Administrando por música

Vineet Nayar é o visionário CEO da HCL Technologies, uma das maiores e mais bem sucedidas empresas de Tecnologia de Informação do mundo, baseada na Índia. Recentemente ele publicou o já best-seller Employees First, Customers Second: Turning Conventional Management Upside Down (Funcionários em Primeiro, Clientes em Segundo: Virando a Administração Tradicional de Cabeça para Baixo – ainda sem lançamento previsto no Brasil), onde apresenta ideias bastante incomuns no gerenciamento de uma empresa.

Seu argumento central é que quando você coloca o funcionário como a peça mais importante da sua empresa – mais ainda do que o próprio cliente – ele passa a ter as ferramentas e a motivação para atender bem seus clientes e gerar mais valor para a companhia.

Seu blog também tem ótimos insights sobre seu revolucionário modelo de administração e, no post mais recente, Nayar apresenta o Diretor de Marketing da HCLT, Krishnan Chatterjee, falando sobre o que há em comum entre suas duas paixões: a Administração e a Música.

Administrar é buscar ativamente o crescimento, num mundo pós-recessão, onde o crescimento morreu, diz Chatterjee. Para isso, continua, quando pensamos em inovação e criatividade, há um lugar de onde elas jamais virão: o sistema.

O vídeo abaixo está no blog citado e contém uma amostra do som da banda. A batida é bem parecida com o Red Hot Chili Peppers, mas o sotaque indiano…

Imagem de Amostra do You Tube

Em comum as duas carregam a necessidade de se rebelarem contra o sistema, fazendo da criatividade e da inovação suas principais forças motrizes. Da habilidade específica de cada músico, da paixão comum pela melodia, da criatividade individual e sem fronteiras de cada integrante da banda nascem as diferentes composições, estilos e tendências. Soa familiar?

Post to Twitter Tweet This Post Post to Delicious Delicious Post to Facebook Facebook

Especialistas ou Generalistas? Ambos!

Foi interessante ter iniciado essa discussão pouco antes de assistir a palestra de Gary Hamel na HSM Expo Management 2010. O autor de grandes sucessos da literatura corporativa, como Competindo pelo futuro, Hamel citou o caso de um CEO que deixou uma empresa de telecomunicações para tornar-se o principal executivo de uma companhia de petróleo.

Tal movimento – entre dois setores tão distintos – não teria sido possível se o executivo tivesse seu valor atrelado a conhecimentos específicos de determinado mercado. Fosse desta maneira, ele estaria restrito às empresas relacionadas à sua área de expertise.

Obviamente este caso refere-se a uma posição na empresa que, creio, não condiz com a maioria dos meus leitores. Ainda assim, oferece suficientes pistas.

Seus mais valiosos conhecimentos devem obedecer àquilo que a sua atividade exige. Como o CEO deve ocupar-se de praticamente todos os assuntos da empresa, ele deve ser capaz de passar por todos eles com a devida competência. Isto engloba Finanças, Contabilidade, Marketing, Produção, Vendas e assim por diante, bem como – ou, talvez, principalmente – a interrelação entre cada uma destas disciplinas.

Já um Diretor ou Vice-Presidente de Marketing deve ocupar-se, primordialmente, das funções relativas à cadeira que ocupa, observando as devidas peculiaridades. Ocorre que, via de regra, é um desses Diretores ou Vice-Presidentes que sucede o CEO. Frequentemente o escolhido é aquele que detém um conhecimento mais geral da corporação, ou seja, uma formação mais Generalista.

Assim, a resposta à questão sobre onde investir em seu aprimoramento deve ser precedida por duas outras perguntas: onde você está agora e até onde deseja ir?

Se ainda está numa posição inicial na empresa, você precisará subir degraus em seu próprio departamento – o que aponta para uma formação mais específica. Mas se já está chegando ao limite superior da sua área, deve procurar inteirar-se do funcionamento global da companhia – caso almeje cargos com mais responsabilidade.

* * * * * * * * * *

Claro que esta é uma visão bastante simplificada da realidade, que não leva em consideração o tipo de mercado em que se atua, tampouco a cultura organizacional da empresa. Cabe a você, portanto, fazer a correta leitura do que o seu setor – e, particularmente, a sua empresa – valoriza, bem como as oportunidades que haverão de se apresentar no médio e longo prazos – e, claro, se você quer brigar por elas.

Considere, no entanto, que como o mesmo Hamel alertou na palestra citada no início deste texto, vivemos uma época em que o conhecimento tem, cada vez mais, características de commodity, estando disponível a todos e em doses cada vez maiores. Diferencia-se, portanto, aquele que é capaz de saber onde encontrar aquilo que não sabe, descobrir aquilo que nunca viu ou entendeu e, especialmente, como e onde aplicar o conhecimento disponível por aí. Pois quando as respostas estão por todos os lados, o importante passa a ser fazer as perguntas corretas.

Post to Twitter Tweet This Post Post to Delicious Delicious Post to Facebook Facebook

Especialistas ou Generalistas?

Quando terminei a faculdade e comecei minha vida profissional de fato, uma dúvida sempre me intrigou: como eu daria continuidade ao meu desenvolvimento acadêmico? O que estudar? Mais especificamente, deveria me aprofundar naquilo em que acabara de me formar, ou buscar um conhecimento mais abrangente?

A filosofia de botequim de universidade ensina que você deve saber um pouco de tudo e tudo de muito pouco. Certo, mas qual é esse muito pouco sobre o qual você deve saber muito? Qual deve ser o foco da sua atenção, na hora de concentrar seus estudos?

Meu trabalho na Indústria Farmacêutica me deu uma boa pista sobre isso. Como Gerente de Produtos, você cuida de um ou mais produtos – às vezes correlacionados, às vezes não. Então você estuda um pouco sobre o produto, seus componentes, mecanismo de ação, posologia, eventos adversos, concorrentes, vantagens e desvantagens.

Um belo dia você era realocado para um novo produto, numa classe terapêutica completamente diferente, numa outra especialidade médica. Tudo o que estudara sobre o produto valeria de muito pouco neste novo desafio. E, provavelmente, isso aconteceria novamente. Esta foi a primeira pista.

Ao ler O Dilema da Inovação, aprendi com Clayton Christensen que quando sua empresa não muda o seu mercado, seus concorrentes podem fazer isso por você. A inovações podem alterar completamente os cenários, criando situações inteiramente novas. E aí, tudo o que você aprendeu sobre determinado contexto desaparece de uma hora para outra – e você não sabe mais nada. Era a segunda pista.

Você já recebeu alguma pista parecida – ou diferente? E o que pensa a respeito? Devemos investir na especialização ou numa formação mais generalista? Deixe sua opinião para me ajudar a escrever o próximo texto!

Post to Twitter Tweet This Post Post to Delicious Delicious Post to Facebook Facebook

Na ponta da língua

Seguindo nosso pequeno passeio através das peças que nossa mente nos prega, perguntei no texto anterior quais seriam as causas de mortes mais frequentes nos EUA (elas não diferem muito das do Brasil)1:

:: Problemas na gravidez, no parto e aborto somados OU Apendicite?
:: Todos os tipos de acidentes OU Ataque cardíaco?
:: Homicídio OU Suicídio2?
:: Acidentes com fogos de artifício OU Sarampo?
:: Suicídio OU Diabetes?
:: Câncer de mama OU Diabetes?

Antes de sugerir um mórbido interesse do autor pelos conhecimentos funestos de seus leitores, as respostas a essas perguntas indicam fatos muito interessantes. Se você escolheu a primeira opção para as seis questões, você é uma pessoa absolutamente normal. E errou todas. Mas por que?

Porque quando alguém perde um filho no parto, isso sai no jornal e te marca profundamente. Porque quando um casal morre num acidente de carro, isso aparece na TV e você se lembra disso por um bom tempo. Porque quando alguém é atingido por um raio vira notícia de primeira página e você fica chocado (péssimo trocadilho…).

A razão desses enganos é que estamos sempre mais inclinados a lembrar daquilo que, de alguma forma, nos impressiona. Por extensão, tais coisas sempre parecem ser mais frequentes do que realmente são. É o que os especialistas chamam de viés de disponibilidade (availability bias). Quando perguntados sobre algum assunto, tendemos a responder aquilo que está mais disponível em nossa memória – mas que não necessariamente representa a realidade3.

* * * * * * * * * *

Deixando a morbidez de lado, o que o viés de disponibilidade nos ensina é que alguns conceitos e idéias são repetidos à exaustão só porque estão ao alcance. Isso funciona para as causa mortis mais frequentes, o melhor mp3 player, o sistema operacional de computador mais usado e até mesmo o refrigerante preferido. Você se lembra – e eventualmente escolhe – o que está mais perto.

Isso não significa, absolutamente, que suas escolhas estejam erradas! Serve apenas de alerta que nem sempre é você quem faz suas escolhas. Ao menos não de forma consciente. E como você viu na série de perguntas que fiz acima, às vezes as respostas podem estar erradas, mesmo quando parecem absolutamente corretas.

Nadia Comaneci - não adianta olhar para trás

Este tipo de engano nos leva a tomar algumas decisões automáticas, que podem fazer grande sentido na hora mas que, depois, levam a resultados desastrosos. É o problema, por exemplo, de acharmos que a mesma solução serve para dilemas parecidos. Só porque funcionou uma vez não quer dizer que vá funcionar sempre.

Voltemos a 1976, nas Olimpíadas de Montreal, no Canadá, onde a romena Nadia Comaneci foi a primeira a tirar nota 10 numa prova de ginástica olímpica (algo tão inédito que o placar mostrou 1,00 porque não havia programação para estampar uma nota perfeita). Apesar dos seus 14 anos, suas apresentações foram tão perfeitas que lhe valeram mais duas notas máximas e obrigou os juízes a reescreverem partes das regras de pontuação.

Mas se sua apresentação fosse repetida num campeonato atual, provavemente ela não passaria à fase final. A ginástica olímpica mudou muito de lá para cá – assim como o resto do mundo – e boa parte disso foi por causa da própria Comaneci.

* * * * * * * * * *

Muito do que se fez já não serve mais. Cada novidade traz em si sua própria obsolescência. Ela rompe com um mundo para, um dia, ser rompida também. E se você só consegue fazer as coisas das quais consegue se lembrar, então é hora de se esquecer mais e se lembrar menos. É hora de criar mais e repetir menos. É hora de não dizer o que está na ponta da língua.

* * * * * * * * * *

Para o próximo texto, permita-me deixar uma pergunta bastante apropriada: imagine que você lance uma moeda normal para o alto algumas vezes. Considerando Ca=Cara e Co=Coroa, qual das alternativas abaixo seria um resultado mais provável?

a) Co; Co; Ca; Ca; Ca; Ca; Ca
b) Ca; Ca; Co; Ca; Co; Co; Ca
c) Co; Ca; Co; Ca; Co; Ca; Co
d) Co; Co; Co; Co; Co; Co

____________________

1. Os exemplos foram tirados de Inevitable Illusions: How Mistakes of Reason Rule Our Minds de Massimo Piattelli-Palmarini.

2. OK, este número deve diferir bastante entre os EUA e o Brasil.

3. É por isso, por exemplo, que ao ver um acidente na estrada as pessoas dirigem mais devagar. A vívida lembrança de um acidente as faz lembrar que também estão sujeitas a um. Assim, pessoas que viajam previnem-se mais contra os riscos que eles mais se lembram e não contra os que mais acontecem.

Post to Twitter Tweet This Post Post to Delicious Delicious Post to Facebook Facebook