Da ameaça das Punições a Jean Valjean

18 out
2009

Seguindo a discussão sobre Poder – ou o modo como exercemos influência sobre os outros – hoje abordaremos a terceira e última modalidade que envolve algum tipo de ascendência apoiada numa relação hierárquica explícita. Por força do cargo que ocupa, o chefe tem a prerrogativa de impôr determinadas condições a seus subordinados, seja através da sua Autoridade ou pelo Controle sobre as Recompensas. Sua posição permite-o, também, aplicar Punições àqueles que comanda, os quais, por receio de sofrê-las, seguem o que lhes é dito.

Ainda que este instrumento pareça um tanto quanto bárbaro ou arcaico, ele ainda é empregado nas melhores famílias. Tais pressões podem ser ser explícitas, sob a forma de medidas disciplinares como advertências e suspensões, ou variações ainda mais drásticas e definitivas, como uma demissão. Como estas são mais facilmente identificáveis e não precisam de maiores explicações passemos, então, às mais sutis e talvez até mais perniciosas.

As punições assumem, às vezes, disfarces vários, formas dissimuladas, falsos contornos. Mas não são menos prejudiciais por causa disso. Algumas decisões corriqueiras, aparentemente inofensivas e naturais até, podem esconder maquiavélicas intenções. Para quem você reclama se for escalado para o plantão noturno da firma exatamente no dia do seu aniversário? Como você questiona ser repentinamente transferido para Itaberabinha do Norte, logo ali onde Judas perdeu o Band-Aid? Ou não ter suas férias aprovadas para fazer aquela viagem planejada com a família?

Tais exemplos, tão exagerados quanto cruéis, representam extremos que acabam tornando o ambiente de trabalho insuportável e cujo único objetivo parece ser mostrar quem manda – de uma forma ou de outra. Antes de atingir o objetivo do exercício do Poder (lembremos: fazer com que algo seja realizado), punições severas demais costumam ter efeito contrário, gerando discórdia, semeando conflitos, alimentando medo e desconfiança.

Em meados do século passado o psicólogo americano B. F. Skinner já havia demonstrado que as punições não funcionam como método de ensino/aprendizado. Para ele, a melhor maneira de se incentivar algum tipo de comportamento é através do reforço positivo, isto é: elogios.

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É preciso reconhecer, por outro lado, que determinadas atitudes não podem passar em branco, sob pena de se perder o controle do ambiente como um todo, transformando-o numa anarquia.  O natural complexo de perseguição de quem sofre uma punição, vez ou outra não se justifica. Sansões são instrumentos de controle e disciplina; não de capricho nem muito menos de vingança.

Ainda assim, há alternativas. Muitas vezes, deixar de aplicar uma punição – o que na maioria das situações é uma opção do líder – resulta em extraordinário efeito motivacional, instrumento de reflexão, auto-aprendizado e, incrivelmente, de ganho de confiança.

No início de Os miseráveis, a obra-prima de Victor Hugo, Jean Valjean era um ladrão que chegou a ser preso por furtar jóias da casa do bispo que, caridosamente, acolhera-o. Confrontado pela polícia com sua vítima, o criminoso vê o clérigo mentir ao oficial dizendo-lhe que havia dado os objetos ao malfeitor. O extremo e inesperado gesto de generosidade do religioso surpreendeu tanto o policial quanto o próprio Valjean que, dali em diante, voltou a acreditar na bondade das pessoas passando, ele próprio, a buscar o bem.

Guardadas as devidas proporções, seria a atitude do padre e a consequente metamorfose de Jean Valjean algo tão utópico assim?

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Nos próximos textos, veremos as formas tácitas de exercício de Poder, como Carisma e Competência. Temas mais leves, prometo. Enquanto isso, você já viveu alguma situação onde recebeu alguma punição indevida – explícita ou implícita? Conte nos comentários. Um abraço, Rodolfo.

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8 Respostas para “ Da ameaça das Punições a Jean Valjean ”

    Luísa Alvarenga diz:

    Rodolfo, esse foi o melhor texto que li nos últimos tempos! Sua citação do Jean Valjean foi simplesmente fantástica! Estou ansiosa para ler os próximos.

    Luísa.

    Marcelo Coelho Vieira diz:

    Rodolfo,

    Sobre a história de Jean, ainda que a atitude dele tenha sido errada (roubo dos objetos), me parece que havia nele escondida uma “alma boa”, talvez massacrada pela vida. A ação do Bispo, me parece, faz com que Jean “resgate” a bondade que sempre existira dentro dele. O Bispo, por sua vez, teve a sensibilidade de ver por trás das aparências (ou dos fatos imediatos) e ver na sua ação, um movimento de redenção (ou resgate) daquela alma “escondida”.

    Nem sempre (talvez, infelizmente, quase nunca) temos esta sensibilidade (como a do Bispo) de enxergar por trás dos fatos a verdadeira essência daquele ser humano que está à nossa frente. Daí aplicamos “a lei”.

    Refletindo nesta linha, talvez seja por aí que se justifique a frase: “aos amigos tudo, aos inimigos a lei.”

    Um grande abraço,

    Marcelo.
    (estou por aqui também… rs)

    Anonimo diz:

    Eu tenho uma pergunta. E no caso de equipe?
    Há uns 2,5 anos +- eu fui estagiária em um local que tinha internet liberada. Não havia problemas em acessar e-mail, desde que não prejudicasse a produtividade. Nessa equipe 3 estagiários começaram a acessar o msn e receberam advertências, individuais discretas (via e-mail). Diante da insistência desses 3 a equipe recebeu uma advertência geral (em reunião), apesar da esmagadora maioria (cerca de 7) não abusar do acesso, limitando-se ao e-mail. Novamente os 3 insistiram no uso do msn e, como cartada final tivemos TODO o acesso cortado. Eu entendo que pode ser prejudicial fazer distinção no tratamento de membros da equipe, mas eu me senti extremamente injustiçada.
    Na minha opinião essa atitude foi extremamente falha pois, antes de todos sermos punidos, falávamos normalmente com esses 3, trabalhávamos juntos e depois disso, esses 3 começaram a ter idéias vetadas, mesmo que fossem boas. O que contribuiu em muito para que eles se retirasem da empresa voluntariamente.

    Obs1: Após esses 3 se demitirem, a empresa permaneceu com o bloqueio na internet.

    Obs2: Após a reunião de advertência, nós fizemos uma reunião informal, entre a gente para pedirmos que eles parassem de usar o msn e pois isso poderia prejudicar o nosso superior que era uma pessoa muito bacana. Mas diante da respota “O problema é nosso, estamos assumindo os riscos e e houver punição erá apenas com a gente”. O assunto morreu ali, para não acabar em briga.

    Obs3: Durante um período de reorganização de espaço, tivemos que “pedir emprestado” o espaço de outro setor, neste espaço havia 2 computadores com aceso liberado a internet, (que se localizavam magicamente atrás de uma pilastra), eu e uma amiga ficamo nesses computadores (nós usavamos a internet apenas para e-mail da faculdade, *quase* nunca o Orkut, diferente dos outros q não uavam o msn, mas viviam no Orkut). 2 meses depois, voltamos ao nosso espaço sem internet. No final do estágio eu e ela fomos a únicas que a empresa ofereceu efetivação, e nós duas recusamos. Afinal o periodo de estágio é uma avaliação de mão dupla né e essa história + alguns outros absurdos, contribuiram para o nosso não.

    Como estou no início da minha carreira, gostaria de saber a sua opinião sobre esse caso. Sei que os outros absurdos foram grandes o suficiente para justificarem a nossa recusa, mas esse caso específico sempre me incomodou bastante.
    *Estou certa em achar essa punição falha? Ou a minha falta de experiência está me impedindo de ver além?
    *O uso dos computadores na obs3 foi realmente por mérito, ou talvez seja só coincidência, já que depois voltamos a ficar sem internet depois
    *Se eles sabiam quem eram os 3 que abusavam, porque não fizeram uma reunião com os 3 antes de punir a todos?
    *Você acha que nós 7 deveríamos ter exposto o problema aos nossos superiores? Tinhamos uma relação bem próxima ao nosso superior direto (volta e meia ganhávamos bombons, quando um projeto dava certo, almoçávamo juntos nos aniversários, íamos no bar após o expediente, etc), mas era uma exceção, os superiores em geral tratavam seus subordinados com distanciamento. A ponto de uma vez, virem a minha mesa o gerente local (meu superior) e o gerente estadual para verem um projeto e o estadual não falava comigo diretamente, precisava do intermédio do local, fazendo eu me sentir a mosquinha do coco do cavalo do bandido, enquanto eu tentava defender o projeto, olhando nos olhos dele, falando com ele, fazia uma pergunta, ele respondia pro local pra ele falar comigo, nem o “bom dia” e o “tchau” aquela criatura respondeu pra mim … angustiante.

    Rodolfo Araújo diz:

    Olá você, dono(a) da dúvida e de perguntas bem interessantes – e que cabem muito bem nesse tema! Como você deu maiores detalhes da questão do acesso à Internet, vou concentrar-me nela, OK?

    Acesso à Internet representa um recurso da empresa. Algo pelo qual ela paga com a única finalidade de oferecer a seus funcionários instrumentos para que realizem o seu trabalho da melhor maneira possível – assim como cartuchos de impressora ou canetas esferográficas, por exemplo.

    Quando você utiliza este recurso para fins pessoais, está usando dinheiro da empresa em benefício próprio. Como não há dinheiro de verdade no meio dessa transação, pouca gente a percebe assim, mas fica fácil se você se imaginar levando um cartucho de impressora para casa, não*?

    Além disso, você está usando o tempo em que deveria estar trabalhando para resolver seus assuntos pessoais – o que também é um desvio de conduta.

    Mas a maioria das empresas adota uma postura mais liberal, visto que determinados usos da Internet podem melhorar a produtividade. Por exemplo, é melhor para a empresa que você pague suas contas pela Internet do que perca tempo indo ao banco.

    O problema é quando as pessoas começam a abusar desse benefício, como aconteceu com seus colegas. Qualquer empresa mais organizada tecnologicamente consegue saber quem navega, onde navega e quanto tempo navega. Se permite isso ou não, é uma questão de política corporativa.

    Algumas empresas são mais rígidas que outras e bloqueiam qualquer acesso externo. Outras bloqueiam apenas alguns sites específicos ou deixam tudo aberto, cabendo ao usuário usar a Internet com moderação.

    No caso específico dos seus colegas, acho que já deixei claro a minha posição: eles receberam uma punição por transgredirem uma regra que, segundo me pareceu, estava bem clara – até porque já haviam sido advertidos.

    O que eles fizeram foi testar os limites da empresa. Mesmo sabendo das regras, mantiveram o comportamento inadequado até serem advertidos. Mesmo depois disso, continuaram indo adiante, talvez apostando que a empresa não seria tão drástica.

    O problema é que a empresa resolveu cumprir o que escrevi na segunda parte do texto: determinadas atitudes não podem passar em branco, sob pena de se perder o controle do ambiente como um todo, transformando-o numa anarquia. Seus colegas serviram como exemplo, ilustrando que alguns valores devem ser observados e não estão escritos nas regras de conduta à toa.

    Os obedientes preocupados tentaram mostrar aos três desobedientes (posso chamá-los Três Patetas?) que o comportamento deles poderia prejudicar toda a equipe. Entendo que eles não ligaram a mínima para isso e, mostrando pouquíssimo espírito de equipe, se lixaram para vocês. O resultado foi a punição geral, com o corte indiscriminado da Internet.

    Apesar de você dizer que a enorme maioria não usava a Internet para fins pessoais, acho que 30% (3 em 10) é um número expressivo. Ainda que a decisão pareça jogar os obedientes contra os desobedientes, na verdade ela reforça ainda mais o laços entre os obedientes e dá ainda mais importância aos valores da empresa.

    Certamente essa história deverá ser contada por lá durante algum tempo, exemplificando o que acontece com quem não cumpre certas determinações. Deve-se evitar, no entanto, olhar isso como se fosse uma injustiça, mas sim reconhecer que a empresa é séria em suas políticas. Não seria estranho trabalhar numa empresa onde as regras são descumpridas? Uma empresa que descumpre regras de punições, também não pode deixar de cumprir uma regra de premiação? E, convenhamos, essa política não é nenhum absurdo, certo?

    Bom, espero que tenha respondido sua pergunta – ou ao menos as partes mais importantes. Qualquer coisa é só escrever! Um abraço, Rodolfo.

    __________

    * Para exemplos mais ilustrativos sobre as diferenças entre furtar recursos e furtar dinheiro, veja esse texto: Seu ladrãozinho barato!

    anonimo diz:

    Obrigada pela resposta realmente me fez pensar em vários pontos.

    Muito interessante tbm o post indicado, parece com uma amiga que, confiando nos membros da empresa vendia bombons guardados na geladeira do refeitório. Pega 1 bom bom, vai ate a mesa dela e paga. Simples? já deve imaginar que não foi uma idéia tão bem sucedida assim…. é triste.
    abs

    O persuasivo Poder do Carisma « O líder acidental diz:

    [...] aquilo que ele deseja; seja através da sua Autoridade ou do controle sobre as Recompensas ou Punições. Essa tríade encerra as formas de persuasão baseadas numa força hierárquica, em que o cargo [...]

    Qual a diferença entre Poder e Autoridade? « O líder acidental diz:

    [...] Punições – de efeito inverso ao item anterior, o direito de aplicar (ou não) determinada pena a alguém tem [...]

    Não confessarás « O líder acidental diz:

    [...] caráter vital? Um dos motivos seria evitar transparecer alguma incompetência e, assim, escapar da punição a ela associada. O resultado é que o problema omitido toma proporções bem maiores e, ao se [...]

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