Seguindo nosso pequeno passeio através das peças que nossa mente nos prega, perguntei no texto anterior quais seriam as causas de mortes mais frequentes nos EUA (elas não diferem muito das do Brasil)1:
:: Problemas na gravidez, no parto e aborto somados OU Apendicite?
:: Todos os tipos de acidentes OU Ataque cardíaco?
:: Homicídio OU Suicídio2?
:: Acidentes com fogos de artifício OU Sarampo?
:: Suicídio OU Diabetes?
:: Câncer de mama OU Diabetes?
Antes de sugerir um mórbido interesse do autor pelos conhecimentos funestos de seus leitores, as respostas a essas perguntas indicam fatos muito interessantes. Se você escolheu a primeira opção para as seis questões, você é uma pessoa absolutamente normal. E errou todas. Mas por que?
Porque quando alguém perde um filho no parto, isso sai no jornal e te marca profundamente. Porque quando um casal morre num acidente de carro, isso aparece na TV e você se lembra disso por um bom tempo. Porque quando alguém é atingido por um raio vira notícia de primeira página e você fica chocado (péssimo trocadilho…).
A razão desses enganos é que estamos sempre mais inclinados a lembrar daquilo que, de alguma forma, nos impressiona. Por extensão, tais coisas sempre parecem ser mais frequentes do que realmente são. É o que os especialistas chamam de viés de disponibilidade (availability bias). Quando perguntados sobre algum assunto, tendemos a responder aquilo que está mais disponível em nossa memória – mas que não necessariamente representa a realidade3.
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Deixando a morbidez de lado, o que o viés de disponibilidade nos ensina é que alguns conceitos e idéias são repetidos à exaustão só porque estão ao alcance. Isso funciona para as causa mortis mais frequentes, o melhor mp3 player, o sistema operacional de computador mais usado e até mesmo o refrigerante preferido. Você se lembra – e eventualmente escolhe – o que está mais perto.
Isso não significa, absolutamente, que suas escolhas estejam erradas! Serve apenas de alerta que nem sempre é você quem faz suas escolhas. Ao menos não de forma consciente. E como você viu na série de perguntas que fiz acima, às vezes as respostas podem estar erradas, mesmo quando parecem absolutamente corretas.

Nadia Comaneci - não adianta olhar para trás
Este tipo de engano nos leva a tomar algumas decisões automáticas, que podem fazer grande sentido na hora mas que, depois, levam a resultados desastrosos. É o problema, por exemplo, de acharmos que a mesma solução serve para dilemas parecidos. Só porque funcionou uma vez não quer dizer que vá funcionar sempre.
Voltemos a 1976, nas Olimpíadas de Montreal, no Canadá, onde a romena Nadia Comaneci foi a primeira a tirar nota 10 numa prova de ginástica olímpica (algo tão inédito que o placar mostrou 1,00 porque não havia programação para estampar uma nota perfeita). Apesar dos seus 14 anos, suas apresentações foram tão perfeitas que lhe valeram mais duas notas máximas e obrigou os juízes a reescreverem partes das regras de pontuação.
Mas se sua apresentação fosse repetida num campeonato atual, provavemente ela não passaria à fase final. A ginástica olímpica mudou muito de lá para cá – assim como o resto do mundo – e boa parte disso foi por causa da própria Comaneci.
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Muito do que se fez já não serve mais. Cada novidade traz em si sua própria obsolescência. Ela rompe com um mundo para, um dia, ser rompida também. E se você só consegue fazer as coisas das quais consegue se lembrar, então é hora de se esquecer mais e se lembrar menos. É hora de criar mais e repetir menos. É hora de não dizer o que está na ponta da língua.
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Para o próximo texto, permita-me deixar uma pergunta bastante apropriada: imagine que você lance uma moeda normal para o alto algumas vezes. Considerando Ca=Cara e Co=Coroa, qual das alternativas abaixo seria um resultado mais provável?
a) Co; Co; Ca; Ca; Ca; Ca; Ca
b) Ca; Ca; Co; Ca; Co; Co; Ca
c) Co; Ca; Co; Ca; Co; Ca; Co
d) Co; Co; Co; Co; Co; Co
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1. Os exemplos foram tirados de Inevitable Illusions: How Mistakes of Reason Rule Our Minds de Massimo Piattelli-Palmarini.
2. OK, este número deve diferir bastante entre os EUA e o Brasil.
3. É por isso, por exemplo, que ao ver um acidente na estrada as pessoas dirigem mais devagar. A vívida lembrança de um acidente as faz lembrar que também estão sujeitas a um. Assim, pessoas que viajam previnem-se mais contra os riscos que eles mais se lembram e não contra os que mais acontecem.
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