A Escada Lateral
2010
Artigo “A ESCADA LATERAL”, do engenheiro civil e escritor Wellington Cardoso de Miranda (twitter @Wellington_XYZ)
” Desde os primeiros sonhos sobre nossa carreira, seja na infância (“mamãe, vou ser piloto quando crescer”), seja na juventude, seja mesmo quando já temos uma carreira, a primeira imagem que vem à nossa mente é de uma estrutura vertical que deve ser escalada até o topo, passo a passo, e quanto mais rápido melhor.
Com esta imagem do que seria o progresso profissional, inicia-se nossa luta para subir sempre, cada vez mais, rumo ao topo. Em um mundo globalizado, acelerado, e extremamente competitivo, o imediatismo acaba vencendo a luta contra o planejamento e a estratégia. Com tanta pressa, a dinâmica, o movimento, acompanham nossos sonhos e buscas, mal nos deixando respirar, arrefecer, parar, pensar e refletir sobre o que poderia ser o “topo”.
Como o topo aparenta ser quase inatingível, acabamos por criar vários topos intermediários, como auto-defesa para vencer o desânimo. Assim podemos nos sentir realizados de tempos em tempos, em cada degrau de nossa escalada.
O degrau da escolha, o degrau do vestibular, o degrau da primeira promoção, e vai por aí afora, numa escada que parece não ter fim.
Este modelo, aparentemente bem delineado e de grande aceitação, muitas vezes confunde o profissional na busca de sua ascensão na empresa.
O movimento de subir degraus parece ser o único caminho compatível com a conquista do sucesso profissional. Mudar de faixa salarial, de junior para sênior, passar de I para II, são as fórmulas prontas e padronizadas para as diversas carreiras. Tudo parece tão bem formatado e aceito por tantos, que não nos dedicamos a repensar o caminho para se alcançar o topo.
Acabamos por dedicar todo o nosso tempo para conquistar padrões já conhecidos, como se o topo estivesse sempre acima de nossas cabeças e só com o pescoço erguido poderíamos vislumbrá-lo.
Mas a realidade muitas vezes é outra, bem menos padronizada, bem menos lugar comum, bem mais pessoal. Ao caminharmos sempre com o pescoço erguido, nos privamos de conhecer as oportunidades ao nosso lado. Com o passar dos anos, os degraus não são galgados e a frustração pode tomar conta de nossos sonhos.
Permanecemos estáticos. Sentimos a derrota. É assim mesmo, poucos são os degraus para o alto e muitos são os pés a buscá-los. Mas na carreira profissional nem todas as escadas são para os padrões de ascensão que julgamos serem os únicos. Algumas escadas estranhamente insistem em nos manter no mesmo nível, por mais degraus que consigamos percorrer.
Pura ilusão. Na verdade nos mantém subindo como qualquer outra. São as chamadas “escadas laterais”.
A busca do conhecimento, da melhoria de capacitação, a conquista do prazer no trabalho, também fazem parte de nossa caminhada para o topo, embora sejam parte das “escadas laterais”, ampliando nossos horizontes e nos deixando preparados para as oportunidades de crescimento vertical.
O sucesso não é só galgar posições verticais, é crescer também na horizontal, buscando e conseguindo o que nos dá prazer. Este crescimento lateral se consegue com muito esforço, muita determinação e também muita observação.
Observação, sim. Muito do que podemos aprender, no sentido prático do conhecimento, pode vir de nossa simples observação. Observem como as empresas redirecionam suas estratégias em tempos de crise, ou mesmo em tempos férteis. Observem como seus colegas buscam o “conhecimento dirigido”, no contexto de conciliar o conhecimento com os prazeres pessoais e com os objetivos empresariais, evitando gastar o tempo em aprendizados de pouca utilidade na carreira.
É preciso vencer a inércia para mantermos nossa mente sempre alerta na captação do conhecimento. E ninguém pode fazer isto por nós. O conhecimento é o capital nobre das empresas e dos que nelas trabalham. Não pode ser tocado ou medido, mas igualmente gera bons resultados, como o capital financeiro. Assim, entre a conquista de um ou outro degrau, rumo ao alto, não podemos nos esquecer de galgar as escadas laterais na busca do conhecimento e do prazer.
São degraus de difícil conquista, e podem não ter o sabor forte da vitória, pois não nos dão a sensação imediata de crescimento.
Mas são eles que tornarão inequívoca nossa capacitação para as conquistas verticais. Não devemos nos entristecer se nossos colegas galgam degraus verticais com mais celeridade (“agregam cargos”) ao mesmo tempo em que somente subimos em escadas laterais (“agregamos conhecimento e prazer”).
Cada um tem seu próprio ritmo. Uma vida própria, diferente, como uma impressão digital. A riqueza está na compreensão desta diversidade e do que uso que fazemos dela. Se existe uma escada vertical, devemos trilhar as escadas laterais até que nossa oportunidade apareça.
Assim, estaremos sempre prontos. ”
O sucesso não é só galgar posições verticais, é crescer também na horizontal, buscando e conseguindo o que nos dá prazer.


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