As dimensões do problema

Nas viagens de fim de ano deparei-me com duas soluções práticas e engenhosas para um aborrecimento típico, que todos enfrentamos nos aeroportos: as filas.

Para explicar melhor minha análise, comecarei pelo final, isto é, pelo desembarque no Aeroporto de Congonhas. A fila do taxi comum – muito organizada, por sinal – sempre padecia do velho desequilíbrio entre oferta e demanda. Muita gente, pouco taxi.

Espere aí! Pouco taxi? Isso está longe de ser verdade… A fila de taxis, enorme, sempre foi proporcional à fila de passageiros. O gargalo estava, então, no embarque dos passageiros, feito um a um. Como um supermercado com um caixa só.

Ora, mas se o supermercado tem vários caixas, será que a fila do taxi também não pode ter vários “caixas”? Claro que pode! E é aí que está a solução do problema: em vez de uma posição de embarque, criaram mais cinco. A fila, agora, anda seis vezes mais rápido do que antes.

Não sei se pensaram na analogia com as caixas de supermercado, mas muitas vezes encontramos a solução de um problema num outro mercado, uma outra situação.

A referência do título às dimensões do problema explica-se assim: usaram uma solução de espaço para resolver um problema de tempo.

A outra solução, bem parecida, está no embarque dos passageiros, lá na entrada do finger. Nada mais desagradável do que ficar dentro do avião esperando as pessoas acomodarem suas bagagens, nos devidos compartimentos, para que você possa dirigir-se ao seu lugar.

Especialmente se for alguém logo na primeira fileira, engarrafando todo mundo que vem atrás. Se o sujeito estivesse na última fileira, não atrapalharia ninguém, certo? Ora, então por que não deixamos os passageiros das últimas fileiras entrar primeiro…? Novamente trocando espaço por tempo, a fila de embarque agora é dividida em duas, de acordo com a numeração da poltrona*.

Nenhuma roda reiventada, nenhuma tecnologia de ponta aplicada – simplesmente criatividade.

____________________

* Há pessoas, ainda assim, que parecem ter um especial e inexplicável gosto por filas. Afinal, o que justifica alguém ficar de pé, na porta do embarque, muito antes de começarem a chamar os passageiros? Os assentos não estão marcados previamente…?

Post to Twitter Tweet This Post Post to Delicious Delicious Post to Facebook Facebook

Fazendo marola

Muitos sonham em trabalhar numa grande empresa. Se for a líder de mercado, então, parece juntar a fome com a vontade de comer. Mas é preciso entender bem o que significa estar no topo de um mercado.

Via de regra, o que uma empresa líder busca é continuar líder. Ponto. Tudo o que ela almeja é a estabilidade, a manutenção do status quo.

FONTE: Adrenalina Ecoturismo

Numa empresa assim você aprende o real significado da expressão don’t rock the boat – ou não balance o barco, em bom Português.

Em ambientes como este, nem sempre Inovação e Criatividade serão vistas com bons olhos, uma vez que toda novidade traz embutida em si certa dose de risco. E se há algo que empresas líderes evitam no seu vocabulário é a palavra risco. Têm verdadeira aversão a ele, quase pavor.

Claro que refiro-me aqui a empresas de um modo geral, especialmente as mais tradicionais. Aquelas que já carregam a Inovação no seu DNA – como Google – são exceções, não a regra.

O mesmo se aplica a setores onde a margem de lucro é muito alta. Mesmo havendo ineficiências, se os números estiverem bem, a resistência às mudanças serão muitas. O que, até certo ponto, é perfeitamente compreensível. Afinal, tomando emprestada a velha máxima do futebol, em time que está ganhando não se mexe.

O que é preciso levar em conta, no entanto, ao considerar mudar para uma empresa com estas características é se este é o tipo de ambiente ao qual você se encaixa.

Se você busca um ritmo de trabalho estável, com poucos desafios e objetivos modestos, então seu perfil combina com empresas firmemente estabelecidas – e não há nada de errado nisto.

Mas se você é do tipo inquieto, que sempre vê maneiras de melhorar algo, frequentemente imagina outras possibilidades de atingir os objetivos, ou enxerga um pouco mais adiante, então talvez esta não seja a melhor escolha para você.

Mudanças têm duas características que causam alergias: além dos já citados riscos, elas dão trabalho – coisa que muita gente não gosta. Afinal, o time está ganhando, lembra?

Por isso, antes de trocar a briga de foice no escuro das empresas que ainda buscam o seu lugar ao sol, pela comodidade e o glamour do líder, pense bem se isso combina com o seu perfil. Se combinar, faça a troca e prepare-se para sentar com cuidado para não balançar o barco. Se não combinar, fique onde está e continue remando, de preferência fazendo muita marola!

____________________

DICA DE TEXTO: Se você gosta de inovar, leia a resenha do novo livro de Tim Harford, Adapt – Why Success Always Starts With Failure, no qual o autor usa a Teoria da Evolução para explicar porque o fracasso faz parte do sucesso.

Post to Twitter Tweet This Post Post to Delicious Delicious Post to Facebook Facebook

Palmas para o Dois de Paus!

Se você trabalha numa grande empresa já deve ter reparado naquela pessoa que não faz absolutamente nada de diferente mas, mesmo assim, continua sendo promovida, elogiada e reconhecida. Um dois de paus de sucesso, uma vaquinha de presépio premiada.

Esta é a foto no seu crachá?

Pode até ser que você mesmo seja assim. Tudo bem, não há mal nenhum nisso. Diria até que boa parte das pessoas é assim e são elas que fazem a maioria das empresas funcionar. Mas nada além disso.

Empresas muito grandes, com processos rígidos e bem estabelecidos têm normas formais e informais para quase tudo. Em algumas situações você é premiado por seguir as regras – e não por seus resultados. Não é de se admirar, então, que as pessoas se preocupem mais em seguir as regras do que em gerar valor para a empresa.

A chave para entender esta situação atende pelo pomposo nome de status quo, que significa simplesmente estado atual. Muita gente parece estar secretamente satisfeita com o atual estado das coisas – apesar de não perder uma oportunidade para reclamar – e não vê motivos para mudá-lo.

Pior do que isso, se alguém está fazendo o que manda a cartilha da empresa e algo sai errado, a pessoa não tem culpa. Ela fez tudo direito, mas o resultado foi desastroso. Palmas para ela.

* * * * * * * * * *

Se você é um chefe que valoriza mais as regras do que os resultados, então provavelmente você pede mais explicações aos funcionários que tomam atitudes e decidem agir do que aos que não fazem nada.

Quem inova e dá a cara a tapa tem que se justificar, mostrar as razões por trás de suas ações. Quem fica olhando só precisa ficar olhando.

Quem acerta às vezes é mais lembrado pelos riscos que fez a empresa correr do que por seus resultados. Quem fica olhando é lembrado porque teve outro ano mais ou menos – exatamente igual ao anterior.

Como você pode fugir disso, como chefe? Uma das soluções é passar a premiar e reconhecer os funcionários por suas decisões – independentemente dos resultados obtidos. A ideia não é tão louca quanto parece, especialmente quando você começa a entender que boas decisões podem ter resultados ruins – e que a culpa disso não necessariamente é de quem tomou a decisão.

O fato é que a maioria das empresas depende de quem age e toma decisões. De quem tem disposição e coragem. Então é hora de parar de valorizar apenas os que seguem as regras. Lembre-se: status quo é um picolé.

Post to Twitter Tweet This Post Post to Delicious Delicious Post to Facebook Facebook

Administrando por música

Vineet Nayar é o visionário CEO da HCL Technologies, uma das maiores e mais bem sucedidas empresas de Tecnologia de Informação do mundo, baseada na Índia. Recentemente ele publicou o já best-seller Employees First, Customers Second: Turning Conventional Management Upside Down (Funcionários em Primeiro, Clientes em Segundo: Virando a Administração Tradicional de Cabeça para Baixo – ainda sem lançamento previsto no Brasil), onde apresenta ideias bastante incomuns no gerenciamento de uma empresa.

Seu argumento central é que quando você coloca o funcionário como a peça mais importante da sua empresa – mais ainda do que o próprio cliente – ele passa a ter as ferramentas e a motivação para atender bem seus clientes e gerar mais valor para a companhia.

Seu blog também tem ótimos insights sobre seu revolucionário modelo de administração e, no post mais recente, Nayar apresenta o Diretor de Marketing da HCLT, Krishnan Chatterjee, falando sobre o que há em comum entre suas duas paixões: a Administração e a Música.

Administrar é buscar ativamente o crescimento, num mundo pós-recessão, onde o crescimento morreu, diz Chatterjee. Para isso, continua, quando pensamos em inovação e criatividade, há um lugar de onde elas jamais virão: o sistema.

O vídeo abaixo está no blog citado e contém uma amostra do som da banda. A batida é bem parecida com o Red Hot Chili Peppers, mas o sotaque indiano…

Imagem de Amostra do You Tube

Em comum as duas carregam a necessidade de se rebelarem contra o sistema, fazendo da criatividade e da inovação suas principais forças motrizes. Da habilidade específica de cada músico, da paixão comum pela melodia, da criatividade individual e sem fronteiras de cada integrante da banda nascem as diferentes composições, estilos e tendências. Soa familiar?

Post to Twitter Tweet This Post Post to Delicious Delicious Post to Facebook Facebook