Geração narcYso

20 set
2010

Semana passada publiquei no meu blog um texto falando sobre a recente malcriação de Neymar, o craque do Santos. Em Geração neYmar, analiso por que o jogador simboliza tão bem alguns traços da Geração Y: “Vive as delícias de ser um astro, mas recusa-se a encarar suas dores. Gosta da fama e da fortuna, mas evita as responsabilidades. Quer ser tratado como adulto, mas sem a obrigação de comportar-se como tal”.

Também na semana passada um articulista da Harvard Business Review escreveu algo semelhante. Em Gen Y’s Most Perilous Trait (ou “O traço mais perigoso da Geração Y”) Andrew McAfee toma seus alunos como exemplos. Professor do MIT, McAfee começou a reparar como cada vez mais os estudantes falavam de si mesmos, exaltando seus feitos ainda que suas peripécias tivessem pouco ou nada a ver com o tema da aula.

Narcisismo, sabemos, tem a ver com um elevado senso de autoestima que, por outro lado, tende a refletir-se em exagerada autoconfiança. Mas de acordo com Christopher Chabris e Daniel Simons – autores do excelente The Invisible Gorilla - autoconfiança tem pouco a ver com competência. O problema, segundo eles, é que muita gente confunde um com o outro mas, conforme esclarecem, autoconfiança é um traço de personalidade e não um indicador de capacidade pessoal.

Chabris e Simons detalham em seu livro várias das ilusões que nos afetam diariamente e dedicam um capítulo inteiro à ilusão da confiança. Para eles, “Enxergamos a confiança como um claro sinal de habilidade profissional, memória acurada ou conhecimento especializado. Mas a confiança que a pessoa projeta é, na maioria das vezes, ilusória”.

Neymar tem um inegável talento para o futebol e, desde criança, já era festejado como tal. Sua chegada ao time profissional aumentou ainda mais a atenção que recebia da mídia e dos fãs, que passaram a celebrá-lo como uma estrela, quase um mito. Neste patamar, a celebração acelera o narcisismo que engrossa o manto de autoconfiança com que o atleta se veste.

Pois é com essa sensação de invencibilidade que o jogador entra em campo, minutos antes de atrasar a bola às mãos do goleiro numa pífia cobrança de pênalti. Mesmo assim, depois de um lance patético desses, o atleta continua com a mesma visão positiva de si. Cultiva, ainda, a imagem do herói que carrega o time nas costas e resolve todos os problemas dentro e fora de campo.

Mas o resto do time não vê as coisas da mesma forma – tampouco o técnico. Aí nascem os conflitos.

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Fora dos gramados, a onda de narcisismo inunda universidades e almas de estagiários, que enxergam em seus umbigos a salvação do mundo – mesmo que não tenham a menor idéia de por onde começar.

Claro que uma dose de autoconfiança é importante, especialmente para que você sinta a motivação de ser capaz de completar uma tarefa ou superar um obstáculo. O problema começa quando isso é exagerado. Quando você acha que pode curar o câncer enquanto dorme, ou que vai encontrar uma forma limpa e barata de energia durante o seu banho. E, além disso, quer receber os aplausos antecipadamente.

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Sei que muitos dos meus leitores fazem parte da Geração Y e que boa parte de vocês já está torcendo o nariz a esta altura. Por outro lado, deve haver algum motivo para você continuar lendo o texto até aqui. Seria por que alguma coisa no texto realmente faz sentido? Por que algumas partes soaram incomodamente familiares?

Seja qual for o motivo, é importante termos a medida exata – ou a mais aproximada possível – de nossas possibilidades. Os elogios desmedidos que pais fazem a seus filhos* – incentivados por alguma onda motivacional nonsense – são responsáveis por parte desta tendência narcisista.

Outra parte vem do crescente culto à celebridade e uma sociedade que precisa de ídolos – com suas inesquecíveis realizações e seus inevitáveis escândalos. Todos querem ser os ídolos e todos se acham capazes de tal, preparados para tal e, last but not least, merecedores de tal. Mas, obviamente, não há espaços para todos. E também não há problema nenhum nisso. Há muitas outras coisas maravilhosas para serem feitas. Você não precisa ser o melhor, ser o primeiro, nem ser o único.

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E, para finalizar este choque de gerações, deixo vocês com um ídolo da minha geração chamando a atenção do próprio filho. Com uma dose racionada de elogios, Rocky Balboa diz ao menino que ele precisa mostrar o seu valor mas que, durante o caminho, ainda vai apanhar um bocado.

Imagem de Amostra do You Tube

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* Você sabe qual a diferença entre dizer a uma criança que ela é inteligente ou que é esforçada? Veja em Dicas de um pai que nunca foi.

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14 Respostas para “ Geração narcYso ”

    Aline Soares diz:

    Rodolfo, no começo achei um pouco exagerado, ainda mais o texto do seu blog. Mas depois fui fazendo uma auto-crítica e vi que faço muitas das coisas que você falou. Só não precisava ser tão duro. De qualquer forma, a carapuça serviu mesmo.

    Obrigada, Aline.

    Rafael Paim diz:

    Antes a crítica que me faz crescer do que o elogio que me corrompe. É necessário fazer a crítica da maneira e na hora certa e os elogios serem poucos e objetivos!

    Gabriel Serpa diz:

    Eu estou surpreso! Meus parabéns pelo post.
    Participo desta geração, tenho meus 23 anos e afirmo que estava precisando de um banho de água fria destes. Acredito que o jovem vai chegando em um ponto que fica insuportável, quer mais e mais, sem paciência para subir os degraus do aprendizado.

    Concordo em tudo!

    Grande abraço

    Simone Pietroniro diz:

    Excelente texto Rodolfo ! Como você também comenta no seu blog o que falta é a “provaçãdo de valores”. A geração Y vive a impulsividade, a impaciência e a postergação das responsabilidades. Um estudo feito pela Bridge Research também mostrou isto de forma bastante clara em três grandes capitais brasileiras. O que me parece é que os “homens” tem buscado absurdamente acelerar o ritmo da vida. Precisamos resgatar e refletir por exemplo Fernando Pessoa – “cada coisa a seu tempo tem seu tempo, não florescem no inverno os arvoredos, nem pela primavera têm branco frio os campos”. Falta planejamento educacional e familiar para que não só o mundo seja melhor para nossos filhos como nossos filhos sejam melhores para um mundo melhor. Grande abraço

    @lizaar diz:

    aumenta o corpo do texto para 12, amigo. e dos comments tambem. pra ficar aprazivel de ler, senao :~

    Valdir Jr diz:

    Ta parecendo mais uma dor de cutuvelo da geração passada, sou jovem estou no mercado e certamente enxergo nos meus amigos (e em mim) toda essa autoconfiança…porém se não fosse a autoconfiança desta geração muitas coisas não estariam acontecendo…basta ver a audácia dos jovens do google,fecebook e twitter… a autoconfiaça dessa geração nos fez aceitar desafios por objetivos maiores, por isso também cada vez mais as organizações buscam pessoas mais jovens e arrojadas e colocam em cargos que até pouco tempo eram ocupados por pessoas com longos anos de experinência que não tinham autoconfiança suficiente para vislumbrar objetivos maiores .

    Rodolfo Araújo diz:

    Valdir,

    Os exemplos que você deu são exceções da Geração Y. Toda geração tem seus fora-de-série. Google, Facebook e Twitter rodam em plataformas criadas por uma geração anterior a dos seus criadores. Assim como a anterior criou Sistemas Operacionais – e assim por diante.

    O que eu saliento no texto é que não se deve confundir autoconfiança com competência. Aliás, os empreendedores a que você se refere são extremamente competentes. Mas qual deles é marcadamente autoconfiante?

    Não há nada de dor de, hummmm…, cotovelo aqui. Talvez uma geração que não consiga ouvir críticas – daí o exagerado narcisismo.

    Pedro Armeiro diz:

    Vocês da Geração Y, antes de criticar alguém precisam aprender a escrever. Seus textos são indecifráveis. Além de não saber nada de gramática, são incapazes de acertar a grafia correta de uma palavra ridícula como “cotovelo”.

    Dá pena ver a forma como escrevem – e isso é falta de leitura. Deviam agradecer a chance de ler um texto como esses e aprender com ele, antes de criticar.

    Parabéns, Rodolfo!

    Camila diz:

    Rodolfo,

    Concordo em parte com seu texto. Achei um pouco exagerado, porque conheço pessoas que se encaixam nesse perfil e outros que não. Claro, todo tipo de generalização invariavelmente não se aplica a todos. O exagero a que me refiro é principalmente em relação aos heróis.

    Nós Ys crescemos em um mundo competitivo, crescemos ouvindo que precisávamos ter mais escolaridade que nossos pais se quiséssemos ser alguém. Depositaram muitas expectativas sobre nós por termos nascido “banhados em bits”, como coloca Tapscott. Por isso entendo que é uma relação de causa e efeito.

    Resumindo, acho que o que você colocou está certo, mas está com uma lente de aumento, não expondo os motivos pelos quais ocorrem estes “sintomas” na geração Y.

    Pedro Armeiro,

    Considerei extremamente preconceituosa sua consideração. Tenho 23 anos, li vários livros ao longo da minha vida e me considero uma pessoa que escreve razoavelmente bem. Você generalizou de uma forma agressiva o que não se aplica a muitos Ys.

    Guiu Rufino diz:

    Muito bem escrito, pena que muitos dessa geração “Y” não se importam com coisas inteligentes e embasadas como estas.
    Infelizmente esse tipo de “mulecada” é o futuro do nosso país. Onde vamos parar com tanta falta de maturidade???

    Rafael N. diz:

    Ótimo texto. Entretanto é insistente quando comparam o Neymar toda hora com a Geração Y. Não é pelo fato desse cidadão ser indisciplinado, arrogante e abusado que isso seja uma caracteristica dos Y’s. É perfil dele que é mais um produto do meio do futebol. Não considero justo as generalizações.

    *Guiu Rufino: Não esquenta. A gente vai produzir tanto ou mais que vocês. Obrigado por nos apresentar as ferramentas para isso. Boa aposentadoria, rs… Grande abraço.

    Rodolfo Araújo diz:

    Rafael,

    Você está mostrando exatamente a falta de maturidade a que o Guiu se refere. E a mesma arrogância do Neymar.

    Fez sua crítica no primeiro parágrafo, mas colocou tudo a perder no segundo e confirmou a generalização.

    Atenciosamente, Rodolfo.

    Anderson diz:

    Olá Rodolfo, foi ótima a maneira clara como você expôs as características da geração Y, eu sou um cara de 1983 e pra piorar sou de áries, rssss. Estou buscando fazer um paralelo entre a geração X e a geração Y, porque querendo ou não as duas se completam, mas infelizmente o Narcisismo em demasia nos põe tudo a perder. Quando tiver um tempo acesse meu blog, ontem postei um vídeo que encontrei no Youtube que retrata de forma bem humorada o choque de gerações. Abraço!

    Márcio diz:

    Retificando

    Para lembrar O Guru da Aplle, Steve Jobs e o Bill Gattes são anteriores a Geração Y.
    Steven Spilberg ou James Cameron são da antiga Geração. Estão surgindo também naturalmente uma nova geração de talentos, que fazem parte da geração Y.

    A minha esposa é da Geração Y, tem auto-confiança e determinação e a admiro muito. Na geração Y hoje que me surpreende bastante positivamente são as mulheres.

    Com foi dito pela Camila há uma relação de causa e efeito, os pais atualmente não sabem dizer NÃO e estimulam a auto-estima dos seus filhos para fora da realidade. Ou seja, elogios inconsistentes, mas que os iludem.

    Temos que saber lidar com essa diferença de gerações e procurar a harmonia. Para uma geração naturalmente com seus pontos negativos, citado neste artigo, mas também com muitos pontos positivos, como por exemplo uma geração que sabe lidar melhor com as diferenças.

    Abraços
    Márcio P

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