Na ponta da lÃngua
2010
Seguindo nosso pequeno passeio através das peças que nossa mente nos prega, perguntei no texto anterior quais seriam as causas de mortes mais frequentes nos EUA (elas não diferem muito das do Brasil)1:
:: Problemas na gravidez, no parto e aborto somados OU Apendicite?
:: Todos os tipos de acidentes OU Ataque cardÃaco?
:: HomicÃdio OU SuicÃdio2?
:: Acidentes com fogos de artifÃcio OU Sarampo?
:: SuicÃdio OU Diabetes?
:: Câncer de mama OU Diabetes?
Antes de sugerir um mórbido interesse do autor pelos conhecimentos funestos de seus leitores, as respostas a essas perguntas indicam fatos muito interessantes. Se você escolheu a primeira opção para as seis questões, você é uma pessoa absolutamente normal. E errou todas. Mas por que?
Porque quando alguém perde um filho no parto, isso sai no jornal e te marca profundamente. Porque quando um casal morre num acidente de carro, isso aparece na TV e você se lembra disso por um bom tempo. Porque quando alguém é atingido por um raio vira notÃcia de primeira página e você fica chocado (péssimo trocadilho…).
A razão desses enganos é que estamos sempre mais inclinados a lembrar daquilo que, de alguma forma, nos impressiona. Por extensão, tais coisas sempre parecem ser mais frequentes do que realmente são. É o que os especialistas chamam de viés de disponibilidade (availability bias). Quando perguntados sobre algum assunto, tendemos a responder aquilo que está mais disponÃvel em nossa memória – mas que não necessariamente representa a realidade3.
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Deixando a morbidez de lado, o que o viés de disponibilidade nos ensina é que alguns conceitos e idéias são repetidos à exaustão só porque estão ao alcance. Isso funciona para as causa mortis mais frequentes, o melhor mp3 player, o sistema operacional de computador mais usado e até mesmo o refrigerante preferido. Você se lembra – e eventualmente escolhe – o que está mais perto.
Isso não significa, absolutamente, que suas escolhas estejam erradas! Serve apenas de alerta que nem sempre é você quem faz suas escolhas. Ao menos não de forma consciente. E como você viu na série de perguntas que fiz acima, às vezes as respostas podem estar erradas, mesmo quando parecem absolutamente corretas.
Este tipo de engano nos leva a tomar algumas decisões automáticas, que podem fazer grande sentido na hora mas que, depois, levam a resultados desastrosos. É o problema, por exemplo, de acharmos que a mesma solução serve para dilemas parecidos. Só porque funcionou uma vez não quer dizer que vá funcionar sempre.
Voltemos a 1976, nas OlimpÃadas de Montreal, no Canadá, onde a romena Nadia Comaneci foi a primeira a tirar nota 10 numa prova de ginástica olÃmpica (algo tão inédito que o placar mostrou 1,00 porque não havia programação para estampar uma nota perfeita). Apesar dos seus 14 anos, suas apresentações foram tão perfeitas que lhe valeram mais duas notas máximas e obrigou os juÃzes a reescreverem partes das regras de pontuação.
Mas se sua apresentação fosse repetida num campeonato atual, provavemente ela não passaria à fase final. A ginástica olÃmpica mudou muito de lá para cá – assim como o resto do mundo – e boa parte disso foi por causa da própria Comaneci.
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Muito do que se fez já não serve mais. Cada novidade traz em si sua própria obsolescência. Ela rompe com um mundo para, um dia, ser rompida também. E se você só consegue fazer as coisas das quais consegue se lembrar, então é hora de se esquecer mais e se lembrar menos. É hora de criar mais e repetir menos. É hora de não dizer o que está na ponta da lÃngua.
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Para o próximo texto, permita-me deixar uma pergunta bastante apropriada: imagine que você lance uma moeda normal para o alto algumas vezes. Considerando Ca=Cara e Co=Coroa, qual das alternativas abaixo seria um resultado mais provável?
a) Co; Co; Ca; Ca; Ca; Ca; Ca
b) Ca; Ca; Co; Ca; Co; Co; Ca
c) Co; Ca; Co; Ca; Co; Ca; Co
d) Co; Co; Co; Co; Co; Co
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1. Os exemplos foram tirados de Inevitable Illusions: How Mistakes of Reason Rule Our Minds de Massimo Piattelli-Palmarini.
2. OK, este número deve diferir bastante entre os EUA e o Brasil.
3. É por isso, por exemplo, que ao ver um acidente na estrada as pessoas dirigem mais devagar. A vÃvida lembrança de um acidente as faz lembrar que também estão sujeitas a um. Assim, pessoas que viajam previnem-se mais contra os riscos que eles mais se lembram e não contra os que mais acontecem.


26 abr, 2010 16:46
Rodolfo, essa parte de que “não sou eu quem faz as minhas escolhas” é bem forte, hein? Mas até que pelo que você falou faz muito sentido.
Obrigado pela dica! Um abraço, Aline.
26 abr, 2010 19:12
[...] This post was mentioned on Twitter by Revista Você S/A and Michel Geronazzo, Alê Borba. Alê Borba said: RT @vocesa: Coluna do@raraujo28: "Só porque funcionou uma vez não quer dizer que vá funcionar sempre". http://bit.ly/bl5BfA [...]
26 abr, 2010 22:25
posso responder? probabilidades exatamente iguais!!!
27 abr, 2010 11:46
Sobre o cara e coroa: é mais fácil que ocorra a letra d, porque você teria que fazer um lance de moeda a menos. A probabilidade de acontecer as letras a, b ou c são de 1:128 e a letra d é de 1:64, se não me engano.
28 abr, 2010 17:13
Cada novidade traz em si sua própria obsolescência, muito interessante as vezes nosos hábitos e pensamentos se tornam desatualizados perante as situações rotineiras.
Abraço.
30 abr, 2010 16:49
E ai Rodolfo,
Ah… a pergunta nem é tao dificil assim…. hehehe
A moeda é uma moeda viciada (normal, realista) ou uma moeda imaginária jogava para cima em um mundo imaginário?
Porque a resposta pode mudar de acordo com essas informações. Se ela for uma moeda qualquer, viciada, que foi jogada para cima em nosso mundo, eu nao saberia lhe falar as probabilidades, muita coisa poderia variar na resposta. Pela relação entre a moeda, quem joga e o ambiente que a envolve.
Agora se fosse uma moeda hipoteticamente nao viciada , em condições perfeitas as probabilidades de qualquer uma das alternativas seriam iguais. Em cada jogada existiria 50% de cara ou coroa. Considerando que jogadas passadas nao lhe tornariam um melhor jogador nem lhe influenciaria em suas jogadas futuras, existiriam probabilidades iguais para todas as alternativas.
04 mai, 2010 11:09
Rodolfo.
Uma sugestão de tema.
Por que a Globo enfoca tanto no combate ao Crack e nunca falou em combate contra a CocaÃna, por exemplo?
Será que há alguma coisa por trás disso?
Abraço!
13 mai, 2010 16:29
Deixa a farinha em paz por favor, ela não tem nada a ver com isso….kkkkkkk
Só pra gastar, desculpem a brindadeira….mas é verdade…?!
14 out, 2010 15:31
Resposta “D”.
A chance de dar cara ou coroa é 1/2. Cada vez que você joga uma moeda para o alto a chance é 1/2 de dar qualquer um dos resultados (cara ou coroa). E o arremesso anterior não influencia no seguinte.
Portanto, a chance de dar o resultado a, b ou c é: 1/128
A chance de dar d, por outro lado, é 1/64
Se você jogasse a moeda mais uma vez, no entanto, empataria.
31 jan, 2011 12:12
[...] final do texto anterior deixei uma pergunta um tanto capciosa no ar: considerando Ca=Cara e Co=Coroa, qual das alternativas [...]
15 mar, 2011 16:16
O campo da probabilidade é talvez o que mais oferece munição para os enganos das avaliações humanas.
Um grande mico (fato real) dos especialistas em probabilidade pode ser aqui encontrado:
http://gatosepapos.blogspot.com/2011/03/mulher-cabeca.html