Morte por Job Description

No post mais recente do seu blog, Vineet Nayar* lista os dez principais atributos dos jovens líderes. Apesar dos elogios um pouco exagerados, Nayar aborda um tema central para qualquer geração: o job description.

Em teoria, este documento enumera suas tarefas, responsabilidades, deveres e direitos. Numa empresa organizada ele deveria estar lá antes de você. Aliás, idealmente o job description deveria ser a base para uma entrevista de emprego, pois se você não sabe o que o candidato deverá fazer, como saberá se ele está apto a fazê-lo? Mesmo assim, em duas companhias que trabalhei, fui eu que escrevi o meu próprio job description, meses depois de lá ingressar. As outras nem isso fizeram.

Job Description

* * * * * * * * * *

Em seu artigo, Nayar elogia a nova geração por não se limitar àquilo que seu job description determina. Segundo o CEO indiano, a nova geração tem ideias novas o tempo todo e seria um erro restringi-la às áreas de responsabilidade relacionadas no documento.

Mas não é preciso ir tão longe. A própria definição do job description já revela sua armadilha: enquanto você continuar fazendo o que determina a função de Analista, você continuará sendo um Analista. Cumpra tão-somente as tarefas de um Estagiário e você será sempre um Estagiário.

Isto acontece porque você só se lembra do seu job description quando quer se livrar de alguma tarefa que julga não ser sua responsabilidade. E o seu chefe só se lembra do seu job description quando quer lhe cobrar por alguma coisa que você não fez (porque isso está no job description dele!).

Que tal, então, mudar esta relação com seu job description? O que o seu job description se esqueceu de fazer pela sua empresa e como você pode consertar isso?

____________________

*Vineet Nayar é o autor de Employees First, Customers Second.

Você já me segue no twitter? Veja minhas ideias em 140 caracteres: @raraujo28.

Post to Twitter Tweet This Post Post to Delicious Delicious Post to Facebook Facebook

Um passeio pelo precipício

A partir de três ou quatro anos de idade, uma criança começa a perceber que pode conseguir muitas coisas se fizer birra direitinho. Um pouco de manha, um bocado de caretas, uma pitada de choro e ela fica mais uma hora no parquinho, com direito a outro saquinho de jujubas.

Mas se a criança tiver 40 anos de idade e o teatrinho for no escritório, aí não pega bem. É isso que um amigo está vivendo num delicadíssimo momento de transição na sua empresa, em que sua chefa se recusa a atendê-lo. Fulano está há duas semanas sem conversar com sua gestora, que se senta na sala ao lado, cinquenta horas por semana. É birra ou não é?

Minha sugestão: leve a chefa para passear no precipício – queira ela ou não.

Gosto desta imagem para representar o termo: brinkmanship – algo como “no limite do desastre”, em inglês.

Em Teoria dos Jogos, brinkmanship é um Movimento Estratégico de Ameaça para Induzir alguém a fazer o que você deseja, isto é, “faça o que eu quero senão algo de ruim vai acontecer”.

Mas nesta variação a ameaça é bem mais sutil, pois em vez de efetivamente cumprir o que foi ameaçado, a pessoa apenas aumenta o risco de que algo ruim aconteça. Você está colocando a pessoa – e na maioria das vezes você também – numa situação potencialmente perigosa. E é aí que está a ameaça em si.

Em Los Angeles: Cidade Proibida, Bud White (vivido por Russell Crowe) leva isso ao extremo, ao fazer roleta russa com um suspeito durante um interrogatório. Com uma bala no tambor do revólver, ele põe o interrogado na beira do precipício e, a cada disparo em falso, aumenta as chances de um desastre. White não ameaça matar o bandido se ele não der a informação. Ele apenas aumenta as chances de isso acontecer.

No caso do meu amigo, uma conversa com a chefa é crucial para tomar algumas decisões. Dar uma volta no precipício seria, neste caso, pintar em cores bem vivas o cenário desastroso que pode resultar da inércia.

“Amanhã perderemos a conta X, semana que vem a Y. Aí precisaremos demitir metade dos vendedores. Em dois meses estaremos nós dois sem emprego. Vamos conversar ou você prefere pular?”

____________________

NOTA: A situação descrita é meramente ilustrativa. O autor não se responsabiliza por acidentes causados por leitores que levarem o texto ao pé da letra.

Post to Twitter Tweet This Post Post to Delicious Delicious Post to Facebook Facebook

Escolhas, opções e tentações

Conversar com quem a gente concorda é uma delícia porque o papo flui fácil e não há atritos. Mas é conversando com quem a gente discorda que aprendemos coisas realmente relevantes.

A manhã de hoje foi assim, com uma amiga recém reaparecida e que pensa bem diferente de mim. Durante um interessante par de horas, discordamos de quase tudo; exceto que a conversa do outro é agradável.

* * * * * * * * * *

Um dos temas foi o corajoso dilema enfrentado por um amigo comum, no seu último período da faculdade.

Não só seu curso era muito difícil, numa das melhores universidades do Rio, mas ele também tinha/tem um altíssimo nível de exigência consigo mesmo.

Assim, quando ele quebrou a mão direita no momento decisivo, viu-se forçado a escolher entre abandonar o curso ou aprender a escrever com a mão esquerda e seguir adiante.

Sua  tenacidade, porém, o fez ir adiante, terminar o curso com louvor e ainda servir de inspiração para minha amiga.

Minha visão neste episódio difere porque, para mim, desistir jamais teria sido uma opção. Quebrar a mão seria um acidente que me obrigaria a aprender a escrever com a outra mão. Jamais, no entanto, um momento de tomar uma decisão.

Não digo isso porque eu sou um modelo de resistência e meu amigo titubeie ante suas adversidades. Talvez seja mesmo o oposto, pois ele é um cara extremamente corajoso e eu às vezes vacilo em momentos decisivos.

Algumas opções não deveriam existir

Mas em determinadas ocasiões somos nós que dificultamos as escolhas, ao considerar opções que não estavam lá, ao inserir alternativas que não existiam – ou não precisariam existir.

Claro que isso também pode ter servido como um incentivo interno extra ao meu amigo, na medida em que sua decisão – imaginária ou não – pode ter representado uma motivação a mais, uma superação adicional.

Se assim foi, tanto melhor, acho. Mas aí qualquer pequeno contratempo poderia servir-lhe como um novo momento da verdade:

- Quebrou a ponta da minha lapiseira. Entrego a prova do jeito que está?
- Perdi minha calculadora. Paro por aqui ou persisto?

Não é assim. Você não precisa transformar obstáculos em dilemas. Vencer obstáculos já é uma sensação suficientemente gostosa. Esqueça a escolha.

Quando você começa a criar opções que não existem, passa a conviver mais frequentemente com a ideia do fracasso. E isso é desnecessário.

* * * * * * * * * *

Se você não consegue evitar as opções inexistentes, como faz quando elas são reais e imadiatas? Como resiste às tentações?

Um dos principais aliados de quem quer resistir a uma tentação é tirá-la da mesa. Se você faz dieta não deve entupir sua dispensa de chocolate e outras guloseimas, só para testar sua força de vontade. Afinal, sua força-de-vontade é limitada!

Post to Twitter Tweet This Post Post to Delicious Delicious Post to Facebook Facebook

O jacaré, o urso e Kasparov

Ontem assisti uma entrevista do ex-campeão mundial de xadrez Gary Kasparov no Talks at Google – uma ótima iniciativa onde a inovadora empresa leva intelectuais para palestrar em suas dependências. Quando criança era fã de Kasparov por seu estilo de jogo e, anos depois, admiro-o por sua incrível velocidade de raciocínio e capacidade de enxergar a realidade por outro prisma.

Perguntado sobre a importância da psicologia no xadrez, ele lembra que em todo jogo onde há interação entre dois seres humanos carregará algum elemento psicológico. A tarefa será, então, entender onde estão as fraquezas e fortalezas de um e de outro, tentando desequilibrar em seu favor.

Seu exemplo vem das artes militares, tão bem representadas no xadrez: “Se numa batalha você estiver com a cavalaria, você procurará um vale. Se estiver contra a cavalaria, preferirá lutar nas montanhas. Você deverá criar as condições onde suas habilidades haverão de se manifestar.”

Ao que o entrevistador acrescentou: “Quem venceria uma luta entre um jacaré e um urso? Depende se a luta é no pântano ou na floresta.

Então eu lhe pergunto: Quais são suas principais habilidades? E você tem lutado mais no pântano ou na floresta?

Post to Twitter Tweet This Post Post to Delicious Delicious Post to Facebook Facebook