu e disseminou os computadores pessoais (e a Internet), massificou os movimentos culturais e derrubou o muro de Berlim.

Certamente que esta nova geração também está fazendo por merecer seu destaque na história da humanidade, em todos os aspectos destacados no primeiro parágrafo. Mas ela é a primeira que exige aplausos antes de concluir sua obra. Se há um traço de personalidade marcante nos Ys, este é o narcisismo.

Tomemos como exemplo os maiores sucessos da Internet: o Facebook pergunta “no que você está pensando agora?”, enquanto o Twitter quer saber “o que está acontecendo [com você]?” São dois pedidos explícitos para você mostrar seu umbigo, como se todos quisessem vê-lo. Como se todos fossem curtir o fato de você ter comido outro Kit Kat, ou retuitar seu vídeo declarando seu amor pelo Restart.

Menos, pessoal, menos. Antes de se sentar na janela, você precisa entender um pouco como o ônibus funciona, para onde ele está indo e quem já estava dentro dele quando você entrou. Você deverá comprar sua passagem, porque a que o seu pai lhe deu não vai levar você a todos os lugares que quer ir. Até porque, a maioria dos lugares você não faz a menor ideia de onde fica.

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Geração narcYso

Semana passada publiquei no meu blog um texto falando sobre a recente malcriação de Neymar, o craque do Santos. Em Geração neYmar, analiso por que o jogador simboliza tão bem alguns traços da Geração Y: “Vive as delícias de ser um astro, mas recusa-se a encarar suas dores. Gosta da fama e da fortuna, mas evita as responsabilidades. Quer ser tratado como adulto, mas sem a obrigação de comportar-se como tal”.

Também na semana passada um articulista da Harvard Business Review escreveu algo semelhante. Em Gen Y’s Most Perilous Trait (ou “O traço mais perigoso da Geração Y”) Andrew McAfee toma seus alunos como exemplos. Professor do MIT, McAfee começou a reparar como cada vez mais os estudantes falavam de si mesmos, exaltando seus feitos ainda que suas peripécias tivessem pouco ou nada a ver com o tema da aula.

Narcisismo, sabemos, tem a ver com um elevado senso de autoestima que, por outro lado, tende a refletir-se em exagerada autoconfiança. Mas de acordo com Christopher Chabris e Daniel Simons – autores do excelente The Invisible Gorilla - autoconfiança tem pouco a ver com competência. O problema, segundo eles, é que muita gente confunde um com o outro mas, conforme esclarecem, autoconfiança é um traço de personalidade e não um indicador de capacidade pessoal.

Chabris e Simons detalham em seu livro várias das ilusões que nos afetam diariamente e dedicam um capítulo inteiro à ilusão da confiança. Para eles, “Enxergamos a confiança como um claro sinal de habilidade profissional, memória acurada ou conhecimento especializado. Mas a confiança que a pessoa projeta é, na maioria das vezes, ilusória”.

Neymar tem um inegável talento para o futebol e, desde criança, já era festejado como tal. Sua chegada ao time profissional aumentou ainda mais a atenção que recebia da mídia e dos fãs, que passaram a celebrá-lo como uma estrela, quase um mito. Neste patamar, a celebração acelera o narcisismo que engrossa o manto de autoconfiança com que o atleta se veste.

Pois é com essa sensação de invencibilidade que o jogador entra em campo, minutos antes de atrasar a bola às mãos do goleiro numa pífia cobrança de pênalti. Mesmo assim, depois de um lance patético desses, o atleta continua com a mesma visão positiva de si. Cultiva, ainda, a imagem do herói que carrega o time nas costas e resolve todos os problemas dentro e fora de campo.

Mas o resto do time não vê as coisas da mesma forma – tampouco o técnico. Aí nascem os conflitos.

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Fora dos gramados, a onda de narcisismo inunda universidades e almas de estagiários, que enxergam em seus umbigos a salvação do mundo – mesmo que não tenham a menor idéia de por onde começar.

Claro que uma dose de autoconfiança é importante, especialmente para que você sinta a motivação de ser capaz de completar uma tarefa ou superar um obstáculo. O problema começa quando isso é exagerado. Quando você acha que pode curar o câncer enquanto dorme, ou que vai encontrar uma forma limpa e barata de energia durante o seu banho. E, além disso, quer receber os aplausos antecipadamente.

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Sei que muitos dos meus leitores fazem parte da Geração Y e que boa parte de vocês já está torcendo o nariz a esta altura. Por outro lado, deve haver algum motivo para você continuar lendo o texto até aqui. Seria por que alguma coisa no texto realmente faz sentido? Por que algumas partes soaram incomodamente familiares?

Seja qual for o motivo, é importante termos a medida exata – ou a mais aproximada possível – de nossas possibilidades. Os elogios desmedidos que pais fazem a seus filhos* – incentivados por alguma onda motivacional nonsense – são responsáveis por parte desta tendência narcisista.

Outra parte vem do crescente culto à celebridade e uma sociedade que precisa de ídolos – com suas inesquecíveis realizações e seus inevitáveis escândalos. Todos querem ser os ídolos e todos se acham capazes de tal, preparados para tal e, last but not least, merecedores de tal. Mas, obviamente, não há espaços para todos. E também não há problema nenhum nisso. Há muitas outras coisas maravilhosas para serem feitas. Você não precisa ser o melhor, ser o primeiro, nem ser o único.

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E, para finalizar este choque de gerações, deixo vocês com um ídolo da minha geração chamando a atenção do próprio filho. Com uma dose racionada de elogios, Rocky Balboa diz ao menino que ele precisa mostrar o seu valor mas que, durante o caminho, ainda vai apanhar um bocado.

Imagem de Amostra do You Tube

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* Você sabe qual a diferença entre dizer a uma criança que ela é inteligente ou que é esforçada? Veja em Dicas de um pai que nunca foi.

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Sobre capacidade e comportamento

Uma vez, numa entrevista de emprego, o Diretor de uma empresa (que vou chamar de Hélio – o Diretor, não a empresa) perguntou a um candidato (que vou chamar de Rodolfo):

- O que você faria para aumentar nossas vendas?
- Daria 90% de desconto aos clientes, respondi.

Quando ele começou a rir foi minha vez de questioná-lo:
- O quê? Você acha que isso não aumentaria suas vendas?

A entrevista terminou poucos minutos depois e, nem o entrevistador nem a empresa jamais entraram em contato comigo novamente – atitude, aliás, muito comum ao brasileiro.

Olhando para a situação, posso dizer que a resposta deu a Hélio três pistas sobre o profissional Rodolfo:

1. Ele sabe que, além das vendas, há outras coisas importantes na empresa. Como a margem de lucro, por exemplo, que seria pulverizada pela minha brilhante idéia;
2. Ele não tem medo de dizer o que pensa, mesmo quando parece uma tolice, uma obviedade ou algo arrojado demais – ou os três ao mesmo tempo;

E a terceira coisa, bem, a terceira coisa é algo um pouco mais sutil:

3. Considerando o que ele sabe e que ele não tem medo de dizer o que sabe ou pensa, ele também parece não se importar em ser indelicado ou mesmo rude. Talvez até goste disso. Indo um pouco mais além, Hélio poderia imaginar que Rodolfo sabia dos efeitos das suas palavras e, mesmo assim não se importava.

Antes de cairmos numa espiral de Hélio imagina que Rodolfo sabe que Hélio pensa – e assim por diante – vamos destacar os elementos da equação: conhecimento (bom), ousadia (bom), tato (ruim).

Não quero sugerir, com isto, que as empresas busquem o profissional mais comportado em detrimento daquele mais capacitado. Apenas uma fração delas fazem isso. Um número perto do desconto que sugeri no início do texto.

Mas também não quero que o leitor conclua que só os incapazes comportados conseguem bons empregos. Claro que não! Até porque nem todo mundo é tão esperto como o Hélio (para traçar um perfil acurado do candidato) nem tão estúpido quanto o Rodolfo (para deixar escapar uma boa oportunidade porque preferiu se divertir).

Minha visão é que a maioria das pessoas consegue equilibrar bem esses três pares de elementos:

Conhecimento/Estupidez

Ousadia/Covardia

Tato/Ogrice.

Com equilibrar, quero dizer saber quando deixar aflorar um em vez de outro, permitir que eles consigam se intercalar naturalmente, sem que isso pareça uma violência contra você ou quem estiver ao seu redor.

Já o Hélio precisa entender como a mesma equação funciona para as pessoas que contrata e tentar visualizar como isso se encaixa no perfil da empresa e no seu próprio – já que ele terá que conviver com essa pessoa a maior parte do tempo.

Se ele entender que alguém com tal perfil será bom para a diversidade da equipe, ótimo. Se entender que pode mudar o comportamento desse rebelde, bom também. E se, por outro lado, perceber que tem mais responsabilidades do que cuidar de um bebê desse tamanho, bom, quem poderá dizer que está errado? O que ele não pode fazer, no entanto, é ficar com medo da pessoa que desmascara suas perguntas cretinas.

Mas e o Rodolfo? Ah, o Rodolfo… Podia ter ficado com aquele empregão! Atingir um nível diferenciado de conhecimento leva tempo. Para ousar é preciso ter estômago – algo difícil de se aprender de uma hora para outra. Então por que não controlar melhor esse gênio impulsivo? Boa pergunta. Como controlar?

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Onde os muito fortes não têm vez

Recentemente lembrei-me um episódio em que minhas atitudes e comportamento mantiveram-me como figurante num cenário onde eu tinha tudo para ser o protagonista.  Quando pleiteava uma vaga de gerente uns três anos atrás, descobri que eu não era uma pessoa fácil de lidar. Minha capacidade técnica era muito superior a dos outros candidatos à vaga, mas minhas habilidades sociais eram desastrosas, um verdadeiro handicap*.

Na ocasião, eu tinha dificuldades em controlar minhas emoções e era muito fácil perceber minha insatisfação através do meu comportamento – especialmente quando sabia que estava certo. Dia desses tive uma conversa com um amigo que passava por situações semelhantes, de onde surgiu o texto a seguir:

* * * * * * * * * *

Antes de ter o “estalo” sobre o que estava me atrapalhando, eu discutia com os outros nas reuniões tentando mostrar e provar o meu ponto-de-vista, enquanto eles permaneciam rígidos em suas posições. Muitas vezes eram pessoas bem acima de mim na hierarquia da empresa – o que me deu a fama de encrenqueiro e me estagnou por um tempo. Felizmente eu tinha um chefe que me apontava esse erro e, assim, consegui superá-lo. É fundamental, então, ter alguém de confiança que possa te alertar nesses momentos.

Se você não contar com uma pessoa assim próxima a você, terá que contornar esse problema através do seu auto-controle. Aí vai o conselho de sempre: conte até 10, 20 ou 50 antes de se envolver numa discussão. Veja se você realmente precisa expor sua insatisfação. Pense mais a frente e tente entender se isso é realmente importante e se vale a pena brigar, considerando o que você tem a ganhar ou perder. O que isso vai te acrescentar? Isso não pode ser resolvido depois da reunião, quem sabe numa conversa particular com a pessoa com a qual você discorda?

Michael Douglas em Um dia de fúria (1993)

Quando você conseguir superar a fase de discordar abertamente, talvez venha a parte mais difícil, que é controlar suas reações. Às vezes, mesmo não dizendo nada, seu corpo está mostrando a sua insatisfação.

Nesse caso é preciso muito auto-controle mas, em primeiro lugar, reconhecer o que está fazendo. Peça a alguém de confiança que preste atenção em você numa reunião e depois te descreva suas reações. Controlar isso é muito difícil, mas se você não reconhecer o problema não vai vai poder corrigí-lo.

Quanto ao segundo problema – saber que está certo enquanto os outros estão errados – muitas vezes isso é mais uma briga de egos do que qualquer outra coisa. Poucas pessoas reconhecem quando estão erradas de forma humilde e sem ressentimentos.

Às vezes a gente se envolve em acaloradas discussões simplesmente por vaidade, para mostrar que estamos certos e os outros estão errados. Caso seja realmente algo imprescindível, mostre com tato e educação o seu ponto-de-vista. Faça-o de forma embasada e sem emoção. Uma árvore de decisão, com os resultados prováveis de cada alternativa (com probabilidades em porcentagens) pode ajudar a visualizar melhor o problema e escolher a solução mais vantajosa.

Muito cuidado com as palavras. Evite coisas como ‘Eu acho que…’, ‘Você não está entendendo…’ ou ‘Isso está errado porque…’. Tente formas mais conciliadoras como ‘Que tal se olhássemos por esse ângulo…’ ou ‘O que será que aconteceria se…’. Jogue as alternativas na mesa e deixe que os outros cheguem às conclusões que você já tem. Se parecer que a idéia é do grupo – e não sua – ela terá muito mais força e ninguém parecerá contrariado. E lembre-se sempre que, apesar de todas as suas convicções, ainda assim você pode estar errado.

Se mesmo assim você não convencê-los, tudo bem. Não faça disso um cavalo de batalha, ou você vai ficar dando murro em ponto de faca e ficará com imagem de cabeça-dura – coisa que será difícil se livrar mais tarde. Se no futuro algo der errado, evite a tentação de ficar dizendo ‘Eu avisei…’, porque isso não te levará a nada. Poucas coisas irritam mais as pessoas do que isso. Enganar-se já é suficientemente frustrante e ter alguém lembrando-lhe disso o tempo todo é ainda mais desagradável.

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Realmente não sou o que se convencionou chamar de uma flor de pessoa – e isso é algo difícil de reconhecer. Mesmo já tendo melhorado um bocado desde aquela época, tenho, vez ou outra, alguns moderados ataques de fúria. Mas aprendi que, em determinado momentos, isto foi um impedimento ao meu crescimento profissional.

Você tem ou já teve momentos em que sentiu-se deslocado ou preterido por ser considerado encrenqueiro ou rabugento. Conte sua história e vamos ver como contornar isso!

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* Glossário do Rodolfo: Muita gente usa o termo handicap como algo positivo, mas na verdade o termo significa uma debilidade ou desvantagem.

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